Os vinhos rosé representam a categoria de vinhos que tem crescido mais rapidamente ao redor do mundo nos últimos anos. E os números não mentem. Entre 2002 e 2022, a parcela dos vinhos rosé no consumo mundial de vinhos passou de 7,9% para 9,9%. Porém, ao mesmo tempo que ganham maior espaço, estes vinhos ainda sofrem com um certo preconceito em alguns mercados, como o brasileiro, por exemplo.
Não é incomum muita gente se referir aos vinhos rosés como inferiores, vinhos que só merecem ser consumidos na beira da piscina ou para matar a sede. Já ouvi de um amigo que “vinho de verdade é tinto, branco é aceitável, mas rosé nem pensar, prefiro tomar cerveja”. Embora esta visão esteja muito longe da verdade, vale a pena entender melhor porque o consumo de rosé não cresce mais no Brasil.
Percepção errada
Talvez o principal fator seja o histórico dos vinhos rosé. Sim, por muito tempo vinho rosé no Brasil era quase sinônimo de vinho simples, barato e, ainda pior, um vinho mal elaborado. Para muita gente, vinho rosé virou sinônimo de vinho de piscina, aquele que só presta para ficar no baldinho de gelo, para matar a sede. Ou ainda pior, para receber uns cubinhos de gelo, para ficar ainda mais refrescante.
Em um certo sentido, esta experiência pode ser comparada com a do vinho alemão no Brasil, que por muito tempo foi quase sinônimo de vinho branco doce e enjoativo. Por conta de anos de importação dos vinhos Liebfraumilch, em sua esmagadora maioria doces e de qualidade discutível, todos os vinhos alemães acabaram sendo penalizados. Felizmente, hoje em dia, porém, a qualidade dos vinhos alemães já é de conhecimento da maioria.
Ajudar o consumidor a compreender melhor os vinhos e mostrar alternativas diferentes resolveu esta questão. Da mesma forma, isso precisa ser feito com os vinhos rosé. Assim como qualquer vinho, a qualidade do vinho rosé varia bastante. Há rosés ótimos e rosés muito ruins, da mesma forma como acontece com brancos ou tintos.
Vinho “modinha”
Se uma geração de consumidores se acostumou com o conceito (preconceituoso) de “vinho de piscina”, os mais jovens podem ver o rosé como o vinho da moda, aquele que só vale pelo visual. Sim, não há dúvida que as múltiplas tonalidades dos vinhos rosé acabam sendo valorizadas em postagens nas mídias sociais, por gente mais preocupada com o visual do que a qualidade do vinho. Porém, de outro lado generalizar afirmando que a grande qualidade do rosé é o visual é também um exagero. A coloração pode ser um atrativo extra, mas no fundo o que conta é a qualidade do vinho.
Questão de paladar?
Se no mundo todo a tendência de aumento da participação de vinhos rosés e brancos, em detrimento dos tintos, por que isso não ocorre no Brasil também? Aliás, esta tendência deveria ser ainda mais forte por aqui, tanto por conta da grande (e desproporcional) parcela do vinho tinto no total, como pelas nossas condições climáticas. O calor predomina por aqui, e isso incentiva o consumo de bebidas mais leves e frescas.
Mas, curiosamente, a cultura do vinho tinto segue firme no Brasil. E querer mudar isso não significa dizer que o consumidor deve tomar apenas brancos ou rosés, mas sim abrir a cabeça para todos os tipos de vinho. Gosto não se discute, cada um tem sua preferência, mas o que não pode acontecer é que existam preconceitos.
Basear nossas escolhas futuras somente por experiências passadas faz até sentido, mas sempre temos que ter a disposição de revisar nossos conceitos e dar uma segunda chance. Até porque vivemos em um mundo em constante mudança. Saúde, seja brindando com um tinto, um branco, um laranja ou um rosé!
Imagem: Jonas Allert via Unsplash