Vinhedos mais naturais ou de menor custo: conheça o glifosato, pivô de discórdia também na viticultura

O cultivo de vinhedos adotando os princípios da agricultura sustentável, orgânica e biodinâmica segue crescendo ao redor do mundo. Além dos benefícios ao meio ambiente, os produtores notaram que vinhedos tratados de forma mais natural e sem o uso de produtos químicos sintéticos podem resultar em vinhas mais saudáveis e vinhos melhores.

E quando se fala de produtos químicos sintéticos, um nome chama a atenção: glifosato. Cerca de 800 milhões de toneladas deste herbicida são despejados anualmente no mundo em diversos cultivos, inclusive na viticultura. Por ser barato e muito eficiente na contenção de ervas daninhas, se tornou muito popular e atualmente é o mais utilizado herbicida no mundo. Estima-se que, na média, cada hectare de terra agrícola no nosso planeta receba cerca de meio quilo de glifosato ao ano.

Um “efeito colateral” que conquistou o mundo

Curiosamente, este produto que talvez represente o maior sucesso em termos de vendas da indústria de pesticidas e herbicidas, não foi criado com esta proposta. Em 1964, a empresa Stauffer Chemical patenteou a fórmula do glifosato para uso na remoção de resíduos e limpeza de tubos industriais. Mas seu futuro não seria neste segmento.

Em 1970, um químico da norte-americana Monsanto, John Franz, descobriu que o glifosato também atuava como um herbicida altamente eficaz, e, em 1974, ele foi registrado para este uso. O sucesso foi imediato: a Monsanto tinha em mãos um herbicida que não só era barato e eficiente, mas aparentemente seguro. Ele tem como alvo uma série de reações químicas, críticas para a função de plantas e alguns micróbios, mas aparentemente ausente em humanos.

“Segurança” e culturas transgênicas

Os cientistas da Monsanto afirmaram que o glifosato não prejudicaria pessoas ou outros organismos, além de não persistir no solo e na água. Estudos científicos mostraram que ele não se acumulava em tecido animal e, com isso, seu uso cresceu de forma exponencial. A maioria dos agricultores do mundo passaram a pulverizá-lo nos campos, antes do plantio, para se preparar para o próximo ciclo de cultivo.

O nome Roundup, com o qual o produto passou a ser comercializado pela Monsanto, se tornou familiar para os agricultores. E isso só aumentou depois que a empresa lançou o Roundup Ready, uma versão destinada a culturas transgênicas. Como alguns micróbios desenvolveram resistência ao glifosato, cientistas usaram esses genes e os introduziram na soja e mais tarde milho, alfafa, beterraba, algodão e canola. Esta modificação genética fez as chamadas plantas de cultura Roundup Ready serem resistentes ao herbicida.

Rápida popularização

Assim, o glifosato poderia ser usado para eliminar ervas daninhas durante toda as etapas de cultivo, não somente antes do plantio. Vale lembrar que cerca de 90% da soja, milho e algodão cultivados nos EUA são geneticamente modificados e tolerantes ao glifosato. Na viticultura o impacto não foi tão significativo, por conta do não uso de videiras geneticamente modificadas, mas, mesmo assim, o glifosato passou a reinar em muitos vinhedos.

Se o glifosato cresceu nas mãos da Monsanto, sua ascensão foi ainda mais rápida após o final de sua patente. No final da década de 1990, quando as últimas patentes de glifosato expiraram, a indústria de pesticidas genéricos começou a oferecer versões de baixo custo. Na Argentina, por exemplo, os preços caíram de US$ 40 por litro na década de 1980 para US$ 3 em 2000.

Em meados da mesma década, a China começou a fabricar herbicidas em grande escala. Regulamentações ambientais, de segurança e de saúde mais frouxas que outros países, além de políticas de promoção energética, tornaram o glifosato chinês muito barato. A China agora domina a indústria de químicos sintéticos, exportando 46% de todos os herbicidas do mundo em 2018.

Porém…

Barato, eficiente e seguro são os três pilares deste herbicida. Porém, o terceiro passou a ruir, após novos estudos científicos. Em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, parte da Organização Mundial da Saúde (OMS), classificou o glifosato como “provavelmente cancerígeno”. Nos EUA, a Bayer (que comprou a Monsanto e sua participação no mercado de glifosato) está atualmente batalhando em diversas frentes judiciais contra agricultores que teriam desenvolvido enfermidades sérias, em especial linfoma não-Hodgkin, por conta do seu contato com o Roundup.

Por conta destes riscos, alguns países já baniram o seu uso, como Luxemburgo, México e Áustria. A França tomou a mesma decisão, mas voltou atrás por conta da pressão dos agricultores. Embora alguns estudos mostrem o impacto negativo deste herbicida sobre a saúde e o meio ambiente, ainda não existe consenso, mesmo dentro da comunidade científica. Deste modo, esta alternativa de baixo custo para lidar com ervas daninhas segue sendo usado de forma intensiva na maior parte do planeta.

Evidências no Brasil

Também no Brasil o glifosato é usado de forma significativa, sendo o agrotóxico mais popular aqui utilizado. Ele representa cerca de 62% do total de herbicidas usados no país. Para isso, contribui a sua associação com soja transgênica, lembrando que o Brasil é hoje o maior produtor deste grão no mundo. Porém, este uso extensivo parece ter um preço.

Um estudo publicado por pesquisadores das universidades de Princeton, FGV e Insper revelou uma outra face: a disseminação do glifosato nas lavouras de soja levou a uma alta de 5% na mortalidade infantil em municípios do Sul e Centro-Oeste que recebem água de regiões produtores de soja. Porém, tanto a Bayer como a Aprosoja (Associação Brasileira dos Produtores de Soja) refutam o estudo.

Risco ou não?

O debate sobre os riscos do glifosato não se restringe ao Brasil. De um lado, aqueles que defendem que não existem evidências científicas suficientes para banir o produto. Além disso, por ser um produto muito barato, pode afetar os preços do vinho. Para eles, se seu uso na viticultura for proibido, isso pode causar mudanças enormes e elevar o preço do vinho para níveis que causariam uma significativa queda no consumo. 

Além disso, deixam claro que tanto a Agência de Proteção Ambiental dos EUA como a Autoridade Europeia de Segurança Alimentar afirmam que é improvável que o glifosato cause câncer em humanos. Para estes órgãos, o herbicida não seria uma ameaça à saúde humana, ao menos quando usado de acordo com as instruções do fabricante.

Por outro lado, existem os que buscam a imediata redução da utilização deste herbicida. Como justificativa, mencionam estudos adicionais, que descobriram que o glifosato causa danos no fígado e nos rins em ratos e altera os microbiomas intestinais das abelhas. Camundongos expostos ao herbicida têm mostrado aumento da doença, obesidade e anormalidades ao nascer, mesmo três gerações após a exposição. Além disso, afirmam que a eficiência do glifosato vem caindo substancialmente porque diversas ervas daninhas estão desenvolvendo resistência ao herbicida. Um debate e tanto!

Fontes: Modern Farmer; BBC; Wine Business International

Imagem: Erich Westendarp via Pixabay

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