Novas e fascinantes regiões dedicadas à produção de vinhos ganharam manchetes nos últimos anos. Seja como forma de buscar alternativas para o aquecimento global como para explorar novas regiões, hoje há muitos vinhedos em locais quase impensáveis no passado. A alternativa mais comum é buscar latitudes mais altas, mas alguns países dispõe de uma alternativa ainda mais atrativa: plantar em maiores altitudes.
E uma das líderes neste movimento é a Argentina. Nosso país vizinho dispõe de uma enorme extensão de novas oportunidade nas encostas de uma das maiores cadeiras de montanhas do mundo, os Andes. Mais do que buscar quantidade, porém, muitas vinícolas argentinas têm investido em vinhedos de altitude para ganhar mais qualidade. Dois destes nomes são Zuccardi e Domaine Nico, uma iniciativa da incansável Laura Catena. Vale a pena comentar dois lançamentos recentes.
Botánico Chardonnay 2021, Zuccardi 13%
Com sua primeira safra em 2021, o Botánico faz parte da linha Vinos de Parajes, que conta com cinco vinhos, incluindo outro Chardonnay, o premiado Fossil. As uvas têm origem em vinhedos próprios em Gualtallary Monasterio, Valle de Uco, a uma altitude de 1.360 metros. O local tem um clima temperado e árido, um deserto de alta altitude, com solos de caliche (alta proporção de calcário) Na vinificação, práticas mais contemporâneas: fermentação com leveduras indígenas em tanques de concreto, sem maloláctica, com envelhecimento nos mesmos recipientes.
O resultado? Um vinho de muita tensão, ótima textura, precisão e salinidade, que estilisticamente lembrou um Chablis de alta gama, em uma safra não fria. Mostrou coloração amarelo palha e reflexo verdeal, com olfativo complexo e sedutor. Destaque para os aromas de sorbet de limão e frutas brancas, acompanhados por notas de giz, maresia e erva verde. No palato, acidez alta, corpo médio e muita verticalidade, um Chardonnay austero, delicioso e complexo. Cortesia do amigo Eduardo, não encontrei disponibilidade por aqui, na Europa custa na faixa de € 65.
Histoire d’A 2021, Domaine Nico 13,5%
Laura Catena descreve muito bem sua filosofia ao criar a Domaine Nico. “Ela nasceu da minha obsessão pelo Pinot Noir da Borgonha. Quando percebi que poderíamos fazer um Pinot Noir com os aromas florais clássicos, mineralidade e elegância, começamos a estudar os sabores do Pinot Noir de Mendoza”. Parte de uma linha de cinco cuvées desta variedade, o Histoire d’A tem origem no vinhedo de mesmo nome, com 1,75 hectare, plantado em 1998. Esta área se situa em Tupungato, Gualtallary, no Valle de Uco a uma altitude de 1.350 metros.
Ao contrário do anterior, aqui um vinho com técnicas de vinificação mais tradicionais. Fermentação de 10 a 12 dias com leveduras indígenas em barris de carvalho. A maloláctica ocorreu no mesmo recipiente, com posterior estágio de 18 meses em barricas francesas, das quais 20% novas e 80% de segundo uso. Um Pinot Noir elegante e de muita vivacidade, combinando tensão e frutas frescas bem presentes.
Mostrou coloração rubi brilhante de média a baixa concentração, com nariz em estilo redutivo e aromas de frutas vermelhas, especiarias e discreta madeira. Na boca, um tinto fresco e de alta acidez, com taninos presentes e finos. Vai ganhar com mais tempo em garrafa, mas uma expressão bastante única para quem está acostumado com as características dominantes na grande maioria dos Pinot Noir sul-americanos. Já esgotado no mercado brasileiro, custa cerca de € 55 na Europa.