Last Updated on 23 de dezembro de 2024 by Wine Fun
A Borgonha é uma das fontes de inspiração para o mundo do vinho em muitos aspectos, entre eles a sua detalhada classificação de vinhedos. De fato, o próprio conceito de terroir tem enorme associação com esta região francesa, que mapeia seus vinhedos de forma precisa e detalhada. São 84 denominações de origem diferentes, das quais 44 delas no nível village, ou seja, incluindo vinhedos situados em torno de um vilarejo específico.
Se grande parte delas permite a identificação de um estilo único de terroir, existem, todavia, exceções. E uma das principais é a denominação de origem Côte de Nuits-Villages. Ao invés de incluir apenas os vinhedos de um vilarejo e áreas adjacentes, neste caso são cinco vilarejos em diferentes partes da Côte de Nuits. Portanto, é uma denominação de origem que exige uma análise mais profunda, pois pode dar origem a vinhos de características bastante distintas.
Uma denominação de origem peculiar
A denominação de origem Côte de Nuits-Villages foi criada em 1937, em paralelo com a regulamentação de grande parte das denominações de origem da Borgonha. De uma certa forma, é uma espécie de denominação “guarda-chuva”, incluindo os vinhedos de alguns vilarejos que não obtiveram uma denominação village própria. Por diversos motivos, quatro destes vilarejos (Premeaux-Prissey, Comblanchien, Corgoloin e Brochon) não podem engarrafar vinhos com seus nomes. O quinto, Fixin, tem sua denominação de origem, mas os seus produtores podem também engarrafar seus vinhos como Côte de Nuits-Villages.
Confuso? Imagino que sim, portanto vamos tentar olhar esta denominação de origem um tanto de peculiar de forma mais didática. Ela pode ser dividida em dois grandes blocos: de um lado, os vinhedos situados mais ao sul da Côte de Nuits (Premeaux-Prissey, Comblanchien e Corgoloin), de outros aqueles mais ao norte, incluindo Brochon e Fixin.

Vinhedos do sul
Esta parte denominação de origem Côte de Nuits-Villages tem uma lógica um pouco mais simples. Todos os vinhos produzidos nos vilarejos de Comblanchien (área delimitada de vinhedos de 56 hectares) e Corgoloin (87,8 hectares) são engarrafados como Côte de Nuits-Villages. A exceção ocorre somente quando o produtor opta por desclassificar seus vinhos para uma das denominações regionais, como Bourgogne AOC, por exemplo. Vale lembrar que estes dois vilarejos ficam no extremo sul da Côte de Nuits, já que Corgoloin é o último vilarejo antes do início da Côte de Beaune.
Já Premeaux-Prissey, que fica ao norte das duas anteriores, tem uma peculiaridade. Parte de seus vinhedos dão origem a vinhos que podem ser engarrafados como Nuits-Saint-Georges. Isso inclui alguns dos melhores vinhedos localizados neste vilarejo, como Clos de la Maréchale, Clos Arlot e Aux Corvées. Outros, com uma área total de apenas 12 hectares, não têm esta prerrogativa. Provenientes de dois vinhedos (Les Vignottes e Au Leurey), seus vinhos vem ao mercado como Côte de Nuits-Villages.
Vinhedos do norte
Da mesma forma que Premeaux-Prissey, os vinhedos de Brochon podem dar origem a vinhos de diferentes denominações de origem. Além dos quase 40 hectares usados para vinhos de Côte de Nuits-Villages (que ficam entre o vilarejo de Brochon e a fronteira com Fixin), boa parte dos demais vinhedos pode ser rotulada como Gevrey-Chambertin.
Em Brochon há ainda mais uma peculiaridade. Os vinhos provenientes do vinhedo Queue de Hareng (localizado a nordeste do vilarejo de Brochon) chegam ao mercado com rótulo Fixin, como parte do vinhedo Premier Cru Fixin Clos de la Perriére. Portanto, Brochon tem um Premier Cru, que é engarrafado como Fixin. Para complicar um pouco mais, parte deste mesmo vinhedo é classificada como village, dando origem a vinhos comercializados como Côte de Nuits-Villages.
Fixin, por sua, vez, adota um conjunto diferente de regras. Os produtores deste vilarejo podem optar por comercializar seus vinhos como Fixin ou como Côte de Nuits-Villages. São cerca de 103 hectares de vinhedos village que poderiam dar origem a vinhos Côte de Nuits-Villages. Isso, na prática, porém quase não acontece. Os produtores, em sua imensa maioria, optam por engarrafar os vinhos como Fixin.
Diferentes terroirs e estilos
Por conta da diversidade presente em uma área delimitada de 298 hectares de vinhedos, existem diferenças significativas entre as condições de terroir e estilos de vinhos engarrafados como Côte de Nuits-Villages. Aqueles dos vinhedos do sul contam com uma formação geológica intermediária entre o que existe na Côte de Nuits e aquele da Côte de Beaune, dando origem a vinhos mais delicados e com menor potência.
As colinas de Comblanchien e Corgoloin contam com calcários duros da época Bathoniana, com encostas suaves e regulares, não atingindo a borda do planalto. Na parte mais alta destes vinhedos, o solo é apenas ligeiramente calcário. Já no meio das encostas, mais abaixo, há uma espessa camada de cascalho pedregoso. Por fim, no sopé das encostas há uma extensa área de solos aluviais e mais argilosos, gerando vinhos de maior estrutura e certa rusticidade.
Já os vinhos provenientes do norte da Côte de Nuits-Villages são geralmente mais tânicos e estruturados, refletindo solos mais ricos e com mais argila e componentes aluviais, que muitas vezes lembram o estilo daqueles de Gevrey-Chambertin. Vale lembrar que a imensa maioria dos vinhos de Côte de Nuits-Villages são tintos, proporção ainda maior nos vinhedos no norte.
Área plantada e produção
Dos quase 300 hectares de área delimitada, apenas 165 hectares dão origem aos vinhos de Côte de Nuits-Villages. Destes, 156 hectares são de Pinot Noir, com os demais 10,3 hectares com uvas brancas, com destaque para a Chardonnay. Vale lembrar, porém, que o regulamento desta denominação de origem village permite também o uso de Pinot Blanc e Pinot Gris.
A produção total média entre 2014 e 2018 atingiu 6.754 hectolitros, o que correspondeu a cerca de 900 mil garrafas. Deste total, aproximadamente 835 mil (93%) foram vinhos tintos, com os brancos respondendo pelos demais 7%. Não há aprovação para elaboração de vinhos rosé nesta denominação de origem.

Vinhos e produtores de destaque
Apesar de ser uma denominação de origem pouco conhecida e que não inclui os melhores vinhedos de alguns dos cinco vilarejos que fazem parte dela, vale a pena conhecer seus vinhos. Até pelo pouco conhecimento por parte dos consumidores, é uma área que pode dar origem a vinhos de excelente custo-benefício. Além disso, não faltam produtores de alto nível elaborando vinhos a partir destes vinhedos, sobretudo quando o foco é em tintos.
A partir dos vinhedos da parte sul, alguns destaques são Claire Naudin, Jérôme Galeyrand, Gérard Julien et Fils, Etienne Julien, Emmanuel Rouget , Domaine de l’Arlot, Gachot-Monot, Jean-Jacques Confuron, La Maison Romane e Jean-Marc Millot. Embora haja menos produtores engarrafando a partir dos vinhedos do norte, três nomes de peso chamam a atenção: Denis Bachelet, Sylvie Esmonin e Berthaut-Gerbet.
Fontes: Vins de Bourgogne; Wine Scholar Guild; Inside Burgundy, Jasper Morris; WineHog; Cahier des Charges de L’Appellation d’Origine Contrôlée Côte de Nuits-Villages; WineHog
Mapa: Vins de Bourgogne
Imagem: Arquivo Pessoal