Vinhos laranja: conheça melhor a “quarta cor” dos vinhos

Se muita gente sabe definir o que é um vinho tinto, branco ou rosé, o mesmo não ocorre com vinho laranja. Apesar de ser o resultado da aplicação de um dos mais antigos processos de vinificação no mundo, não são poucos os que têm dúvida sobre o que são os tais vinhos laranja. E é um tópico que vale a pena explorar, pois este estilo de vinho chegou para ficar.

Em poucas palavras, podemos definir os vinhos laranja como aqueles produzidos com uvas brancas, que, porém, são vinificadas da mesma forma que os vinhos tintos. E o primeiro conceito a ser entendido é o de maceração, que é o processo no qual o sumo da uva fica em contato com outras partes dela (sobretudo cascas e sementes), por um determinado período de tempo.

Tintos, brancos, rosés e laranjas

A combinação entre cor da uva (tinta ou branca) e o tempo de maceração (curto ou longo) explica as quatro categorias de vinho citadas acima. Se o sumo de uma uva tinta passar por maceração mais longa, o resultado é um vinho tinto, caso contrário, será um rosé ou mesmo um branco (caso não tenha contato com as cascas). É nas cascas das uvas tintas que se encontram as antocianinas, que dão a cor ao vinho, além de outros compostos, como os taninos, por exemplo.

Já no caso das uvas brancas, os vinhos brancos são elaborados com os sumos tendo um curto contato (horas ou no máximo um dia) com as cascas. Assim, além de praticamente não absorverem cor, também não retêm outros compostos, entre eles os taninos. Por fim, o vinho laranja é aquele onde há um contato mais longo com as cascas, da mesma forma que acontece na elaboração de um vinho tinto.

Longa história

Há quem acredite que vinhos laranja sejam uma invenção moderna. Porém, isso não poderia estar mais distante da realidade. O fato é que, possivelmente, alguns dos primeiros vinhos elaborados pelo homem tenham sido laranjas. Na Georgia, reconhecida como o berço do vinho, até hoje muitos vinhos são elaborados de acordo com o processo ancestral, que inclui a maceração das uvas com suas cascas, em ânforas de argila.

E esta técnica tinha uma lógica. No passado, era uma forma de garantir uma preservação mais longa aos vinhos. Os compostos presentes nas cascas ajudam a proteger os vinhos contra bactérias e oxidação. Porém, vinhos laranja não são algo somente algo do passado. Eles voltaram com força, embora os métodos atuais de vinificação sejam bem mais avançados.

E os principais responsáveis por isso foram alguns vinhateiros da região do Friuli, na Itália. A partir do final da década de 1990, nomes como Joško Gravner e Stanko Radikon ressuscitaram esta técnica ancestral. Daí para frente, os vinhos laranja ganharam o mundo, tanto pela curiosidade que despertaram como pela sua qualidade.

Cores e nomes

O termo “vinho laranja” foi cunhado em 2004 por David Harvey, da importadora de vinhos escocesa Raeburn Fine Wines e acabou sendo adotado globalmente. No entanto, não é um termo bem aceito por muitos produtores, sobretudo aqueles da Georgia e mesmo Gravner, que considera o termo “vinho âmbar” muito mais adequado.

E muita gente prefere sequer usar a descrição por cores, pois dependendo do tempo de maceração, variedade usada e outras técnicas, a cor dos vinhos varia bastante. Assim, uma opção é usar termo “brancos macerados com suas cascas”. Na Itália, por exemplo, é comum usar o termo “macerati” para designar estes vinhos, enquanto nos países de língua inglesa a expressão “skin contact” (contato com as cascas) seja a mais utilizada.

Características

Se é difícil definir o que é um vinho laranja pela cor, por outro lado, eles apresentam, ao serem degustados, várias características comuns. Na comparação com os vinhos brancos, trazem, no olfativo, aromas mais complexos de frutas e flores secas (ao invés de frescas), além de notas de mel, cascas de frutas cítricas, ervas aromáticas e especiarias.

A diferença em relação a um vinho vinificado em branco também é significativa no gustativo. Os laranjas tendem a mostrar maior estrutura e textura, além da presença de taninos. Por outro lado, talvez a maior crítica aos vinhos laranja seja a menor acidez em relação aos brancos, sobretudo quando a maceração é mais longa.

Tempo de maceração e recipientes

O tempo de maceração depende muito de cada vinhateiro. De um lado, produtores mais clássicos e tradicionalistas, como Gravner e Radikon, chegam a manter seus vinhos por quase um ano em contato com as cascas. Também na Georgia os produtores que conservam seus vinhos em ânforas tendem a manter a maceração por períodos longo, chegando a oito meses.

No entanto, a maior parte dos produtores, sobretudo aqueles que buscam elaborar vinhos mais frescos e de consumo mais fácil, trabalham com períodos curtos. Não é incomum achar vinhos com maceração de apenas duas a três semanas. Porém, tudo depende da variedade usada e do estilo de vinho desejado pelo enólogo.

Embora muita gente associe vinhos laranja ao uso de ânforas, isso não é necessariamente verdade. Mesmo produtores pioneiros como Radikon optaram por não usar estes recipientes na vinificação. Opções não faltam: ela ser feita de diversas outras formas, desde tanques de aço inoxidável a grandes barris de madeira.

Fontes: Amber Revolution – How the world learned to love orange wine,  Simon J Woolf; The Morning Claret; The New York Times; Wine Folly; Decanter; Il Sole 24 Ore; Jancis Robinson

Imagem: wisemice via Pixabay

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