Até meados do século passado, a produção de vinhos de qualidade estava concentrada na Europa. No chamado “Velho Mundo”, cada região produzia vinhos específicos, fruto de um conhecimento transmitido ao longo de gerações. Normalmente, utilizavam-se uvas autóctones, e os vinhos eram pensados para harmonizar com a gastronomia local.
Com a expansão da produção vinícola para além da Europa, no chamado “Novo Mundo“, o termo “vinho de terroir” ganhou uma utilização de forma muitas vezes inadequada. Isso porque a massificação e a padronização observadas nesses novos mercados não se alinham com a tipicidade esperada de um vinho ligado a um local específico.
Apesar desse uso equivocado, principalmente em estratégias de marketing, existem, sim, vinhos de terroir no Novo Mundo. Um exemplo é o Sauvignon Blanc da Nova Zelândia, que, na década de 1980, apresentou um novo estilo de vinificação distinto das formas tradicionais de Bordeaux e do Vale do Loire. Outro exemplo é a Malbec, em Mendoza, e a Tannat, no Uruguai, que reinventaram uvas originárias do sudoeste da França.
O conceito de terroir
Segundo a Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV), o conceito de terroir está relacionado a um lugar específico que combina:
- Aspectos físicos e biológicos do meio ambiente;
- A forma de cultivar as uvas e produzir os vinhos.
Essa interação entre o homem e a natureza resulta em uma forma única de produção de vinhos em determinada região, conferindo-lhes tipicidade.
A região vinícola da Alsácia
A Alsácia, uma das menores regiões produtoras de vinho da França, possui cerca de 15.500 hectares de vinhedos. A produção é majoritariamente de vinhos brancos de alta qualidade, além de espumantes cada vez mais reconhecidos.
A tradição vinícola local remonta ao período da ocupação romana. A Riesling, por exemplo, tem origem no Vale do Reno, onde a Alsácia está localizada. Assim como na Borgonha, os monges tiveram um papel central na definição do terroir, escolhendo as variedades mais adequadas e identificando os melhores terrenos para cultivo.

Poucas regiões da Europa foram tão afetadas por guerras quanto a Alsácia. Após anexação pela Alemanha em 1870, a região voltou à França após a Segunda Guerra Mundial. Esse histórico impactou a produção local de vinhos, e apenas em 1962 foi criada a denominação AOC Alsace (Appellation d’Origine Contrôlée).
O terroir da Alsácia
Na AOC Alsace, há uma peculiar classificação das uvas. Os grandes vinhos da região são produzidos com as chamadas “uvas nobres”, todas brancas: Riesling, Pinot Gris, Muscat e Gewürztraminer.
A Alsácia é uma região de baixa pluviosidade. Colmar, uma das principais cidades vinícolas da área, é considerada a mais seca da França, com menos de 500 mm de chuva por ano, geralmente no período ideal para o ciclo das videiras. Outros fatores contribuem para a maturação adequada das uvas, como a corrente de ventos frios (foehn), que ameniza as altas temperaturas de verão. A grande amplitude térmica favorece a acidez dos vinhos, característica essencial para brancos de qualidade.
A geologia complexa da região se traduz em 13 tipos diferentes de solos, conferindo diversidade aos vinhos da Alsácia.
Os 13 tipos de solos da Alsácia e seu impacto nos vinhos
Os solos da Alsácia podem ser divididos em três grandes grupos, influenciando diretamente as características dos vinhos brancos da região:
- Solos cristalinos (encontrados nas encostas das montanhas):
Compreendem quatro tipos: granito, xisto, vulcânico e arenoso. São solos de boa drenagem e baixa retenção de água, com alta concentração de minerais e poucos nutrientes. Os vinhos resultantes possuem elevada acidez e notas minerais ou salinas.- Granito: acidez marcante; vinhos diretos e puros.
- Arenoso: acidez menos pronunciada, maior textura e notas salinas.
- Xisto: acidez elevada e elegante; vinhos diretos e puros.
- Vulcânico: menor acidez do grupo; aromas defumados marcantes.
Esses vinhos tendem a ser acessíveis mais rapidamente (dois a três anos) e apresentam salinidade e aromas de petróleo desde jovens. Não costumam se beneficiar de estágios em madeira.
- Solos sedimentares (predominantes em áreas planas):
Incluem os tipos calcário, argiloso e marga. São solos mais férteis, fáceis de cultivar e que retêm mais água. Os vinhos preservam boa acidez, mas em níveis inferiores aos dos solos cristalinos.- Calcário: vinhos densos e estruturados, com equilíbrio entre doçura e frescor.
- Argiloso: vinhos densos e encorpados, mas com menor acidez.
- Marga: vinhos generosos, untuosos e com maior acidez que os argilosos.
Esses vinhos se beneficiam de estágios em madeira e demandam mais tempo para atingir seu melhor (cerca de cinco anos).
- Solos aluviais (próximos ao rio):
Produzem vinhos menos nobres em comparação aos outros grupos.
Produtores representativos de cada “micro” terroir
Para finalizar, seguem exemplos de produtores que ilustram cada tipo de micro terroir, conforme artigo de Romain Iltis, eleito o melhor sommelier da França em 2012:
Marga: Pfingstberg, Emile Beyer, Ginglinger.
Granito: Sommerberg, Albert Boxler, Schlossberg, Domaine Weinbach.
Arenoso: Kitterlé, Schlumberger.
Xisto: Kastelberg, Gresser.
Vulcânico: Rangen de Thann, Domaine Zind Humbrecht.
Calcário: Clos St Landelin Vorbourg, Muré.
Argiloso: Pfingstberg, Valentin Zusslin.
Renato Nahas é um grande apreciador de vinhos que adora se aprofundar no tema. Concluiu as certificações de Bourgogne Master Level da WSG, e também de Bordeaux ML. É formador com homologação pelo Consejo Regulador de Jerez e Italian Wine Specialist – IWS e Spanish Wine Specialist – SWS.. Sommelier formado pela ABS-SP, possui também as seguintes certificações: WSET3, FWS e CWS, este último pela Society Wine Educators.
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Fotos: Renato Nahas, arquivo pessoal; Consejo Regulador de Jerez