Last Updated on 17 de fevereiro de 2024 by Wine Fun
Um dos mais conceituados produtores de vinho da Nova Zelândia, Rippon não é somente o nome de vinícola. Para Nick Mills, sua família e colaboradores, Rippon é muito mais, é uma parcela de terra, uma individualidade que melhor se expressa na produção de vinhos. Pode parecer um conceito abstrato para muitos, mas se adequa perfeitamente aos princípios da agricultura biodinâmica que este produtor aplica.
As funções dentro em Rippon também são difusas. Jo, esposa de Nick, quando das tratativas para esta entrevista, deixou claro que ele não é o enólogo, que seu papel é diferente. As pessoas aparecem muito mais como facilitadoras do processo no qual se Rippon se expressa, do que propriamente como partes determinantes ou preponderantes neste processo.
A seguir os principais trechos da entrevista com esta pessoa para lá de interessante. Antes de suas funções na vinícola que, juntamente com irmãos e irmãs, recebeu da família, dando continuidade a uma tradição que começou em 1912, foi esquiador profissional. Foi campeão neo-zelandês de mogul e só não participou do Jogos Olímpicos de Nagano em 1998 pois se contundiu, optando por encerrar a carreira.
Meio ambiente
WineFun (WF): Como o aquecimento global está afetando a Ilha do Sul da Nova Zelândia e seus vinhedos? Como os enólogos estão tentando lidar com isso?
Nick Mills (NM): Vou falar da situação de Central Otago, região onde atuamos e que pode ser descrita como o único clima continental da Nova Zelândia. Mesmo assim, porém, estamos muito sujeitos às influências oceânicas, como La Niña, por exemplo. Mas, antes de falar sobre o aquecimento global, é importante destacar alguns pontos sobre nossas condições. Somos possivelmente os últimos viticultores a colher no Hemisfério Sul, estamos falando de uma região fria, próxima das montanhas, com uma temporada curta de colheita e um clima semi-árido.
O aquecimento global, porém, está presente. Estamos notando que as safras estão ocorrendo antes, nossa safra mais precoce foi em 2018. Das cinco ou seis safras que começaram em março (geralmente começamos em meados para fim de abril), todas foram nos últimos 10 anos. Porém, o impacto na nossa viticultura tem sido praticamente nenhum. Mesmo em um ano quente como 2018, nossos vinhos não perderam o frescor, até por que mesmo neste ano tivemos geadas.
Agricultura biodinâmica
WF: Vocês sentiram o impacto de ir totalmente para a agricultura biodinâmica?
NM: Sim e não. Não porque, mesmo sem saber, já estávamos praticando uma forma de agricultura relativamente próxima da biodinâmica em um sentido: manter um relacionamento com a terra, como se ela tivesse uma identidade própria. Até por conta do nosso isolamento, no passado existia dificuldade para receber combustíveis, então toda propriedade era cultivada usando cavalos. De fato, cerca de 80% da área era usada para plantar culturas para alimentar os cavalos. Os alimentos da pequena comunidade também vinham da mesma terra, de forma que já existia uma individualidade, uma identidade na propriedade desde então. Após fazer cursos em biodinâmica, notei que os conceitos eram próximos.
De outro lado, houve sim uma mudança, pois a biodinâmica coloca um foco muito grande na energia que vai para semente, que agrega toda a informação que a planta está coletando do local onde vive. Com isso, os seus descendentes podem ser bem sucedidos neste local e manter o potencial que este território, que tem uma individualidade e que chamamos de Rippon. Nos vinhos, isso é refletido em um vinho com elementos fenólicos e acidez mais estáveis e que mostra uma textura diferenciada.
Elaborando vinhos
WF: Qual é a sua filosofia de vinificação, o que você mais busca ao produzir um vinho (desde a escolha das uvas até o fim do processo de vinificação)
NM: Talvez o que mais buscamos seja precisão, mas de uma forma diferente. Aqui não usamos a expressão enólogo, na verdade não lideramos ou forçamos processos, apenas guiamos o processo natural. Na verdade, nosso único papel é permitir que Rippon, como uma individualidade ou local, expresse o seu verdadeiro potencial.
WF: Há uma discussão interminável sobre o uso do SO2. Quais são as principais variáveis por trás de sua decisão de adicioná-lo ou não? Alguns enólogos consideram o destino final do vinho (devido ao transporte, possíveis problemas de temperatura etc) como uma variável. Isso se aplica a Rippon?
NM: Nenhum de nossos vinhos, seja aqueles comercializados exclusivamente na Nova Zelândia ou aqueles exportados, sofre qualquer ajuste no mosto, seja de acidez, açúcares e outros, e são lançados sem inclusão de aditivos. Em relação ao uso de sulfitos, temos vinhos no mercado local nos quais não adicionamos nada, mas sim para os vinhos que exportamos. E parte disso tem a ver com o transporte. Se pudéssemos intervir ainda menos, o faríamos, mas queremos maximizar o potencial de Rippon.
Diferenciais e Perfil
WF: Qual é o maior diferencial de Rippon, em que esta integração entre esta individualidade e vocês traz para os vinhos, em relação a outros produtores que atuam na sua região.
NM: Existem outros produtores que seguem conceitos relativamente próximos, como Burn Cottage, Felton Road, Quartz Reef e mais um ou dois. Em relação aos demais, o grande diferencial é que não compramos uva de terceiros, somos quase autosuficientes e de uma forma definidos por esta parcela de terra, somos uma entidade única. Dos cinco produtores originais da região, somente Rippon ainda existe no formato original e acredito que isso se deve a vários fatores.
WF: Qual seria o seu perfil como produtor?
NM: Podemos ser chamados de classisistas ou tradicionais. Acredito que, na questão de perfil, ficamos em uma espécie de meio-termo. Nossos vinhos podem ser servidos em um restaurante fino, mas também consumido por entusiastas de vinhos naturais em um wine bar descolado. Para alguns fãs de vinhos naturais, podemos parecer um pouco antiquados, estilo old school, enquanto para os mais conservadores, podemos parecer diferentões demais.
Safra e variedades
WF: Mencione uma safra histórica e por quê
NM: Por uma série de fatores, 2012 foi uma safra especial. Não estamos olhando apenas para fatores climáticos, mas para o conjunto criado inclusive pelas pessoas que participaram daquela safra. Foi o centenário da compra da propriedade por nosso bisavô e também 30 anos a partir de quando meu pai plantou a primeira parcela para fins comerciais. Além disso, foi uma safra muito especial por conta das condições climáticas, tudo isso refletindo em ótimos vinhos
WF: Qual variedade lhe dá mais satisfação em produzir? Por que isso?
É importante lembrar que no início meu pai experimentou 25 variedades diferentes e atualmente estamos restritos a apenas seis (Pinot Noir, Riesling, Gewürztraminer, Sauvignon Blanc, Osteiner e Gamay), que foram as que melhor se adaptaram. Mas dentre estas, acredito que Pinot Noir e Riesling se expressam muito bem, que se sentem mais confortáveis por aqui. Ambas são incríveis e de grande precisão.
WF: Quais são os maiores desafios para a vinificação na sua região? Qual é a sua resposta para isso?
NM: Meu pai talvez tenha sido o fundador desta região como área vinícola e o trabalho dele e outras pessoas colocaram Central Otago no mapa da viticultura. Algo que me incomoda aqui é que uma grande parte das uvas produzidas na nossa região vai para Marlbourogh, onde não consegue mostrar a expressão do trabalho feito aqui.
Preferências pessoais
WF: Mencione três de suas músicas favoritas.
NM: Out on a Weekend, de Neil Young, que é música que abre Harvest, um dos melhores álbuns jamais gravados, por que sei que terei 45 minutos de música maravilhosa na sequência. Aotearoa, que é basicamente nosso hino nacional seria uma segunda escolha. Como gosto mais de álbuns do que músicas específicas, posso citar também And the Circus Leaves Town, da banda Kyuss, que me recorda meus tempos como fã de punk-rock e heavy metal.
WF: Dois livros que você recomenda: um sobre vinho e outro sobre qualquer assunto
NM: Sensitive Chaos, de Theodor Schwenk, que discute a natureza da água e como os princípios da água permitiram o começo da vida. Um livro de ficção seria o último de Hilary Mantel, The Mirror and the Light, que encerra sua trilogia. Curiosamente, os dois anteriores receberam o Man Booker Award, e este não, difícil explicar, porque é muito bom.
Comentários Finais
WF: Fale sobre quaisquer aspectos adicionais de sua atividade que você gostaria de discutir!
NM: A decisão de comprar não deve vir de marcas, beber vinhos não deixa de ser um ato de agricultura. Estou aqui, de uma forma, parafraseando Wendell Berry, que definiu que comer é um ato de agricultura. A sua decisão de compra acaba afetando uma parcela de terra, não somente um produtor. Eu convido os consumidores a pensar no efeito que sua decisão de comprar tem na terra onde foram produzidos. Não temos mais tempo para pensar que comer ou beber não sejam um ato de agricultura. É hora de agir!
Imagem: Rippon, por Andy Katz