Richebourg: uma das pérolas de Vosne-Romanée

O nome Richebourg desperta paixões entre os amantes de grandes vinhos. Este vinhedo Grand Cru de pouco mais de oito hectares e situado na área da commune de Vosne-Romanée dá origem a alguns dos melhores – e mais caros – vinhos da Borgonha. Por exemplo, dentre os Grands Crus produzidos pela Domaine de la Romanée Conti (DRC), Richebourg costuma ser o terceiro mais caro, somente atrás do vinho que dá nome à vinícola e La Tâche. Ao contrário dos dois anteriores, que são monopoles, Richebourg, porém, conta com diversos produtores.

Dentre os Grands Crus de Vosné-Romanée, Richebourg dá origem aos vinhos mais potentes e estruturados. São tintos com uma carga tânica superior aos vinhos provenientes de La Romanée-Conti, La Romanée, La Tache ou Romanée Saint-Vivant, por exemplo. Por conta disso, demandam maior tempo de adega. Em geral, não se recomenda abrir uma garrafa antes de 10 anos, com potencial de guarda muitas vezes superando 30 anos.

O vinhedo e produção

Com 8,05 hectares, Richebourg se situa na área central da commune de Vosne Romanée, imediatamente ao norte de La Romanée-Conti e de La Romanée. É um vinhedo relativamente homogêneo, com altitude variando entre 295 e 255 metros. São solos argilo-calcários e com subsolo de calcário de Premeaux, datado do período Jurássico (175 milhões de anos atrás). O vinhedo contém dois lieux-dits: Les Richebourgs (5,07 hectares) e Les Verroilles (também chamado de Richebourgs), com 2,98 hectares.

Os vinhedos de Vosne-Romanée

Richebourg, assim como os demais Grands Crus da Borgonha, é uma denominação de origem separada. Sua criação se deu em 1936, embora a demarcação da área tenha ocorrido em 1924. O vinhedo conta somente com plantio de Pinot Noir, com a produção focada 100% em vinhos tintos. Sua densidade mínima é de 9 mil plantas por hectare, da mesma forma que em outras Grands Crus da região.  Em média, a produção anual fica em torno de 200 hectolitros, que corresponde a cerca de 26 mil garrafas.

Nome e história

Há uma curiosa controvérsia sobre o nome Richebourg. A primeira menção data de 11 de março de 1520, em um contrato que regeu uma troca de vinhedos. As partes envolvidas foram os monges da Abadia de Saint-Vivant e um certo Pierre Janniard, que teria repassado as terras onde fica hoje o vinhedo. O nome, grafado como Richebord, teria origem em duas palavras do francês arcaico. Riche vem do idioma franco, com tradução como “rico” ou “poderoso”. Já Bord viria do latim e na França da época era usado como sinônimo para “bastardo” Teria este vinhedo pertencido a um filho ilegítimo rico? Ou era propriedade do bastardo de uma família local com muitas posses? A resposta deve seguir sendo um mistério

O que realmente importa é que o vinhedo tem uma longa história ligada à elaboração de grandes vinhos. Boa parte do vinhedo pertenceu aos monges cistercienses até a Revolução Francesa. Em 1816, o autor Jullien, em sua Topographie de tous les vignobles connus, citou o vinho de Richebourg como “primeira classe” entre os “vinhos finos” da Borgonha. Esta avaliação segue em classificações posteriores, como a Lavalle em 1855, que a classificou como Tête de Cuvée Hors Ligne. O mesmo ocorreu na classificação de 1860 do Comitê de Viticultura de Beaune, que classificou todos os vinhos de Vosne-Romanée como Premiére Classe.

A partir do século XIX, a localidade vizinha, Véroilles sous Richebourg, passou a exibir fama próxima à de Richebourg. No início do século XX, os vinhos de Véroilles sous Richebourg eram comumente comercializados sob o nome Richebourg, apesar de algumas discordâncias. A disputa foi levada ao tribunal de Beaune, mas resolvida de forma amigável. Em 1924, o Tribunal de Apelação de Dijon, reconhecendo a conformidade do acordo, ratificou a inclusão de Véroilles sous Richebourg no climat Richebourg.

Os produtores

Apenas onze produtores da Borgonha possuem parcelas em Richebourg, sendo a Domaine de la Romanée-Conti, com 3,51 hectares (ou quase 44% do total) o maior proprietário. São três blocos distintos, um na divisa com La Romanée Conti e com La Romanée, outro logo acima de Romanée Saint-Vivant e um terceiro próximo ao Premier Cru Les Suchots.

Em um segundo lugar distante vem outro produtor icônico da Borgonha, a Domaine Leroy. A área é de 0,78 hectare em dois blocos distintos, o maior dele exatamente entre o segundo e terceiro blocos da DRC. Destaque também para as parcelas das três vinícolas resultantes da divisão dos vinhedos da Domaine Jean Gros (Domaine Gros Frère & Soeur, Domaine Anne Gros e Domaine A-F Gros), cada uma com 0,6 hectare.

O restante fica nas mãos de Thibault Liger-Belair (0,52 hectare), Domaine Méo-Camuzet (0,35 ha), Domaine Jean Grivot (0,32 ha), Domaine Mongeard-Mugneret (0,31 ha), Domaine Hudelot-Noëllat (0,28 ha) e Domaine du Clos Frantin, que pertence ao négociant Albert Bichot (0,07 ha).

Fontes: Vins de Bourgogne; Wine Scholar Guild; Inside Burgundy, Jasper Morris; The Climats and Lieux-dits of the Great Vineyards of Burgundy, Marie-Hélene Landrieu-Lussigny & Sylvian Pitiot

Mapas: Vins de Bourgogne

Imagens: Arquivo pessoal

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