Os Supertoscanos ganharam o mundo, representando uma expressão distinta do vinho italiano. Nomes como Sassicaia, Masseto, Ornellaia e Tignanello, entre outros, obtiveram enorme projeção a partir dos anos 1980, trazendo uma face da Toscana que não era, originalmente, reconhecida pelas principais denominações de origem da região.
Mas o que são estes vinhos? Esta é uma pergunta bastante relevante e não tão fácil de ser respondida. Eles surgiram, a partir do final dos anos 1960, como resposta às estritas regras de algumas denominações de origem. Pelos regulamentos, a Sangiovese deveria ser a variedade principal, mas havia também obrigação da presença de outras uvas autóctones, incluindo brancas, como a Trebbiano.
Em resposta a estes regulamentos bastante restritivos, alguns produtores resolveram ousar. Começaram a elaborar vinhos que, por conta do uso de uvas não aceitas, não podiam ser engarrafadas como, por exemplo, Chianti Classico. Por não respeitar as determinações das denominações de origem, seu engarrafamento era como Vino di Tavola, o nível mais básico da pirâmide de qualidade do vinho italiano.
Muita diversidade
O termo Supertoscano começou a ser usado na década de 1980, porém está longe de indicar qualquer tipo de homogeneidade entre os vinhos assim chamados. No fundo, eles não respeitavam as regras das denominações de origem, porém podiam traçar qualquer caminha alternativo. Por exemplo, houve quem optasse por não fugir tanto da tradição de vinhos tintos da Toscana, usando 100% Sangiovese.
Por outro lado, diversos dos Superstoscanos contam com uma elevada participação de variedades de origem francesa, sobretudo aquelas mais comuns na região de Bordeaux. Cabernet Sauvignon, Merlot e Cabernet Franc passaram a ser as uvas principais de muitos vinhos toscanos, seja no formato clássico dos cortes bordaleses, como monovarietais ou tendo também a presença, geralmente minoritária, da Sangiovese.
Por conta disso, para entender melhor os Superstoscanos, é necessário primeiro entender qual a sua composição em termos de variedade. Além disso, vale a pena também saber qual a origem das uvas. De um lado, há produtores que usam uvas de vinhedos de áreas tradicionais, como Chianti Classico ou Montalcino. Outros, por sua vez, optaram por áreas onde a vinicultura tinha muito menos tradição, como nas áreas costeiras de Maremma.
Sangiovese versus uvas de Bordeaux
Se a Itália preza muito suas uvas autóctones, quando falamos de Supertoscanos, a primazia fica com as variedades francesas. Começando pelos vinhos mais icônicos, Masseto (cerca de 95% Merlot, com 5% de Cabernet Franc desde 2019), Sassicaia (85% Cabernet Sauvignon e 15% Cabernet Franc) e Ornellaia (cerca de 50% Cabernet Sauvignon, com o resto entre Merlot, Cabernet Franc e Petit Verdot) focam exclusivamente nas uvas de Bordeaux. A Sangiovese aparece com cerca de 20% no Solaia e 80% no Tignanello.
Outros Supertoscanos com cortes bordaleses são Massetino (entre 90% e 95% de Merlot), Brancaia il Blu (80% Merlot), Guado al Tasso e Tenuta di Trinoro (blend varia bastante), Biserno (cerca de um terço de cada uma das principais uvas de Bordeaux), Giusto di Notri (80% Cabernet Sauvignon), Le Stanze (90% Cabernet Sauvignon), Ca’Marcanda Magari (50% Merlot). Já a Merlot aparece como monovarietal para Redigaffi, L’Apparita, Galatrona, Palafreno, enquanto a Cabernet Franc aparece in purezza no Le Macchiole Paleo Rosso, Campo di Camagi e Campo di Magnacosta.
A Sangiovese é protagonista única no Pergole Torte, Cepparello, Sangioveto, Fontaloro, La Gioia, Colore e Testamatta, os dois últimos produzidos por Bibi Gratez. Aparece também como uva principal no Balifico, Concerto di Fonterutoli, com 50% do corte no Siepi e no Luce e como variedade minoritária no Camartina e Cabreo.
Quais áreas da Toscana
Apesar dos Superstoscanos terem colocado em evidência os vinhedos de Maremma (sobretudo a sub-região de Bolgheri), a maioria deles ainda tem origem nas partes mais centrais da Toscana. Boa parte dos vinhedos se concentra em áreas que fazem parte da denominação de origem Chianti Classico. Exemplos são vinhedos nos communi de Gaiole in Chianti, Greve in Chianti e Radda in Chianti.
Porém, dentro do grupo dos Superstoscanos mais caros, há uma participação significativa dos vinhos elaborados a partir de vinhedos em Maremma. Entre eles, vale a pena destacar Masseto, Sassicaia, Ornellaia, Massetino, Redigaffi, Guado al Tasso e Biserno.
Diferentes escalas de preços
Se desde o início já era difícil definir o que é um Supertoscano, hoje isso é ainda mais complexo. São muitos vinhos da região que fogem ao corte tradicional, o que leva muita gente a adotar uma condição extra: preço. Assim, para ser chamado de Supertoscano, um preço de venda mais elevado pode ser pré-requisito. Complicado, porém, é saber qual seria a “nota de corte”: € 50? € 100?
Não há qualquer dúvida que aqueles mais caros fazem parte deste seleto grupo: Masseto (preço médio de € 1.000 por garrafa, na Europa), Massetino (€ 450), Solaia (€ 425), Sassicaia (€ 350), Le Pergole Torte (€ 280), Redigaffi (€ 270), Colore (€ 240), L’Apparita (€ 230) e Tenuta di Trinoro (€ 230). Uma olhada de perto na lista acima mostra uma alta proporção de vinhos elaborados com variedades de Bordeaux, com as exceções sendo Le Pergole Torte e Colore.
No segundo patamar da prateleira de preços, entre € 100 e € 200, aparecem nomes como Biserno, Tignanello, Flaccianello, Le Macchiole Paleo Rosso e Guado al Tasso (todos na faixa de € 150), Ceparello, Camartina, Palafreno e Galatrona (€ 120), Siepi (€ 110), além de Luce e Testamatta (€ 100).
Imagem: Klaus Stebani via Pixabay