Vinho e Inteligência Artificial

Last Updated on 15 de maio de 2024 by Wine Fun

A Inteligência Artificial (IA) invadiu todas as áreas da vida humana, sem pedir licença. Talvez seja o movimento mais disruptivo que a humanidade vivenciará nos próximos anos. E, obviamente, a indústria de vinhos não poderia ficar de fora dessa onda.

Na coluna desse mês iremos discutir um caso muito interessante, de um produtor de vinhos do Languedoc que lançou um rótulo integralmente concebido pela IA. Isso passou desde a preparação do vinhedo até a venda da garrafa do vinho ao consumidor, passando pela definição do blend, das técnicas de vinificação, do nome e design estampado no rótulo e do preço praticado no varejo e ao consumidor.

O que é Inteligência Artificial

O papo aqui é sobre vinho. Seria muita ousadia, para não dizer uma tremenda irresponsabilidade aprofundar a discussão sobre esse tema nesse espaço. Sem contar que o editor do WineFun certamente não aprovaria.

Mas é importante lembrar que IA é um termo que pode ser entendido como um guarda-chuva para se referir a um conjunto de tecnologias que viabilizam computadores a “raciocinarem” e “se comportarem” como se tivessem inteligência, usando para isso algoritmos complexos que fornecem respostas embasadas por robustas bases de dados. Quem usa ferramentas como o ChatGPT sabe que para extrair todo o melhor potencial da IA saber elaborar adequadamente uma pergunta faz toda a diferença no resultado.

Meu caro ChatGPT, que vinho devo produzir?

Ironias a parte, foi exatamente essa a pergunta que Aubert & Mathieu fez ao ChatGPT. Na pergunta foi especificado:  “como produzir  um vinho totalmente novo, com um rótulo próprio produzido no sul da França”

Caberia a ferramenta de IA especificar quais uvas utilizar no blend, como deveria ser feito o manejo do vinhedo, o processo de vinificação, definir o tipo de garrafa, nome do vinho, design do rótulo, posicionamento no mercado, incluindo a política de preço e tudo mais que envolvesse o lançamento de um novo produto.

Figura: reprodução do site do produtor, com o vinho The end.

O nome dado ao vinho é muito interessante. Alguns poderiam associá-lo ao fim do líquido na garrafa. Em uma entrevista à Decanter Magazine, na edição de março de 2024, Aubert, um dos sócios da vinícola, brincou dizendo que o robô estaria dando um sinal de que é o primeiro passo para eliminar a influência humana na produção de vinhos.

É interessante observar como a divulgação do vinho ressalta o papel do ChatGPT no vinho. Para isso recorremos ao site do produtor na figura acima. No final do texto há uma menção às uvas escolhidas: Syrah e Grenache. Como era de se esperar, a máquina não foi nada inovadora e escolheu o óbvio para a região.

Aliás a menção ao ChatGPT é tão explicita na comunicação que é razoável desconfiar se tudo foi realmente concebido pela máquina. A não ser que a pergunta tenha sido “conceber um posicionamento para o vinho que nunca antes foi usado”.

E o fato de a produção girar em torno de 600 garrafas por safra, para um vinho comercializado por € 30, sugere que se trata de uma ação para promover a vinícola, o que parece ter sido bem sucedido, afinal virou tema até da Decanter Magazine. A não ser que a pergunta tenha sido “desenvolver um vinho para aumentar a visibilidade da vinícola e com faturamento inferior a € 50 mil”.

Como seria um vinho concebido um vinho concebido pela IA

O leitor mais atento deve ter notado minha nada sutil ironia com relação ao vinho The end. Mas devo confessar que não estou só. Vale dizer na edição de março de 2024 da Decanter Magazine, o tema foi tratado apenas como uma curiosidade. Uma rápida pesquisa sobre o vinho junto a crítica especializada confirmou o que eu já desconfiava. Estamos diante, acima de tudo, de uma bela iniciativa de marketing.

Mas, falando sério, como deveria ser elaborada a pergunta ao ChatGPT. E faz sentido buscar esse tipo de orientação de uma máquina? Para variar, a resposta para a questão é: “depende”. O primeiro passo seria entender o objetivo de quem pergunta. Especificamente o posicionamento do vinho. Alguns poucos exemplos de consequências da forma como a questão é formulada:

  • Retorno financeiro: partindo da capacidade de produção de uma vinícola (interna ou através da contratação de terceiros), o algoritmo identificaria o posicionamento de preço ideal e a estratégia a ser perseguida: o melhor lugar entre o mercado de alto giro e o de margens elevadas;
  • Um produto de alto giro, para agradar o maior número de consumidores, levaria a máquina a escolher vinhos “horizontais”, ou seja, sem grandes diferenciais e que usasse, no blend, variedades “obvias” como Chardonnay, Cabernet Sauvignon, além de técnicas de vinificação que agradassem a média do consumidor. Tipicidade, nesse caso, atrapalha.
  • Raros são os produtores com apenas um rótulo comercializado. A concepção do novo vinho deveria considerar o seu papel no portifólio da empresa.

O problema está na pergunta, não na resposta

Ao longo da história, a tecnologia da informação revolucionou a vida humana, mudando a forma da humanidade se comunicar e otimizando processos e apoiando o ser humano na tomada de decisões.

Mas a influência humana, nesse caso, do produtor de vinho em formular adequadamente a pergunta sempre fez, e a meu ver, sempre fará a diferença. O que mudará será o que virá depois disso. E aí sim veremos a IA revolucionando o mundo do vinho.

Renato Nahas é um grande apreciador de vinhos que adora se aprofundar no tema. Concluiu as certificações de Bourgogne Master Level da WSG, e também de Bordeaux ML.  É formador com homologação pelo Consejo Regulador de Jerez e Italian Wine Specialist – IWS e Spanish Wine Specialist – SWS.. Sommelier formado pela ABS-SP, possui também as seguintes certificações: WSET3, FWS e CWS, este último pela Society Wine Educators.

Disclaimer: Os conteúdos publicados nesta coluna são da inteira responsabilidade do seu autor. O WineFun não se responsabiliza por esses conteúdos nem por ações que resultem dos mesmos ou comentários emitidos pelos leitores.

Foto da capa: Renato Nahas, arquivo pessoal

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