Degustar a nova safra dos vinhos de Craig Hawkins, que chegam ao Brasil pela Wines4U, é sempre um prazer. São vinhos precisos e autênticos, que exploram diferentes varietais (com um certo viés para a Chenin Blanc) e vinhedos na região de Swartland. Desta vez, foi a safra 2022, que mostrou uma peculiaridade. O período de vindima começou mais tarde do que o normal, devido a um clima mais fresco até dezembro. Porém, justo no período mais propício para a colheita, houve uma onda de calor intenso, que acelerou a maturação das uvas e mexeu com nível de acidez e perfil de fruta.
Neste post vamos focar nos vinhos brancos, com exceção dos Chenin Blanc de maceração, que serão descritos juntamente com os tintos em um post futuro.
I am the Ninja 2022, 9,1% R$ 289
Craig Hawkings elabora dois pét-nats diferentes, este utilizando a Chenin Blanc e o I Wish I Was a Ninja, com a Colombard. Neste caso, são quatro hectares de vinhas velhas em bush vines, plantadas em 1961 em solos de arenito. Após colheita manual e prensagem direta em tanques de inox, o suco ficou 25 a 30 dias a baixas temperaturas (4ºC). Após trasfega, a fermentação começou e, quando o açúcar residual atingiu 35g/l, o vinho foi engarrafado por 10 meses, passando por dégorgement, sem adição de sulfitos ou qualquer outro aditivo.
Craig sempre busca um perfil mais seco para seu pét-nat de Chenin, mas nesta safra a diferença de açúcar residual para o I Wish I was a Ninja foi bem menor. Se em 2021 o residual foi de 12,7 g/L, em 2022 foram 19 g/L, porém compensado por um pH mais baixo.
I Wish I Was a Ninja 2022, 9,1% R$ 289
As uvas provêm de um vinhedo plantado em 1998 próximo a um rio, em solos de granito decomposto e com cultivo orgânico. A vinificação, de forma geral, seguiu o anterior, porém com maior número de trasfegas e açúcar residual de 60 g/L no engarrafamento. Após dégorgement, o residual caiu para 29,5 g/L, em linha com os 30 g/L de 2021, porém com pH mais alto e acidez total bem menor. Da mesma forma que o anterior, um pét-nat menos elétrico e vibrante que em 2021, com menos acidez para compensar o elevado teor de açúcar residual.
Baby Bandito Keep on Punching 2022, 11,6% R$ 239
Este é, na minha visão, o cartão de visita da Testalonga, não somente pela alta qualidade (há vinhos ainda mais refinados na linha), mas pelo seu incrível custo-benefício. Uvas do mesmo vinhedo usado no I am the Ninja. Na vinificação, após prensagem com cachos inteiros, fermentação em foudre de 3500L e em tanque de aço inoxidável de 2000L, com uso exclusivo de leveduras indígenas, seguida por conversão maloláctica, leve filtração e adição de sulfitos antes do engarrafamento.
O próprio Craig explicou esta safra em poucas palavras: 2022 foi desafiador. “Embora boa parte da safra teve condições perfeitas, na hora da colheita houve uma onda de calor, paralisando a maturação das uvas. Foram necessárias várias passagens no vinhedo para obter os níveis certos de acidez, de forma a equilibrar o vinho”. Apesar das condições adversas, novamente um excelente vinho, embora com menos acidez e tensão do que aquele da safra anterior. Flor seca e cítrico no nariz, fresco e cheio de energia na boca, com textura fina e longa persistência.
El Bandito Cortez 2022, 11,6% R$ 425
Como sempre, um vinho complexo e encantador, justificando a opinião do vinhateiro: “Para mim, este é provavelmente meu Chenin Blanc com mais complexidade e longevidade.” Videiras plantadas em 1972 em solos de alta proporção de quartzo e sílica, com cultivo orgânico desde 2001. Na vinificação, cachos inteiros fermentados em barris usados de 500 litros e tanque de aço de 1500 litros por 6 meses. Conversão maloláctica, leve filtração e adição de SO2 antes do engarrafamento.
Uma espécie de versão “amplificada” do Baby Bandito. No nariz, aromas intensos de flores secas, frutas brancas (pera), cítricos e leve toque redutivo, com um palato marcado por acidez alta (menor que o 2021, porém), precisão, fruta fresca e elegante, discreta salinidade e ótima estrutura. Mesmo em uma safra complicada, um grande vinho.
El Bandito Lords of Dogtown 2022, 12,5% R$ 425
100% Chenin elaborado a partir de um pequeno vinhedo plantado em 1981, depois abandonado, mas recuperado por Craig e sua equipe. Vinificação em linha com o anterior. Um Chenin Blanc com mais fruta (pêssego, cítrico mais maduro) no olfativo, com um palato mais rico e untuoso, com mais matiére e menos tensão que o El Bandito Cortez.
El Bandito Lekker 2022, 12,8% R$ 995 (Magnum)
Este Chenin Blanc sai somente em magnum, originalmente criado para um seleto grupo de clientes da Noruega (Lekker significa ‘incrível’ em norueguês e africâner). As uvas provêm de um vinhedo plantado em 1998 e de solos arenosos, a apenas 20 quilômetros do mar. Na vinificação, fermentação e estágio em barril de 500 litros de carvalho usado.
Juntamente com o El Bandito Cortez, o principal destaque do painel. Mais pronto para consumo, um vinho que mostrou olfativo com frutas brancas, flores secas e discreta nota de maresia, com muita tensão e precisão na boca. Elegante e refinado, um Chenin Blanc de alta gama.
El Bandito Sweet Cheeks 2022, 12,3% R$ 425
Este monovarietal de Moscatel de Alexandria conta com vinhas velhas, plantadas em 1952 em solos de granito decomposto em Paardeberg. Na vinificação, as uvas, 100% desengaçadas, passaram por prensagem após 10 dias de contato com as cascas. O vinho envelheceu em barris usados de 550 litros e foi engarrafado após leve filtração. Olfativo marcado por aromas de tangerina e ervas verdes, com um palato fino e refinado, com alta acidez, boa presença de fruta e muita salinidade. Surpreendente e delicioso!