Last Updated on 11 de outubro de 2020 by Wine Fun
Viena é uma cidade particular no mundo do vinho. É a única capital do mundo a ter uma denominação de origem de vinhos dentro de sua jurisdição, o que evidencia a proximidade entre a cidade e o vinho. Tão forte é esta relação que o próprio nome da cidade (Wien) é muito próximo da palavra vinho em alemão (wein). E esta história é antiga, já que na Idade Média cerca de 20% da população da cidade dependia diretamente de atividades relacionadas ao vinho.
E em pleno século XXI ainda se elaboram vinhos dentro de Viena. Uma das vinícolas responsáveis (são cerca de 200 na denominação) por isso é a Weingut Christ, comandada desde 2006 por Rainer Christ, que além de diretor geral, é também o enólogo-chefe da vinícola. Mas o vinho em Viena não vive só do passado, as práticas adotadas na capital da Áustria estão rapidamente evoluindo. É a denominação do mundo com maior porcentagem de vinhedos orgânicos e, na vinificação, intervenção também tem sido minimizada. E Rainer Christ faz parte deste movimento. Abaixo os principais trechos de nossa entrevista exclusiva.
Wine Fun (WF): Qual é a sua filosofia de vinificação, o que você mais busca ao produzir um vinho (desde a escolha das uvas até o fim do processo de vinificação)?
Rainer Christ (RC): O respeito pela natureza é uma característica testemunhada no estilo de todos os vinhos elaborados na vinícola. Existe uma enorme preocupação com o sentido da autenticidade, expressar nos vinhos seu terroir de origem. Procuramos intervir nos vinhedos de forma muito cuidadosa, manusear as uvas de maneira suave, com uvas escolhidas a dedo e seleção diligente. Na vinificação, adotamos técnicas de mínima intervenção, sem colagem, correções ou filtragem estéril, resultando em vinhos cheios de caráter natural e vitalidade.
WF: O mundo está caminhando para práticas mais sustentáveis. Como a Weingut Christ está se adaptando a essas novas demandas?
RC: Estamos inseridos em um contexto de práticas mais sustentáveis não somente na cidade, mas na Áustria como um todo. Viena é a denominação de vinhos do mundo com a maior proprção de vinhedos orgânicos, superando 35% atualmente e com expectativa de bater a marca de 50% em três anos. Iniciamos a conversão de nossos vinhedos em 2014, após adquirir a mais antiga vinícola orgânica da cidade (que cultivava desde modo desde os anos 1980) e decidimos converter todos nossos vinhedos.
WF: Como foi o processo de conversão de conversão e os resultados?
RC: O início foi difícil, 2014 foi uma safra complicada para todos, por conta das condições climáticas, e tivemos perdas significativas. Mas a partir de 2015 notamos uma melhora significativa e constante, e agora estamos querendo ir além. Segregamos algumas parcelas de nossos vinhedos que não estão recebendo qualquer tratamento químico, nem mesmo aqueles permitidos pela certificação orgânica (como cobre ou enxofre). Contamos em ver resultados efetivos em três a cinco anos, a natureza precisa se readaptar.
WF: O aquecimento global está realmente afetando a Áustria tanto quanto algumas pessoas afirmam? Como os enólogos estão tentando compensá-lo?
RC: Apesar de sermos uma região fria, há efeitos. Porém, há muito que podemos fazer, como escolher locais mais altos, repensar os métodos de cultivo da terra e a gestão das vinhas, adiantar as colheitas, investir em ferramentas de resfriamento e que tornem o processo mais higiênico.
WF: Qual é o seu maior diferencial, qual seria uma técnica ou procedimento que você adota que mostra sua marca pessoal no vinho que você produz?
RC: Começa com a agricultura, segregamos nossos vinhedos em cinco zonas climáticas, para garantir a maturação ideal. Mas também tem a ver com a forma de vinificar. Construimos um área de vinificação onde gravidade é a chave. Na vinícola Christ não bombeamos vinhos, as uvas e os vinhos são movidos através da ajuda da gravidade, e nada mais.
WF: Qual variedade lhe dá mais satisfação em produzir? Por que isso?
RC: Grüner Veltliner, porque é como um camaleão, com rostos e estilos diferentes. É tremendamente flexível, mostra uma grande variedade de aromas e reflete muito bem a proposta de vinificação do enólogo. Ela também expressa bem o terroir, mostrando características bastante distintas dependendo da composição do solo. Além disso, é uma uva bastante gastronômica, até por ser produzida na maioria das vezes sem uso de madeira no envelhecimento.
É ainda uma uva muito particular da Áustria, ou melhor dizendo, de uma parte específica da Áustria. Ela parece trazer melhores resultados em uma faixa que, de uma certa forma, acompanha o rio Danúbio. No norte do país esta faixa fica em um distância de no máximo 40 quilômetros do rio, caindo para 10 a 15 quilômetros no sul.
Curiosamente, os vinhos de Grüner que provei de produtores da Styria ou próximos da Itália, que não ficam nesta faixa, mostram características bastante diferentes. O mesmo para exemplares desta variedade de países vizinhos ou mesmo da Nova Zelândia, onde se assemelham mais das características da Sauvignon Blanc.
WF: Os vinhos austríacos estão recebendo cada vez mais atenção internacional. Quais são os principais impulsionadores dessa tendência? Você acredita que a criação de um sistema de origem mais robusto ajudou?
RC: Estamos em uma região climática fria, o que é uma vantagem no contexto atual. Outro ponto é nossa escala de produção, já que na comparação com muitas outras regiões, as vinícolas da Áustria são bastante pequenas, familiares e individuais. Isso garante maior autenticidade. Também nos beneficiamos de um bom marco regulatório, já que renovamos nosso sistema de denominação.
WF: Quais são os maiores desafios para a vinificação na região onde você trabalha? Qual é a sua resposta para isso?
RC: Mudanças climáticas são sempre uma ameaça. Além disso, o ambiente para a produção é muito caro.
WF: Qual foi sua safra favorita desde que começou?
RC: 2013.
WF: Mencione três de suas músicas favoritas:
RC: Posso mencionar três bons exemplos de rock’n’roll: Should I Stay or Should I Go, do The Clash, Another One Bites the Dust, do Queen e I Still Haven’t Found What I am Looking For, do U2.
WF: Dois livros que você recomenda: um sobre vinho e outro sobre qualquer assunto:
RC: Fora do mundo do vinho, certamente seria Demian, de Hermann Hesse. Já focado em agricultura e vinhos menciono Chemie des Weines de Würdig & Woller, um manual de tecnologia alimentar.
WF:Fale sobre aspectos adicionais de sua atividade que você gostaria de discutir!
RC: Estamos vendo uma grande mudança nos hábitos de consumo de vinho. As pessoas estão tendendo mais para vinhos mais leves, mais frescos e refrescantes, ao contrário da percepção que se pode esperar para vinhos tintos mais estruturados.
Se você analisa as adegas na Europa Central, as de vinhos tintos estão cheias, as de vinhos brancos vazias, refletindo esta mudança de gosto. Além disso, houve uma alteração nos hábitos de consumo, a maioria das pessoas hoje compra vinhos para consumo rápido, não para deixar na adega.