Last Updated on 7 de abril de 2021 by Wine Fun
Como tudo na vida, o mundo do vinho também vive de modismos. De tempos em tempos, alguém, normalmente arrojado e genial, aparece com algo novo, faz sucesso. Imediatamente brotam centenas de outros profissionais tentando copiar a fórmula de sucesso ou fazendo sua releitura do mesmo.
Acho que o vinho laranja passa ou passou por isto. Mas, primeiramente, vamos entender o que é um vinho laranja: vinho branco vinificado como tinto, o que lhe concede a textura e os taninos mais comumente encontrados nos vinhos tintos, e é claro, uma intensificação da cor que os leva perto do laranja ou âmbar.
Nada de novo
O que muita gente chama como novidade, na verdade, tem origem na Georgia e é produzido há mais de 8 mil anos. Se você pesquisar mais sobre este antigo processo, encontrará que as uvas brancas eram colocadas com seus engaços em Kvevris (ânforas de terracota, em formato de ovos e revestidos com cera de abelhas) que normalmente ficavam enterradas por semanas ou até meses. Isso dependia do produtor e da variedade utilizada, se beneficiando de temperaturas mais baixas.
O responsável pela globalização dos vinhos laranjas foi Josko Gravner, genial produtor esloveno/friulano que, após visitar a Georgia, decidiu abandonar o estilo de vinhos que fazia, iniciando a técnica ancestral dos vinhos laranjas no Friuli.

Sucesso mundial
No início foi chamado de louco, por remover seus antigos vinhedos de Chardonnay, substituídos pela nativa Ribola Gialla e também por eliminar o uso de barricas pelas antigas ânforas. Mas o sucesso veio de forma contundente e a técnica começou a ser utilizada por diversos produtores, tanto na Itália e Eslovênia como em outros países como Áustria, Alemanha, Nova Zelândia, EUA, etc.
O glamour do processo, a curiosidade pelas novas variedades, e o fato de Josko usar agricultura orgânica e processos de baixa intervenção, animou tanto produtores mais extremistas, como outros mais comerciais. Estes, porém, em minha visão, acabaram desgastando a imagem dos laranjas, pelo fato de descaracterizarem o estilo dos vinhos originais.
Os vinhos mais radicais acabaram desagradando os apreciadores, por terem mais defeitos de produção, e os comerciais por tentarem elaborar vinhos mais fáceis de beber, entrando em um estilo mais próximo dos vinhos rosé.
Degustando laranjas
Recentemente, em uma confraria da qual faço parte, realizamos uma degustação às cegas de vinhos laranjas no mundo e, devo dizer, fiquei decepcionado. Prefiro não citar os vinhos provados, por respeito aos produtores. Foi uma pena não termos incluído no painel os vinhos do Gravner ou mesmo do Radikon, para balizar os outros produtores, pois estes dois posso garantir serem típicos e sensacionais.
Ficou a dúvida. Será que o vinho laranja saiu da moda? Se sim, por quê? Será que os consumidores realmente sabem o que se deve esperar de um vinho laranja? Parece que não. Será que a diferença nos métodos de produção confundiu ainda mais a cabeça dos consumidores? Pelo visto sim, mas, honestamente, acho que é uma somatória de todos os fatores citados.
Uma coisa me parece certa, foi uma moda que durou pouco tempo. Qual será a próxima? Bem, resta consumir o pequeno estoque de bons laranjas que tenho e já lanço um desafio. Qualquer uma das minhas outras confrarias, caso se animem a fazer uma degustação de laranjas, irei abrir meu único Gravner Anfora, esperando que outro confrade leve um Radikon, um Damijan Podversic ou um Marjan Simcic. Promessa é dívida. Saúde
Ex-diretor da SBAV (Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho) por dois mandatos, onde também ministrava aulas sobre técnicas de degustação. Editor de vinhos da revista Go Where por 10 anos, publisher da revista Free Time por 3 anos. Já foi jurado de concursos internacionais como Catador e Concours Mondial de Bruxelles. Colaborador e degustador de diversas revistas de vinho, como Vinho Magazine, Vinho & Cia e outras. Editor do blog Tommasi no Vinho.
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Foto: Walter Tommasi, arquivo pessoal