Markus Molitor é um caso de enorme sucesso não apenas na região do Mosel, mas também no mundo dos vinhos finos. Em 1984, contava com apenas três hectares e hoje, pouco mais de 40 anos depois, vinifica cerca de 100 cuvées diferentes todos os anos, a partir de mais de 120 hectares. Não sendo parte da VDP, divide seus vinhos em três grupos, com base no sistema alemão de Prädikat (que avalia o grau de açúcar das uvas na colheita ou o peso do mosto). Os vinhos mais secos recebem cápsula branca, que é verde para os no estilo Feinherb e dourada para os doces e licorosos. Além disso, adota também um sistema de qualidade interno, que varia de uma a três estrelas.
De forma geral, as videiras contam com agricultura sustentável usando vários conceitos orgânicos, cultivo de baixo rendimento e colheita manual. Tanto o recipiente de fermentação (sempre com leveduras indígenas) quanto o de envelhecimento dependem da variedade e da cuvée. Foi um prazer conhecer alguns de seus vinhos em uma recente visita à vinícola.
Wehlener Klosterberg Pinot Blanc 2021
Monovarietal de Pinot Blanc, com uvas provenientes de parcelas próximas à sede da vinícola, em Wehlen. Vinificação inteiramente em barricas, como outros brancos de vinhedos únicos a partir de variedades borgonhesas. Mesmo em uma safra fria, um vinho mais opulento, com muita fruta amarela, cedro e baunilha no nariz, boa acidez e textura fresca. Pode ganhar com mais tempo para integrar melhor a madeira. €22.
Einstern Pinot Noir 2020
Pinot Noir elaborado com fruta de cultivo orgânico, não certificado, de diferentes parcelas ao redor do Mosel (especialmente ao redor de Wehlen, Zeltingen, Bernkastel e Graach), mas também de áreas mais ao sul, no Saar. Fermentação natural em inox com maceração de três semanas e meia e estágio de 10 a 12 meses em fuders de 1.000 litros. Um tinto surpreendente para uma região fria como o Mosel, com destaque para frutas vermelhas (framboesa, cereja), especiarias (pimenta negra), toque floral (violeta) e leve defumado. Palato equilibrado, com muita vivacidade e ótima estrutura, textura sedosa e taninos finos. Espetacular custo-benefício de €22, possivelmente no ponto ideal de sua janela de consumo. É um vinho de entrada, classificado como uma estrela no sistema adotado por Markus Molitor.
Graacher Himmelreich Pinot Noir 2018
Um vinhedo especial, Graacher Himmelreich, localiza-se entre Graach e Wehlen, no Mittelmosel, com orientação sul/sudeste. Produz alguns dos Rieslings mais refinados e clássicos da região, mas Molitor plantou algumas parcelas com Pinot Noir. Classificado internamente como três estrelas, tem vinificação mais longa, com maceração de quatro a seis semanas e ao menos 18 meses de estágio em barricas, incluindo novas. Um vinho mais elegante, intenso e profundo, com menos fruta e mais notas de couro e um toque defumado. Complexo e com múltiplas camadas, apresentou corpo médio e taninos já bem integrados; justifica seu preço de € 120.
Graacher Domprost Kabinett 2020
Este vinhedo de orientação sul-sudoeste, costuma dar origem a vinhos mais frutados e menos elegantes do que seu vizinho, Wehlener Sonnenuhr. Aqui, porém, o resultado foi um vinho fresco e refinado, com um custo-benefício incrível de pouco menos de €18. Olfativo com notas de erva-doce, menta, cítricos e frutas brancas; trazendo na boca alta acidez, fruta na medida e corpo médio, com muita tensão e vibração.
Zeltinger Sonnenuhr Spätlese 2020
Este e o vinho seguinte tiveram como objetivo comparar as diferenças decorrentes de diferentes perfis de solo de ardósia presentes no Mosel. Neste caso, a ardósia azul (a mais comum) resulta em um Riesling de grande tipicidade. Olfativo com notas cítricas, frutas brancas e toque defumado, com palato marcado por alta acidez, corpo médio, textura fina e cremosa, boa estrutura e presença de fruta. €24.
Saarburger Rausch Spätlese 2020
Aqui o solo é de ardósia vermelha e a localização é mais ao sul, já em torno do rio Saar. Um Riesling mais especiado, com textura um pouco mais granulosa, menos fruta e mais salinidade. No nariz, além das tradicionais notas cítricas e de frutas brancas, trouxe notas de especiarias doces. €19,50.
Kinnheimer Hubertuslay Auslese 2020
Este vinhedo está localizado em Kinheim, no Mittelmosel, entre Erden e Kröv, com orientação sul e sudeste, logo atrás da colina principal de Zeltlinger. A intenção de degustar vinho e o seguinte (do mesmo vinhedo, mas de safra diferente) foi entender melhor as safras e como estes vinhos ganham com o tempo. Com classificação de duas estrelas nesta safra, apresentou um olfativo cítrico, com fruta branca (pera madura) e leve especiado. Na boca, um Riesling de acidez marcante, corpo médio e açúcar bem discreto e muito linear para um Auslese. €38.
Kinnheimer Hubertuslay Auslese 2017
Já plenamente em sua janela de consumo, mostrou-se muito mais intenso e complexo. Um vinho espetacular, equilibrado e elegante, com ótima densidade e textura. Trouxe um leve fenólico, combinando múltiplas camadas com frescor e longa persistência. Deixou muito claro por que Kinheimer Hubertuslay é considerado um terroir de excelente relação qualidade–preço, frequentemente subavaliado. €89.
Ockfener Bockstein Kabinett 2020
Se os Rieslings anteriores recebem cápsula branca (Weisse Kapsel), indicando menor presença de açúcar residual; este aqui inaugura a relação de vinhos de cápsula verde (Grüne Kapsel) desta degustação, sinalizando vinhos off-dry. Neste caso, a fermentação foi interrompida por controle de temperatura e por adição posterior de sulfitos. Outro custo-benefício excelente (menos de €16), com notas de erva-doce, menta e cítricos no nariz. O palato trouxe alta acidez, um vinho elegante e delicado, não profundo e denso como os demais, mas bem equilibrado.
Zeltinger Sonnenhur Auslese 2003
Já com mais de 20 anos desde sua safra (2003 foi uma das mais quentes do século na Europa), mostra o incrível potencial de evolução dos Rieslings de grandes vinhedos. Com um toque de botrytis, trouxe um olfativo rico, com açafrão, mel e própolis. Denso, mais cheio e untuoso no palato, ganha destaque mais pela potência, pela textura redonda e pela fruta, menos pela verticalidade e pela tensão. €79.
Wehlener Sonnenuhr Spätlese 2021
Os dois últimos vinhos do painel fazem parte daqueles rotulados como cápsula dourada (Goldene Kapsel), ou seja, vinhos doces. Este primeiro vem de um dos vinhedos mais conceituados do Mosel. Com cerca de 75 gramas de açúcar, refletiu a safra mais fria, com olfativo mais austero (algumas notas mais verdes), alta acidez e bela estrutura, muito mais fresco e vertical do que se esperaria de um Spätlese. Outro custo-benefício incrível, a €24.
Zeltinger Deutschherrenberg Auslese 2005
Vinho de edição especial, lançado somente 20 anos após sua safra. Olfativo muito complexo, com notas de açafrão, mel, pêssego amarelo, frutas tropicais e melão cantaloupe. Mais denso, concentrado e profundo do que o anterior, com múltiplas camadas, boa acidez e final muito longo. €69.