A safra de 2024 marcou um ponto histórico para o vinho europeu. A produção caiu para 138,3 milhões de hectolitros, o menor volume do século. O número representa uma queda de 3,5% em relação à safra anterior e de 11% em relação à média dos últimos cinco anos. Mesmo assim, o excedente em relação ao consumo permanece elevado. Segundo dados compilados pela American Association of Wine Economists (AAWE) a partir de estatísticas da Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV), a produção ainda superou o consumo interno em cerca de 13%.
A forte queda na produção não foi suficiente para mudar a dinâmica do mercado. A Europa segue produzindo mais do que consome, e a safra menor apenas reduziu o tamanho absoluto do excedente, mas não a sua existência. Em anos de grande abundância, o excesso chega a níveis recordes, enquanto, em anos de produção menor, ele diminui, mas nunca desaparece. A lógica é constante: o Velho Continente produz para além da demanda interna, e isso já dura décadas.
O contraste entre safras e consumo revela a natureza do problema. A produção oscila com fatores climáticos e, mais recentemente, com ações para reduzir a área plantada. O consumo, por outro lado, segue uma clara e preocupante tendência de queda. Há menor consumo entre os jovens, maior competição de outras bebidas e um contexto econômico que pressiona o setor. Mesmo com safras fracas, o mercado europeu continua com sobra de vinho.
Excessos persistentes
A União Europeia, naturalmente, tem uma vocação de produzir mais vinho do que consome, de modo que este produto acaba sendo um item relevante na pauta de exportações de muitos países do bloco. Porém, novos hábitos de consumo, maior competição e instabilidade nos mercados importadores (a China é um grande exemplo) ampliam este desequilíbrio. Isso traz consequências claras sobre os preços e, consequentemente, sobre a viabilidade da produção.
Nos últimos vinte anos, a diferença entre produção e consumo na Europa variou, mas sempre se manteve positiva. O maior excedente ocorreu em 2018, quando a produção superou o consumo em cerca de 35%. Foi um ano de colheita excepcional, marcado por volumes recordes na França, na Itália e na Espanha. No extremo oposto, está 2017, ano de geadas e secas, quando a margem caiu para pouco mais de 4%. Ainda assim, mesmo nesse período crítico, a Europa produziu mais do que consumiu.
Entre esses dois extremos, o padrão se manteve estável. O excedente médio da União Europeia oscilou entre 10% e 15% da produção total, o que evidencia um desequilíbrio estrutural. A produção pode cair, como em 2024, ou atingir picos, como em 2018, mas o consumo interno não acompanha essas variações. A Europa continua a produzir vinho em volume consistentemente superior ao que o mercado doméstico consegue absorver.
Países com excedentes expressivos
A Itália é o exemplo mais claro. Produziu cerca de 44,1 milhões de hectolitros em 2024 e consumiu apenas 22,3 milhões. Isso significa que o país produziu quase o dobro do que bebeu. A França vem logo atrás, com 36,1 milhões de hectolitros produzidos e 23 milhões consumidos, o que gera um excedente de aproximadamente 57% em relação ao consumo.
A Espanha amplia ainda mais o desequilíbrio. Produziu 31 milhões de hectolitros, mas o consumo interno ficou abaixo de 10 milhões. O excedente ultrapassa 200% do consumo nacional. O país depende fortemente das exportações e sofre quando o mercado internacional desacelera. Portugal aparece em uma situação mais equilibrada. A produção de 5,6 milhões de hectolitros supera ligeiramente o consumo, mas o excedente é pequeno. Ainda assim, as exportações são essenciais para sustentar o setor e garantir espaço para vinhos de maior valor agregado.
Alemanha: importador e ponto de equilíbrio
A Alemanha é a exceção entre os grandes mercados da União Europeia. Produziu cerca de 7,8 milhões de hectolitros em 2024 e consumiu 17,8 milhões. O déficit é de cerca de 10 milhões de hectolitros, coberto sobretudo por importações da França, da Itália e da Espanha. Esse papel de importador o torna um ponto de equilíbrio no mercado europeu. Parte do excedente produzido ao sul cruza as fronteiras e encontra consumidores alemães. A Alemanha ajuda a aliviar o excesso de oferta dos países vizinhos, porém o balanço geral entre produção e consumo permanece desequilibrado.
Fontes: AAWE – American Association of Wine Economists, European Commission, 2025; OIV – International Organisation of Vine and Wine, State of the World Vine and Wine Sector 2024; WineNews; Sofia Globe,
Imagem: Gerada via IA com Magic Media