Vinhos fortificados da Ilha da Madeira

“Uma boa refeição deve ser encerrada com uma boa sobremesa devidamente acompanhada por uma taça de vinho doce.” Embora eu não conheça o autor dessa frase, subscrevo-a com entusiasmo. Porém, a realidade é distinta. O consumo de vinhos doces tem diminuído drasticamente ao longo dos anos. Na primeira década do século XX, a produção de vinho doce em Bordeaux representava cerca de 30% do total. Hoje, é menos de 3%. O volume de vendas da DO Jerez atualmente é apenas 25% do que era no início da década de 1980.

Enquanto os estilos secos de Jerez conseguiram manter o nível de vendas, os vinhos doces de Jerez despencaram. Recentemente, ao visitar a região de Banyuls, no sul da França, ouvi um produtor lamentar a necessidade de usar parte da produção de vinhas antigas de Grenache para a produção de vinhos rosés, seguindo a tendência do mercado. Uma lástima!

A Ilha da Madeira

A mesma tendência é observada nos vinhos da Ilha da Madeira. De forma dramática, a redução da área plantada é evidente ano após ano. Há quem tema pelo futuro de um dos estilos de vinhos mais tradicionais do mundo. Com uma produção de 2,5 milhões de litros em 2020, a região produz menos do que uma grande vinícola da Rioja.

As causas desse declínio são várias. Mudanças nos hábitos dos consumidores e o “envelhecimento” da categoria estão entre as principais. Nesta coluna, vamos explorar uma região da Ilha da Madeira que produz um dos estilos mais tradicionais de vinhos fortificados, variando do seco ao doce.

Uma longa tradição e o “acaso” que criou um estilo próprio

Localizada no oceano Atlântico, a cerca de 1.000 km de Lisboa, Madeira está mais próxima do Marrocos do que de Portugal. Os portugueses chegaram lá em 1419 e, durante a era das grandes navegações, usaram a ilha como um entreposto logístico para as grandes viagens marítimas. Os navios faziam paradas na ilha para reabastecer seus estoques de água e alimentos.

Como o vinho era um dos “gêneros alimentícios” mais demandados pelas embarcações, a produção local foi rapidamente estabelecida, tornando-se uma importante atividade econômica para a ilha. Com um clima subtropical e condições naturais favoráveis, como solo, altitude e ventos que regulam a temperatura, Madeira possui uma vocação interessante para a viticultura.

Transportar vinhos há 500 anos era um grande desafio. Não havia embalagens como as que temos hoje, como garrafas e rolhas, capazes de proteger o líquido. Além disso, as condições de armazenamento eram precárias. O vinho era armazenado em barris guardados geralmente nas áreas mais quentes do navio, obviamente sem refrigeração. Como forma de proteger o vinho, os povos do Mediterrâneo “fortificavam” o vinho, ou seja, adicionavam álcool para preservá-lo.

Técnica diferente

O que diferencia o Madeira dos demais vinhos fortificados é uma técnica, descoberta ao acaso. Um dos navios que partiu da Ilha da Madeira retornou depois de quase um ano com um barril que não havia sido consumido. Esse vinho foi submetido a temperaturas elevadas e intensa movimentação, como se tivesse sido “cozinhado”. No retorno, ao ser degustado, encantou a todos que tiveram o privilégio de prová-lo.

Assim, descobriu-se o estilo do vinho Madeira e uma nova técnica de produção, utilizada até hoje. Embora ninguém mais embarque o vinho para envelhecê-lo no fundo de um navio em rotas de altas temperaturas, o processo de envelhecimento nos armazéns da Ilha da Madeira busca reproduzir as mesmas condições enfrentadas naquela viagem de um ano.

O vinho Madeira

O vinho Madeira se caracteriza pela elevada acidez e alto teor alcoólico (17-21% ABV). Como mencionado, é envelhecido em temperaturas elevadas, o que confere ao vinho características de frutas assadas, geralmente acompanhadas por delicados toques salinos. Uma particularidade do Madeira é que a regulamentação define a doçura pela variedade de uva. As principais castas utilizadas são: Sercial, Verdelho, Boal, Malvasia, Tinta Negra, Bastardo e Terrantez (muito rara).

Quanto ao estilo, existem vinhos mais simples, que não merecem grande destaque e são mais utilizados na culinária. Vamos nos concentrar nos dois estilos mais “sérios”:

  • Blend de safras com indicação de idade: 5, 10, 15, 20, 30, 40, 50 e acima de 50 anos.
  • Vinhos de uma única safra: Colheita (envelhecido de 5 a 19 anos) e Frasqueira (20+ anos).

A regulamentação ainda contempla outros estilos como Reserve, Old Reserve, Extra Reserve, Fine, Garrafeira, Solera e Rainwater.

A escala de doçura do Madeira

Sercial é o mais seco dos vinhos Madeira, com alta acidez e sabores de frutas cítricas, amêndoas e notas salinas. Apesar de ser seco, o Sercial tem uma suavidade que equilibra sua acidez marcante. Os puristas que me perdoem, mas guardadas as proporções, chega a lembrar um Jerez seco.

Sercial

Verdelho é ligeiramente mais doce que o Sercial, com uma acidez equilibrada e um pouco mais de textura. Apresenta sabores de frutas tropicais, especiarias e mel, com um toque de fumaça e um final ligeiramente amargo.

Verdelho

Subindo na escala de doçura, o Boal apresenta uma textura rica e cremosa. Os vinhos Boal têm sabores de frutas caramelizadas, chocolate, café e nozes, com uma acidez que equilibra a doçura.

Boal

Malvasia é o estilo mais doce dos vinhos Madeira, com uma textura viscosa e sabores intensos de frutas passas, mel, caramelo, figos e especiarias. Apesar da doçura, mantém uma acidez vibrante que evita que o vinho se torne enjoativo.

Malvasia

Tinta Negra, cuja doçura pode variar de seco a doce. Versátil e utilizada para a produção de vinhos Madeira em vários níveis de doçura, a Tinta Negra é uma casta adaptável, que pode produzir vinhos com uma ampla gama de sabores, desde frutas frescas até notas mais evoluídas de caramelo e nozes. Reparem que, a exemplo dos rótulos anteriores, não há menção do nome da uva no rótulo. Essa casta tradicionalmente era associada a vinhos de baixa qualidade. Nos melhores exemplares, como o Colheita da foto abaixo, a casta costuma aparecer.

Tinta Negra
Tinta Negra

Por fim, vale mencionar o Frasqueira. Envelhecidos por pelo menos 20 anos, os melhores exemplares envelhecem por mais de 50 anos. E, após esse período, impressionam, pois uma fruta tropical surpreendente, como manga, aparece e encanta quem tem o privilégio de prová-lo. Apesar do longo tempo de envelhecimento, o engarrafamento é normalmente próximo ao período de comercialização. E, uma vez engarrafado, não demanda guarda. Apesar de não correr risco de deterioração, não se beneficia do tempo em garrafa.

Volumes baixíssimos de produção

O gráfico abaixo ilustra como a produção é baixa, com o estilo voltado para a culinária e os envelhecidos por menos de três anos dominando o cenário. Com o agravante de que a especulação imobiliária e o crescimento do turismo subtraem a cada ano a área dos vinhedos.

Produção

Principais produtores

  • Barbeito: Exemplares espetaculares de 30, 40, 50 anos. Usa principalmente Terrantez e Bastardo.
  • HM Borges: Produz ótimos exemplares de 10 anos ou mais.
  • J. Faria e Filhos: Ótimos exemplares de 10 anos com boa relação custo-benefício.
  • Justino’s: Os melhores Colheitas e Frasqueiras. Referência nos vinhos mais antigos.
  • Madeira Vintners: Produz vinhos jovens delicados e de alta qualidade. Apesar de relativamente fora do radar, merece atenção.
  • Madeira Wine Company (Blandy’s, Cossart Gordon, Leacock, Gomes): Ótimos Frasqueiras.
  • Pereira d’Oliveira: Outra grande referência em Frasqueiras. O produtor ainda possui garrafas anteriores a 1850 à venda.

Com uma produção baixíssima e em declínio, aliada à má fama dos rótulos dedicados à culinária, os vinhos fortificados da Ilha da Madeira escondem verdadeiros tesouros. Para quem aprecia o estilo, é bom aproveitar logo, pois, infelizmente, o futuro da região como produtora de vinhos não parece promissor.

Renato Nahas é um grande apreciador de vinhos que adora se aprofundar no tema. Concluiu as certificações de Bourgogne Master Level da WSG, e também de Bordeaux ML.  É formador com homologação pelo Consejo Regulador de Jerez e Italian Wine Specialist – IWS e Spanish Wine Specialist – SWS.. Sommelier formado pela ABS-SP, possui também as seguintes certificações: WSET3, FWS e CWS, este último pela Society Wine Educators.

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Foto da capa: Renato Nahas, arquivo pessoal

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