Será que todos os vinhos brancos são feitos de uvas brancas? E todos os vinhos tintos de uvas tintas? Não necessariamente. Por exemplo, as Champagnes, que há tanto tempo fascinam e estão frequentemente presentes nas nossas melhores comemorações, são vinhos espumantes brancos, porém, na média, cerca de 70% das uvas usadas para sua elaboração são tintas. Como isso é possível?
A relação entre a cor da uva e do vinho que dela resulta depende, fundamentalmente, de um processo conhecido como maceração. Em poucas palavras, podemos descrever maceração como o tempo no qual o sumo da uva fica em contato com sua casca.
Enquanto o sumo da uva concentra o dulçor, a casca concentra, entre outras coisas, o tanino (aquele amargor que traz adstringência, quem já mordeu uma casca de uva sabe do que estou falando) e a cor.
Várias cores
Aliás, neste ponto entra outra percepção muitas vezes enganosa. Na grande maioria das uvas tintas (existem exceções, as uvas tintoreiras, como Alicante Bouschet e Colorino), o sumo da uva é branco, não tinto. Assim, quase todas as uvas, independente da cor de suas cascas, têm sumos claros. A coloração que o vinho irá ter, deste modo, depende principalmente do tempo de contato que este sumo terá com suas cascas.
E o mundo do vinho não enxerga apenas duas cores, o branco e o tinto. Também temos os vinhos rosés e os vinhos laranja, que receberam estes nomes exatamente por conta da sua coloração. Vamos entender melhor como isso funciona, começando pelos vinhos elaborados a partir de uvas brancas.
Vinhos brancos
No caso dos vinhos brancos, ocorre um contato muito rápido entre o sumo e as cascas, ou seja, a maceração é extremamente curta. O resultado são vinhos clarinhos, na linha com os que estamos todos acostumados.
Pode haver uma variação de cores, alguns vinhos brancos tendendo mais para uma coloração palha, outros para um amarelo brilhante. Isso depende, principalmente, da uva utilizada e do tempo de evolução (os vinhos brancos tendem a ganhar uma coloração mais amarelada com o passar do tempo).
Vinhos laranja
Mas o que acontece se, ao contrário do descrito acima, tivermos uma uva branca e passarmos por uma maceração mais longa? Aí teremos um vinho laranja! Aliás, o nome mais técnico para vinhos laranjas é vinho branco de maceração longa. Mesmo parecendo brancas, as cascas das uvas brancas contêm algumas substâncias colorantes e, portanto, a cor do vinho a ser feito depende também do tempo de maceração.
Este período varia bastante, alguns exemplares já degustados recentemente na WineFun passaram por maceração de 20 dias, ou mesmo seis semanas. Mas o céu é o limite, por exemplo, dentre os famosos vinhos laranja da região italiana do Friuli, os produzidos por Radikon passam por maceração de quatro meses, enquanto aqueles de Gravner por até um ano de contato com as cascas!
Vinhos brancos de uvas tintas
E os tintos? Já vimos que podemos fazer um vinho branco de uvas tintas, basta que a maceração seja quase inexistente. O vinho obtido de uvas tintas, após este mínimo contato possível com as cascas, é essencialmente um vinho branco, com uma cor ligeiramente mais amarela do que o vinho de uvas brancas.
Agora você pode contar aos amigos que ao tomar um Champagne, possivelmente está bebendo o sumo de uvas tintas (lembrando que há também Champagnes feitos exclusivamente de uvas brancas, chamados de Blanc des Blanc).
Diferentes escalas de cor nos tintos
Por outro lado, se houver uma maceração mais longa, os vinhos serão tintos, já que o sumo irá absorver os componentes colorantes presentes nas cascas. O tempo de maceração varia bastante, dependendo das uvas. Por exemplo, uvas de cascas finas como a Pinot Noir, podem requerer um tempo de maceração maior, enquanto uvas com cascas mais grossas e mais componentes colorantes podem requerer um tempo menor.
De forma geral, porém, excluindo processos como maceração a frio, o ganho de cor obtido através da maceração de uvas tintas fica muito reduzido após 10 dias, período suficiente para que o vinho tinto ganhe aquela coloração que tão bem conhecemos.
Em relação ao tom dos vinhos tintos, ele depende tanto da uva como do tempo de maceração. Outras variáveis, como tempo de guarda, também têm um papel, já que vinhos mais evoluídos tendem a mostrar uma coloração mais próxima do granada (tendendo mais a cor tijolo), enquanto vinhos mais jovens tendem a mostrar mais uma coloração rubi (mais avermelhados), muitas vezes com reflexos tendendo ao violeta.
Vinhos rosé
E o tempo de maceração das uvas tintas define também a última cor a ser descrita: os vinhos rosé. Neste caso, estes vinhos são resultado de uma maceração curta, em geral entre 12 a 24 horas, usando uvas tintas. A depender da uva utilizada e da coloração que o produtor deseja obter, este período pode variar, entre duas horas até um limite de 48 horas, que é raramente atingido.
O tom dos vinhos rosé também varia bastante, desde aqueles mais clarinhos, como da região francesa da Provence (onde sua coloração é mais alaranjada, chamada de “casca de cebola”) a aqueles de regiões quentes da Itália, Portugal ou Espanha (que são de um rosado intenso, quase tintos).
Tirou todas as suas dúvidas em relação à coloração dos vinhos? Caso tenha mais alguma, entre no nosso site e nos avise! Saúde e um brinde aos vinhos de todas as cores!