Uma uva branca que dá origem a vinhos de alta qualidade e de cultivo bastante concentrado em poucas regiões, porém em rápido crescimento. Esta é a Godello, como é conhecida na Espanha; ou Gouveio, seu nome em boa parte de Portugal. Quase extinta por conta da filoxera, manteve uma participação modesta por muitas décadas nos vinhedos de sua área original, o noroeste da Península Ibérica.
Todavia, isso vem mudando de forma significativa. Em função do crescente interesse dos consumidores por vinhos brancos, a Godello vem rapidamente ganhando espaço nos vinhedos portugueses e espanhóis, além de chamar a atenção de viticultores em outras partes do mundo. Na Espanha, por exemplo, sua área de vinhedos cresceu quase 60% somente entre 2018 e 2022. Se você ainda não conhece esta pérola da viticultura ibérica, vale a pena se familiarizar, até porque não faltam opções no mercado brasileiro.
História e origem
Existem evidências históricas que colocam as origens de Godello na Península Ibérica. Ela seria nativa do norte da Espanha, com cultivo desde os dias do Império Romano e sua conquista do Mediterrâneo Ocidental. Uma menção do filósofo e escritor romano Plínio, o Velho (23 – 79 dC) parece se referir à Godello. Presente na área de Bergidum Flavium, que corresponde ao que hoje chamamos de Bierzo, era cultivada por fazendeiros de toda a região e valorizada por seus aromas e sabores. Teria chegado a Portugal posteriormente, incluindo o Dão, onde autores como Ruy Fernandes e Lacerda Lobo, no século XVI, a chamavam de Verdelho do Dão.
Embora no noroeste da Espanha a Godello tenha prosperado até a chegada da filoxera, sobretudo por conta da presença de diversos monastérios na região, em Portugal o cenário foi diferente. Por muitos anos a Gouveio foi confundida com a Verdelho, uva branca usada para a elaboração de vinhos Madeira. Foi somente com o uso de técnicas de análise de DNA que pesquisadores identificaram que, na verdade, se trava da Godello.
Ainda não há uma definição exata da árvore genealógica desta variedade, embora alguns estudos a coloquem como descendente da Savagnin. Pesquisas mais recentes teriam também identificado uma relação genética próxima com a espanhola Verdejo.
Características e vinhos
A Godello é uma casta produtiva, com floração e colheita relativamente precoce. Seus rendimentos são generosos, o que exige atenção especial para o controle do crescimento das plantas e cachos. Ela é sensível ao oídio e às chuvas tardias, por conta, sobretudo, de seus cachos pequenos e compactos. São grãos pequenos a médios, de formato redondo e coloração amarelo-esverdeada.
Algo que chama a atenção é a sua adaptabilidade a diferentes terroirs. Diversos enólogos destacam sua capacidade de prosperar em qualquer tipo de solo, indo desde os solos com alta proporção de argila até aqueles de granito ou mesmo xisto. No entanto, prefere climas mais frios e vinhedos com menor exposição solar, já que calor extremo pode acelerar ainda mais sua maturação, afetando o equilíbrio entre acidez e álcool.
Por conta de sua elevada acidez natural e alta concentração de açúcares, dá origem a vinhos finos, elegantes, frescos e com muita vivacidade. Em geral, os vinhos trazem aromas cítricos e florais, além de notas de pêssego e anis, com bom equilíbrio entre acidez e açúcar. Por conta destas características, são vinhos com excelentes condições para bom envelhecimento em garrafa.
Área plantada
Na ausência de dados compilados pela OIV, os dados divulgados pelas autoridades portuguesas e espanholas ganham importância. Em 2022 havia cerca de 3 mil hectares de Godello distribuídos pelos dois países, com destaque para a Espanha, com 1.744 hectares. Isso a coloca em um patamar semelhante, a nível de hectares plantados no mundo, a uvas como a italiana Cortese e a francesa Gros Manseng.
Na Espanha, a área de maior plantação é a Galícia, com cerca de 1.300 hectares, concentrados nas denominações de origem Valdeorras, Monterrei e Ribeira Sacra. Já em Castilla y León, são quase 400 hectares, centralizados sobretudo na denominação de origem Bierzo. Em Portugal, o Douro mostra a maior área de vinhedos (700 hectares), seguido por Trás-os-Montes (300 ha) e Alentejo (240 hectares, onde é chamada de Verdelho).
Nomes alternativos
Se na Espanha existe uma relativa uniformidade no uso do nome Godello, em Portugal há diversas variações. Até 2000 era chamada de Verdelho em boa parte dos país, porém a partir de então o nome Gouveio passou a ser usado de forma mais ampla. Apesar disso, no Alentejo segue o uso no nome anterior, com nomes alternativos como Gouveio Real, Guveio, Godelho, Verdeiho, Verdeleu e Verdelho do Dão ainda sendo usados.
Fontes: Foundation Plants Services Grapes, UC Davis; Distribution of the World´s Grapevine Varieties, OIV; Instituto da Vinha e do Vinho; Ministerio de Agricultura, Pesca y Alimentación España; Viveros Vilanueva; EFE Agro; Campo Gallego; Vitivinicultura; Determination of relationships among autochthonous grapevine varieties (Vitis vinifera L.) in the Northwest of the Iberian Peninsula by using microsatellite markers, Martin et al; Cellar Tours