Last Updated on 23 de maio de 2020 by Wine Fun
Em março de 2020 foram divulgados os pré-requisitos necessários para que os vinhos sejam classificados na França como Vin Méthode Nature (que seria algo em linha com vinho natural, expressão que não pode ser usada na União Européia). Mas isso trouxe uma série de controvérsias no mundo dos vinhos de baixa intervenção, que é a expressão que prefiro usar, até pela falta de consenso sobre o que é vinho natural.
Será que finalmente a questão de definir o que é vinho natural foi resolvida? Os critérios adotados agradam e são realistas? Ou será que a proposta inicial destes tipos de vinhos seria exatamente fugir das classificações, ou seja, estamos tentando rotular o que foi criado para fugir dos rótulos?
Talvez a questão mais crítica tenha sido aquela referente à utilização de sulfitos. Tanto que a classificação anunciada abre duas categorias distintas, pois dependendo desta variável, existem dois selos de classificação diferentes: um para os vinhos sem sulfito (Vin Méthode Nature sans sulfites ajouté) e aqueles com até 30 mgs/l de SO2 total (Vin Méthode Nature < 30 mg/l sulfites ajouté). E este nível máximo não significa que o produtor pode adicionar esta quantidade de sulfito, o limite vale para SO2 total, já incluindo o que é naturalmente gerado na vinificação.
Se para muitos defensores da zero intervenção a possibilidade de tal volume de sulfito é uma heresia (um dos lemas é “nada pode ser adicionado aos vinhos, que devem refletir somente o que está na uva“), por outro lado outros apontam que este limite é baixo demais. A título de comparação, o critério para participar da RAW Wine, a maior feira mundial de vinhos de baixa intervenção do mundo, organizada por Isabelle Legeron, considera um limite máximo de 70 mg/l.
Vale lembrar que os limites máximos de SO2 para vinhos em geral, ou seja, aqueles considerados convencionais, variam de acordo com país e região. Por exemplo, são de 350 mg/l nos EUA, de 150 mg/l para vinhos tintos na União Européia e de 300 mg/l no Brasil.
Um segundo ponto que gerou controvérsia é a questão de controle de temperatura. Os pré-requisitos dos Vin Méthode Nature categoricamente excluem a possibilidade de utilização de métodos de controle artificial de temperatura que criem choque térmicos de calor, como alguns usados para estabilizar vinhos em métodos convencionais. Por outro lado, não há limitações para o uso de técnicas que reduzam a temperatura. Aliás, existe a percepção que um controle de temperatura mais rigoroso seja feito para vinhos naturais, pois há maior possibilidade de existir uma nova fermentação dentro das garrafas, caso estas sejam sujeitas a temperaturas mais elevadas no transporte, manuseio ou estocagem.
Outro ponto muito relevante é a questão de como fiscalizar os processos de produção. Há diversas limitações e proibições de métodos e processos intervencionistas, mas o ponto que se coloca é como será feita a fiscalização disso, já que muitos deles não podem ser comprovados somente pela análise do vinho engarrafado. Como saber se o produtor realmente está cumprindo as regras? Um exemplo é a questão do SO2, a nova legislação permite leve adição somente antes do engarrafamento, mas como saber se isso não foi feito antes ou durante a fermentação?
E isso não vale somente para a vinificação, mas também para agricultura. Embora exista a exigência de certificação orgânica (que já é certificada à parte), como controlar se a colheita foi manual (um dos pré-requisitos) ou se foram usados tratores? Aliás, a própria definição de agricultura orgânica, incluindo vinhedos no segundo ano de conversão, foi criticada por muitos, que afirmam que o processo de conversão é muito mais longo do que isso.
Uma quarta questão se refere à participação dos produtores. Inicialmente foram cerca de 100 produtores buscando a certificação, o que é muito pouco dentro do grande universo de produtores de baixa intervenção. E os principais nomes deste segmento, aceitarão ter seus vinhos certificados? Causou também uma certa controvérsia o fato de um dos líderes deste movimento, Sebastien David, ter sido forçado a destruir parte de seus vinhos (cerca de 2.000 garrafas do seu cuvée Coef) em 2016, pois as autoridades francesas constataram que ele excedia o limite máximo de acidez volátil permitida pela legislação. Acidez volátil não tem um limite máximo? Mesmo muitos produtores deste segmento colocam esta questão em discussão.
Por fim, vem uma questão que podemos chamar de filosófica. Muitos produtores iniciaram sua atividades ou migraram para o mundo do vinho de baixa intervenção exatamente para fugir das classificações e limitações criadas pela legislação. Muitos deles, inclusive, abriram mão de ter seus vinhos classificados dentro dos critérios de suas Denominações de Origem para poder ter a liberdade de vinificar sem regras ou burocracia. Seria uma contradição querer regulamentar vinhos e produtores que optaram por não seguir regras e regulamentos?
Voltando aos fatos, o mercado de vinhos de baixa intervenção está em franca evolução. Passou de um movimento restrito inicialmente a um pequeno grupos de produtores, e cresceu rapidamente, até porque está dentro de um movimento mais amplo de maior respeito à natureza, de busca de menor interferência humana e de alimentos mais autênticos e naturais. Esta maior demanda por parte dos consumidores acabou também afetando os grandes produtores que, de uma lado, não querem abrir mão de uma crescente parcela de mercado, mas de outro, tem dificuldade em abandonar técnicas e procedimentos que implicam em maiores volumes ou margens.
Estas controvérsias devem seguir vivas, mesmo após a nova legislação, seja por motivos práticos, comerciais ou mesmo filosóficos. Como disse Alice Feiring, uma jornalista de Nova York muito respeitada neste segmento: “No meu coração, eu não acredito que vinho natural seja certificável”. Seja na lógica ou no coração, ainda há muito a ser discutido neste assunto.