Conheça Chambolle-Musigny, o vilarejo dos vinhos mais elegantes do mundo

Last Updated on 14 de julho de 2022 by Wine Fun

A Borgonha tem a reputação de ser a origem de alguns dos melhores vinhos do mundo. Dentro desta icônica região francesa, porém, existe quase um consenso: a fonte de seus vinhos mais elegantes. Elaborados em sua imensa maioria a partir da Pinot Noir, estes vinhos são provenientes do vilarejo de Chambolle-Musigny, que também dá nome a esta pequena, mas disputada denominação de origem.

Esta denominação de origem, ao contrário de outras na Borgonha, fica inteiramente dentro de apenas uma commune (Chambolle-Musigny). Porém, dentro do território desta commune ficam também dois vinhedos Grands Crus, que têm suas denominações próprias. Isso é a regra na Borgonha, onde os vinhedos classificados como Village e Premier Cru fazem parte de uma denominação de origem (neste caso Chambolle-Musigny), enquanto aqueles Grand Cru têm regulamento à parte.

História

Como muitas regiões da Côte d’Or, os principais vinhedos de Chambolle-Musigny têm uma forte ligação histórica com as ordens religiosas. Os cistercienses receberam e adquiriram terras na região a partir de 1.100 d.C, inclusive em Chambolle-Musigny, expandindo seus vinhedos de Clos de Vougeot. A grande maioria destes vinhedos ficou sob controle das ordens religiosas até a Revolução Francesa.

Após a venda dos vinhedos por conta da Revolução, alguns dos climats e lieux-dits continuaram a se destacar pela qualidade de seus vinhos. Tanto que até o nome de seu mais famoso vinhedo foi utilizado para complementar o nome do vilarejo. O nome Chambolle deriva do francês Champ Bouillant (campo em ebulição), por conta das águas torrenciais que o alagavam em períodos de chuva intensa.

Porém, em 1878 o vilarejo teve seu nome mudado para Chambolle-Musigny, com adição do nome de seu vinhedo mais bem avaliado. Como parte da classificação das principais regiões vinícolas francesas, a denominação de origem foi criada em 1936, e seus dois principais vinhedos Grand Cru ganharam este status.

Geografia e geologia

Chambolle-Musigny fica no coração da Côte d’Or, a cerca de 20 quilômetros de Dijon (ao norte) e 22 quilômetros de Beaune (ao sul). Ao contrário de muitos outros vilarejos da Côte d’Or, seus vinhedos Grand Cru (em vermelho no mapa abaixo) não estão tão próximos. Bonnes Mares está situado ao norte, na divisa com Morey-Saint-Denis, enquanto Musigny fica no outro extremo, próximo a Echézeaux e Clos de Vougeot. Entre eles existe um faixa de vinhedos classificados como Premier Cru, representados em laranja abaixo.

O vilarejo em si fica situado logo na saída da Combe d’Ambin, na parte central do mapa. Ela garante a livre circulação de ar fresco a partir da região mais elevada, a Haute Côtes de Nuits, o que impacta de forma significativa na qualidade dos vinhos. Além disso, a Combe d’Ambin garante uma composição distinta de solos, por conta dos depósitos aluviais que se formaram a partir das enchentes que deram nome ao vilarejo. No limite sul da denominação de origem há outra falha, a Combe d’Orveau.

Denominação de Origem

A denominação de origem Chambolle-Musigny conta com uma área delimitada de vinhedos de 154,6 hectares, dos quais 61,2 hectares classificados como Premier Cru, o restante como Village. Cerca de 99% da área demarcada está atualmente em produção (153 hectares), inteiramente plantada com Pinot Noir.

A produção média entre 2014 e 2018 foi de 5.950 hectolitros, que correspondeu a cerca de 8% do total da Côte de Nuits no mesmo período. Desta produção, cerca de 38% foram classificados como Premier Cru. Em termos relativos, a produção total da denominação Chambolle-Musigny corresponde a cerca de um terço de Gevrey-Chambertin, uma das principais referências da Côte de Nuits.

Grands Crus

Mesmo que não façam parte da denominação de origem Chambolle-Musigny, não há como fazer referência a este vilarejo sem mencionar os dois vinhedos Grand Cru ali localizados. O mais conceituado, Musigny, tem 9,72 hectares de extensão, com a vasta maioria plantada com Pinot Noir (0,66 hectare é plantado com Chardonnay, exclusivamente pela Domaine Comte Georges de Vogüé). Juntamente com Corton, é um dos dois únicos Grands Crus da Côte d’Or que pode elaborar vinhos brancos e tintos.

Já Bonnes Mares tem, no total, 15,05 hectares (um dos maiores Grands Crus da Côte d’Or), mas é dividido entre as communes de Chambolle-Musigny (13,54 ha) e Morey-Saint-Dennis (o restante 1,52 ha). Por conta de sua maior área, tem diferentes terroirs, que acabam refletidos em seus vinhos.

Vinhedos Premier Cru

Somando a área dos climats Grand Cru, a área total de vinhedos da commune de Chambolle-Musigny atinge 179 hectares, com cerca de 48% dos vinhedos classificados como Grand Cru ou Premier Cru, uma das proporções mais altas da Côte d’Or. No total, são 24 climats classificados como Premier Cru, com um vinhedo concentrando boa parte da atenção.

Uma rua de distância: Musigny (esquerda) e Les Amoureuses (direita)

Les Amoureuses tem cerca de 5,4 hectares de área e seus vinhos são vendidos a preços ainda mais elevados que muitos Grands Crus, inclusive superando os valores dos vinhos de Bonnes Mares. Outros destaques são para Les Cras, Les Charmes, Les Chabiots, Combe d’Orveau e Les Baudes. Os demais são: Les Véroilles, Les Sentiers, Les Noirots, Les Lavrottes, Les Fuées, Aux Beaux Bruns, Aux Echanges,. Les Plantes, Aux Combottes, Derrière la Grange, Les Gruenchers, Les Groseilles, Les Combottes, Les Feusselottes, Les Chatelots, Les Carrières, Les Borniques e Les Hauts Doix.

Vinhos e produtores

Os vinhos de Chambolle-Musigny são considerados como os mais delicados e elegantes da Borgonha, sobretudo aqueles elaborados a partir dos climats Grand Cru e Premier Cru mais ao sul, como Musigny e Les Amoureuses.  São vinhos quase sempre descritos com expressões que destacam delicadeza e finesse, como, por exemplo, vinhos femininos e refinados, taninos nobres ou sutileza.

É uma denominação que atrai alguns dos melhores produtores da Borgonha, muitos dos quais com acesso aos principais vinhedos locais, embora com sede em outros vilarejos. Exemplos são Domaine Leroy, Bruno Clair e Nicolas Potel; ou négociants, como Faiveley, Jadot e Drouhin. Além disso, o vilarejo é sede também de vinícolas conceituadas, como Domaine Comte Georges de Vogüe, Roumier, Hudelot Noellat, JF. Mugnier, Ghislaine Barthod e Amiot Servelle, entres outras. Todas elas possuem parcelas distribuídas pelos principais vinhedos.

Fontes: World Atlas of Wine, Hugh Johnson; Burgundy Report; Vins de Bourgogne; Wine Scholar Guild; Mairie de Chambolle-Musigny; Inside Burgundy, Jasper Morris; Burgundy Report; The Climats and Lieux-dits of the Great Vineyards of Burgundy, Marie-Hélene Landrieu-Lussigny & Sylvian Pitiot

Mapa: Vins de Bourgogne

Imagens: Arquivo pessoal

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