Last Updated on 25 de agosto de 2020 by Wine Fun
Se as uvas francesas, como Cabernet Sauvignon ou Chardonnay, atualmente dominam os vinhedos dos países das Américas, no passado este quadro era muito diferente. Desde o início da colonização do continente, os espanhóis e portugueses buscaram replicar por aqui o seu modo de vida, incluindo o consumo de vinho.
Embora as Américas já tivessem videiras selvagens, da espécie Vitis Labrusca, os europeus trouxeram a Vitis Vinifera, consideradas até hoje muito superiores para a elaboração de vinhos. E sendo os espanhóis os primeiros colonizadores, não é surpresa que diversas variedades espanholas tenham sido introduzidas.
Uvas espanholas
Em um texto de 1513, Alonso de Herrera listou 17 variedades amplamente plantadas no Reino de Castilla (na epoca composto por Castilla, Extremadura e Andalucia). São elas: Albillo, Torrontés, Moscatel, Cigente, Jaén, Hebén, Alarije, Malvasía, Lairén, Palomina Negra, Aragonés, Tortozón (hoje conhecida como Tortosina), Herrial, Vinoso, Castellano Blanco, Castellano Negro e Uvas Prietas.
Por outro lado, mais de 50 antigas variedades (excluindo as que foram trazidas da Europa, sobretudo da França, a partir do século XIX), incluindo sinônimos e homônimos, ainda são cultivadas na América. São as chamadas uvas Criollas. Mas até pouco tempo não se sabia qual a relação com as variedades espanholas que estabeleceram a viticultura americana.
Descoberta
Foi em janeiro de 2007 que cientistas espanhóis fizeram uma importante descoberta. Uvas como País, Uva Negra Vino, Viña Blanca, e Viña Negra (todas no Chile), Criolla Chica (Argentina), Rosa del Perú e Negra Corriente (Peru), Misión (México) e Mission (Estados Unidos) são, na verdade, apenas nomes diferentes para uma variedade espanhola, a Listán Prieto.
Porém, a presença desta uva nas Américas, atualmente extinta na Espanha continental e somente presente nas Ilhas Canárias, é mais ampla. Além de ter se desenvolvido de forma exponencial na região, sobretudo por conta de ser a uva usada pelos jesuítas nos vinhedos das missões, a Listán Prieto também está presente de outras formas.
Duas uvas européias prosperaram
Além da Listán Prieto, os espanhóis trouxeram outras variedades. E uma delas foi a Moscatel de Alexandria, variedade muito comum até hoje em todo o Mediterrâneo. Sua presença na Península Ibérica foi relatada pelo agrônomo Abu Zacaria no século XII e há evidências que tenha sido trazida para as Américas pelos conquistadores.
Um documento de 1616 indica que o espanhol Francisco de Caravantes introduziu as primeiras videiras no Peru, a partir das Ilhas Canárias. Duas variedades são descritas: Moscatel e Uva Prieta ou Palomina Negra (que possivelmente era o nome antigo da Listán Prieto). E foram estas duas uvas que deram origem à grande maioria das variedades Criollas.
Variedades autóctones
O mesmo estudo de 2007 que associou a Listán Prieto à País e Mission, entre outras, também apontou a Moscatel de Alexandria como fonte de material genético para diversas variedades comuns nas Américas. Assim, pelo cruzamento natural entre Listán Prieto e Moscatel de Alexandria, mais de 40 outras variedades surgiram.
Entre elas estão Torrontés Riojano, Torrontés Sanjuanino, Cereza, Moscatel Amarillo (também conhecida como Torrontel), Criolla Grande, Criolla Mediana e Torrontés Mendocino. Como nenhuma destas uvas é encontrada na viticultura europeia, isso sugere que elas se originaram no Novo Mundo.
O estudo mostrou que das 52 amostras de uvas analisadas, seis eram sinônimos da Listán Prieto, duas da Moscatel de Alexandria (duas amostras de Moscatel Grano Gordo), duas de outra variedade espanhola, a Negra Mollar (Mollar e Negra Criolla). Todas as demais resultaram do cruzamento entre Listán Prieto e Moscatel de Alexandria.
Fontes: Determining the Spanish origin of representative ancient American grapevine varieties, Cabezas et al; Tim Atkin; South America Wine Guide
Imagem: Anonymous Traveller do Pixabay