Demeter e a origem da agricultura biodinâmica

A agricultura biodinâmica e a Demeter, a mais antiga e maior associação que promove esta forma de agricultura, têm uma relação longa e próxima. Por muito tempo, praticamente não havia como colocar em prática a agricultura biodinâmica sem contar com a assessoria da Demeter, criada na década de 1920. Foi nessa década que Rudolf Steiner passou adiante seus conhecimentos, dando origem ao movimento biodinâmico.

Desde então, a Demeter cresceu a partir de suas origens na Alemanha para mais de 60 países. Atualmente, ela atua em diversos segmentos, inclusive a vitivinicultura, que vem ganhando espaço crescente nas últimas décadas. Em 2024, havia mais de 600 produtores de vinho com certificação Demeter biodinâmica, espalhados por 19 países.

Suas origens

A agricultura biodinâmica surgiu como resposta ao uso de fertilizantes nitrogenados, que ganharam presença nos campos europeus e norte-americanos a partir de uma descoberta científica em 1909. Já na década de 1920, os primeiros efeitos negativos do uso de fertilizantes sintéticos baseados no nitrogênio se tornaram visíveis. Em resposta a isso, alguns agricultores alemães começaram a se preocupar com a fertilidade sustentável do solo. Em 1924, um grupo pediu a Rudolf Steiner que realizasse um curso sobre agricultura em Koberwitz. Este evento marca o nascimento da agricultura biodinâmica.

A partir dos ensinamentos de Steiner, um grupo de agricultores denominado Círculo Experimental de Agricultores Antroposóficos passou a colocar em prática, na agricultura, os princípios da agricultura biodinâmica. Três anos depois, uma cooperativa foi formada para comercializar produtos resultantes da agricultura biodinâmica.

A introdução e o registro do símbolo Demeter como marca registrada ocorreram em 1928, com os primeiros padrões de controle de qualidade formulados. A escolha do nome faz referência à deusa da mitologia grega, responsável pela colheita e pela agricultura, com papel destacado na fertilidade da Terra. A formalização dos princípios biodinâmicos, a partir deste ano, passou a ter nome e regulamentos.

Avanços e retrocessos

Embora a Demeter tenha atraído seguidores em outros países, a Alemanha seguiu como seu centro principal de atividades. Em 1941, porém todas as organizações Demeter e sua publicação mensal foram proibidas na Alemanha. Foi somente em 1946 que o Círculo Experimental para Métodos de Agricultura Biodinâmica (anteriormente “Círculo Experimental dos Agricultores Antroposóficos”) foi estabelecido e reestruturado, com seu primeiro curso introdutório ministrado.

Em 1994 a Demeter passou a ser a primeira associação orgânica a organizar padrões para o processamento de alimentos e bebidas, mas foi em 2017 que um marco importante foi estabelecido. Dezenove organizações independentes da Demeter, com representantes da Áustria, Austrália, Brasil, Canadá, Dinamarca, Egito, Finlândia, França, Alemanha, Grã-Bretanha, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Holanda, Nova Zelândia, Noruega, Suécia, Suíça e Estados Unidos e criaram a Demeter-International.

Em novembro de 2002, nasceu a Associação Internacional de Biodinâmica (IBDA), que passou a ser responsável pela propriedade e proteção das marcas Demeter e Biodinâmica em todo o mundo. Já em 2020, a Demeter International e a IBDA uniram forças para formar a Federação Biodinâmica – Demeter International (BFDI). Esta nova organização internacional passou a servir de guarda-chuva para as organizações Biodinâmica e Demeter em todo o mundo.

A Demeter e o vinho

Se o berço da Demeter é na Alemanha, foi na França, mais especificamente na Alsácia, que a biodinâmica ganhou maior participação na vitivinicultura. Eugène Meyer, em 1969, foi um dos primeiros produtores a usar a biodinâmica, até por motivos pessoais. Depois de ser exposto a pesticidas em seus vinhedos, Meyer sofreu a paralisia de um nervo óptico. Seu médico homeopático o encorajou a ler sobre biodinâmica, e Meyer e sua esposa logo depois começaram a converter seus vinhedos. Em 1980, foram os primeiros vinhedos certificados biodinâmicos pela Demeter e, até hoje, a Domaine Eugène Meyer é certificada.

O mesmo ocorreu com a Domaine Pierre Frick, que fez sua conversão de orgânico para biodinâmico em 1981. Na mesma época, porém, outros produtores franceses faziam experimentos com a biodinâmica. No Vale do Loire, Nicolas Joly começou a experimentar o cultivo biodinâmico em 1980, tornando-se, posteriormente, um dos principais nomes do movimento biodinâmico francês. Com vinhedos 100% biodinâmicos desde 1984, Joly fundou, em 2001, a Renaissance des Appellations, um grupo que conta atualmente com mais de 200 produtores biodinâmicos.

Quadro atual

A Demeter atualmente certifica quase 600 produtores de vinho, o que a faz, por larga margem, a maior certificadora biodinâmica do mundo. São milhares de vinhos com certificação biodinâmica, grande parte dos quais contém, em seus rótulos ou contrarrótulos, o selo desenvolvido pela Demeter para esses produtos.

A França segue sendo o principal mercado da Demeter, com cerca de 280 produtores diferentes, espalhados por todo o país. Dentre as regiões francesas com mais produtores biodinâmicos, destaca-se o Vale do Rhône, Languedoc-Roussillon, Alsácia, Bordeaux, Vale do Loire e Borgonha.

Diversos dos principais países produtores de vinho da Europa vêm na sequência. Destaque para Itálie e Alemanha, seguidos, em segundo plano, por Áustria e Suíça. A presença fora do continente europeu é mais tímida, com exceção dos Estados Unidos, que, com cerca de 35 produtores, aparece entre os seis maiores mercados da Demeter no mundo. Porém, o crescimento tem sido acelerado em diversos países não europeus, com vinícolas certificadas também na África do Sul, na Argentina, no Chile, no México e na Nova Zelândia.

Fontes: Demeter; Seven Fifty Daily

Imagem: Demeter

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