Uvas PIWI agora também no Sudeste do Brasil

Uvas híbridas, também chamadas de PIWI, chegam agora também ao Sudeste do Brasil, mais especificamente em Andradas-MG. Para nosso leitor, as uvas PIWI não são totalmente novidade: o termo deriva da palavra alemã PlzWIderstandsfähigen, que significa resistente a doenças fúngicas. Trata-se de um grupo de variedades de uvas obtidas nos últimos anos via melhoramento genético, oriundas de cruzamentos de variedades viníferas com espécies selvagens.

Em Santa Catarina desde 2020, há estudos pela EPAGRI com as uvas viníferas Felícia e Calardis Blanc, que são uvas PIWI, ou seja, possibilitam elaboração de vinhos finos, com sustentabilidade e economicamente viáveis. O objetivo é reunir numa só planta a qualidade das viníferas e a resistência à doença das selvagens, permitindo a produção de vinhos finos com menos custos e impactos ambientais reduzidos.

A uva Felicia, imagem da EPAGRI

PIWI ganhando espaço no Brasil

As variedades Felícia e Calardis Blanc foram desenvolvidas na Alemanha pelo Instituto Julius Kühn, que é parceiro da Epagri. André Luiz Kulkamp de Souza, pesquisador da Estação Experimental da Epagri em Videira e coordenador do projeto, explica que durante oito anos elas foram testadas para cultivo em cinco regiões de Santa Catarina: Água Doce, São Joaquim, Curitibanos, Videira e Urussanga. “As duas mostraram boa adaptação aos diferentes climas catarinenses”, destaca. 

Mas a boa nova nos chega da EPAMIG (Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais). Ela está testando uvas PIWI de origem italiana em Andradas-MG. Há uma parceria com o viticultor Procópio Stella da vinícola Stella Valentino, que recebeu o vinhedo experimental em outubro de 2021, e do viveiro italiano Vivai Cooperativi Rauscedo, que forneceu as mudas das híbridas tintas e brancas, que estão sendo avaliadas.

Nova geração

O interessante destas uvas é que podem receber no Brasil, assim com acontece na Europa, o registro de variedades Vitis Vinifera, aptas, portanto, à elaboração de vinhos finos. “Trata-se de uma nova geração de híbridos europeus, obtidos por retrocruzamentos e seleção assistida por marcadores moleculares, que apresentam mais de 85% de genes da espécie Vitis Vinifera, a qual pertencem as variedades de uvas utilizadas para elaboração de vinhos finos”, explica a pesquisadora da EPAMIG, Claudia Souza, que coordena o trabalho, juntamente com a equipe de pesquisa do Campo Experimental de Caldas.

“As uvas PIWI tem alcançado destaque no setor vitivinícola, não somente pela resistência aos patógenos, mas também pela notoriedade dos seus vinhos, que apresentam, muitas vezes, perfil similar aos vinhos das suas progenitoras, como as tradicionais Merlot, Cabernet Sauvignon, Sauvignon Blanc e Pinot Noir”, acrescenta a pesquisadora.

Primeiras avaliações

Já ano passado, em fins de 2023, as videiras experimentais tiveram seus frutos colhidos e vinificados. São vinhos das variedades Sauvignon Kretos, Sauvignon Rytos, Fleurtai e Soreli (brancos), e Cabernet Eidos, Cabernet Volos, Merlot Khantus e Merlot Khorus (tintos). O painel composto por 21 degustadores de diferentes perfis (pesquisadores, técnicos, viticultores e consumidores) conferiu nota global superior a 70% para os vinhos avaliados.

“Nesta primeira colheita, as cultivares foram bem produtivas, com rendimento variando de 1kg a 3kg por planta. Esses vinhos experimentais foram elaborados com interferência mínima durante o processo de vinificação. E os resultados revelam o bom potencial produtivo e enológico dessas variedades no Sul de Minas Gerais”, avalia Cláudia Souza, que alerta: “Este estudo ainda está em andamento e, para ter resultados mais conclusivos, será necessário avaliar mais uma safra de verão”.

Colheita de verão

As variedades de uvas PIWI vêm sendo testadas para a safra de verão, com colheita entre os meses de novembro e janeiro. “É uma novidade muito positiva para nós. A precocidade dessas uvas, fez com que a colheita acontecesse já no mês de novembro, portanto, antes do período chuvoso, que aqui se intensifica na segunda quinzena de dezembro. Temos as uvas Syrah e outras que já cultivamos com sucesso na safra de inverno. E em paralelo, a oportunidade de incluir essas novas variedades e termos produção de vinhos finos também no verão”, analisa o vitivinicultor Procópio Stella.

Stella, que desde 2003 desenvolve experimentos em parceria com a EPAMIG, principalmente para a dupla poda,  se mostra bastante otimista com as novas opções. “Além da precocidade, estas variedades apresentam uma real tolerância a doenças, o que representa menos defensivos e mais sustentabilidade”. E exalta a pesquisa. “É um apoio imprescindível, o acompanhamento, as recomendações, os testes em laboratórios. A pesquisa está em primeiro lugar. É o meu referencial para a tomada de decisões”.

Cultivo de inverno

A pesquisadora Cláudia Souza informa que o trabalho também vai avaliar o potencial agronômico e enológico dessas variedades durante o cultivo de inverno. “O emprego das uvas PIWI poderá contribuir para reduzir os gastos com fungicidas, aumentar a sustentabilidade dos vinhedos e diversificar a produção de vinhos em Minas Gerais”, conclui.

Recebi as informações direto do Sr. Procópio, a quem conheço e louvo o trabalho de tantos anos, em prol da colheita de inverno.

Até o próximo brinde!

Álvaro Cézar Galvão conhecido como O Engenheiro Que Virou Vinho, me dedico a comentar, escrever, divulgar, dar palestras e ministrar cursos de vinhos, bebidas destiladas e a harmonização com a gastronomia. Assino dentre outras mídias o site Divino Guia www.divinoguia.com.br

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Fotos: Álvaro Cézar Galvão, arquivo pessoal

Fonte e imagens: Helix

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