Last Updated on 21 de outubro de 2020 by Wine Fun
Para toda regra, sempre existe uma exceção. E isso também se aplica ao mundo do vinho. Na maioria dos casos, uvas tintas resultam em vinhos tintos e variedades brancas em vinhos brancos. Porém, existem várias exceções, pois é possível elaborar vinhos rosés e mesmo brancos a partir de uvas tintas. E eles são elaborados ao redor do mundo, como, por exemplo, em Portugal e na Itália.
Isso é possível porque a coloração do vinho vem da tonalidade e do tempo de exposição com as cascas, que é parte da uva que concentra a cor. Após a prensagem das uvas, se o mosto resultante for mantido em contato com as cascas, ele tende a absorver, entre outros compostos, sua coloração, pois é na casca das uvas tintas que ficam as antocianinas (responsáveis pela cor).
Vinhos brancos de uvas tintas
Portanto, se partirmos de uma uva tinta, caso seja mantida em contato com as cascas por um bom tempo, teremos um vinho tinto. Se este contato for curto, podemos ter um vinho rosé. Por fim, caso as cascas sejam retiradas imediatamente, é possível elaborar um vinho branco a partir de uvas tintas.
Tudo isso tem a ver com fato de que a parte interna da grande maioria das uvas é clara, não tem a coloração da casca. Assim, a polpa de uma uva tinta como Cabernet Sauvignon ou Tempranillo, por exemplo, é da mesma coloração de uma variedade branca, como Chenin Blanc ou Riesling. Porém, grande maioria não é totalidade, pois aqui também existem exceções: são as uvas teinturier, ou tintoreiras.
Uvas teinturier ou tintoreiras
No caso destas variedades tintas, não somente a casca tem coloração, mas também a polpa. Ou seja, mesmo que as cascas sejam retiradas imediatamente, o vinho resultante será tinto. Isso ocorre porque existem antocianinas também na polpa, não somente nas cascas, como no caso da esmagadora maioria das variedades tintas. O nome delas vem do francês, já que teinturer pode ser traduzido como aquele que mancha, que tinge. Um nome bem adequado.
Estas variedades são relativamente raras atualmente, mas tem chamado a atenção tanto de enólogos como degustadores, por sua tipicidade. Uma uva que tem chamado mais atenção é a Saperavi, originária da Geórgia e que tem boa visibilidade por conta da crescente popularidade dos vinhos deste país, possivelmente o berço da viticultura mundial.
Em geral, as tintoreiras são usadas como parte de blends, com a intenção de trazer uma coloração mais intensa para os vinhos tintos. Porém, são também vinificadas como monovarietais, apresentando uma coloração bastante intensa e escura.
Alicante Bouschet
Se a Saperavi tem chamado a atenção, a mais conhecida, porém, segue sendo a Alicante Bouschet. Ela é plantada com mais frequência na Península Ibérica, mas também em outros países, inclusive no Brasil. Esta variedade é resultado do cruzamento entre Petit Bouschet e Garnacha, realizado em 1885 pelo francês Henri Bouschet.
A Petit Bouschet, por sua vez, também é um cruzamento, entre a Aramon Noir e a Teinturier du Cher, realizado pelo pai de Henri, Louis Bouschet. Como o nome indica, a característica de coloração na polpa veio da Teinturier du Cher, uma uva que chegou a ser muito difundida na Europa durante a Idade Média.
Disponível no Brasil
Para quem quiser provar um vinho de uvas tintoreiras, existem opções no Brasil. Entre eles está o Alicante Bouschet elaborado pela vinícola gaúcha Pizzatto. Segundo Flavio Pizzato, enólogo da empresa, é uma variedade que traz, como esperado, muita cor ao vinho, exigindo uma maceração mais rápida e cuidados especiais na vinificação.
Curiosamente, é uma variedade que pode ser rapidamente identificada não somente pela coloração de sua polpa. Segundo Pizzato, as videiras de Alicante Bouschet mostram uma folhagem de cor avermelhada perto do período de colheita, ou seja, a questão da coloração distinta não se resume à somente à polpa.
Fontes: Foundation Plants Services Grapes, UC Davis; Wine Folly; Dico du Vin; Georgia: A guide to the cradle of wine, Miquel Hudin & Daria Kholodolina (2017); Foundation Plants Services Grapes, UC Davis.
Imagem: Andreas Almstedt via Pixabay