FOMO e vinho: o medo de ficar de fora também chegou às taças e garrafas

Diversos fenômenos do mundo moderno são expressos por uma verdadeira sopa de letrinhas. Um deles é o FOMO, sigla em inglês para Fear of Missing Out, expressão que pode ser traduzida como “medo de ficar de fora”. O termo descreve um fenômeno psicológico bastante simples de entender, mas nem sempre fácil de controlar. Ele retrata a sensação de que outras pessoas estão vivendo experiências mais interessantes, mais prazerosas ou mais relevantes do que as nossas, acompanhada pelo medo de não participar dessas experiências.

O FOMO não nasceu com o Instagram, nem com o TikTok ou outras mídias sociais. A necessidade de pertencimento sempre fez parte do convívio humano em sociedade. O que mudou foi a intensidade e a velocidade com que somos expostos à vida dos outros. Nas redes sociais, experiências antes privadas passaram a ser transformadas em conteúdo público, editado, filtrado e publicado em tempo real. Viagens, restaurantes, garrafas raras, visitas a vinícolas e degustações exclusivas aparecem em sequência infinita, quase sempre em suas versões mais bonitas, mais luxuosas e mais desejáveis. O resultado é um ambiente perfeito para a comparação social. Não basta mais viver uma experiência. Parece ser necessário mostrar que se viveu aquela experiência.

FOMO no vinho

No mundo do vinho, esse fenômeno ganhou contornos muito claros. As mídias sociais refletem e, ao mesmo tempo, amplificam a gourmetização e a elitização do mercado. Um exemplo simples pode ser observado no próprio comportamento da minha página no Instagram. Quando publico minhas percepções sobre um vinho de uma região mais badalada, como a Borgonha ou o Jura, o número de curtidas tende a aumentar. Já quando meu foco é em vinhos de regiões menos conhecidas, a interação costuma ser menor. Evidentemente, isso não significa que esses vinhos sejam melhores ou piores. Significa apenas que, em um ambiente tão rápido quanto a internet, muita gente reage antes à imagem, ao nome e ao prestígio percebido do que ao conteúdo em si.

A Borgonha talvez seja o exemplo mais evidente desse processo. Independentemente da qualidade dos seus vinhos, a região vive, nas últimas décadas, um momento único. Seus vinhos tornaram-se objeto de disputa entre apreciadores, colecionadores, importadores, críticos e investidores. Algumas garrafas passaram a circular menos como bebidas e mais como símbolos de status e de posição social. Ainda que a desaceleração global do consumo de vinho já comece a afetar até regiões antes praticamente intocáveis, a Borgonha continua ocupando um lugar central no imaginário contemporâneo do vinho.

Pertencimento seletivo

Para quem entende de vinho, ou para quem deseja parecer que entende, conhecer Borgonha tornou-se quase uma obrigação. Não por acaso, proliferam cursos, perfis e influenciadores dedicados quase exclusivamente aos vinhos da região. O problema não está em estudar Borgonha. Ao contrário: é uma das regiões mais fascinantes do mundo do vinho. O problema ocorre quando o interesse genuíno é substituído pela ansiedade de pertencimento. Nesse caso, o vinho deixa de ser uma descoberta e passa a ser um símbolo de posição social. A pessoa não quer apenas conhecer melhor a região e seus vinhos. Ela teme ser vista como alguém que ficou de fora da principal conversa do momento.

Esse ponto é especialmente relevante em mercados como o brasileiro, em que o vinho ainda é um produto caro e acessível apenas a uma parcela restrita da população. Em um contexto assim, conhecer determinadas garrafas, produtores ou denominações funciona, na cabeça de muita gente, como um sinal de ascensão cultural e social. A lógica do FOMO aparece justamente aí: o medo de não conhecer o vinho certo, de não ter provado a garrafa desejada, de não ter participado da degustação descolada ou de “ficar de fora” da tendência do momento.

Enoturismo e FOMO

Mas o FOMO no vinho não se limita às postagens de garrafas ou degustações. Ele também aparece nas experiências, e o enoturismo é um caso muito claro. Visitar vinícolas, fotografar taças diante dos vinhedos, participar de degustações ou almoçar em propriedades famosas tornou-se parte deste repertório de quem “quer pertencer”. Em regiões próximas a grandes centros urbanos, inclusive no Brasil, uma parcela significativa dos visitantes não é necessariamente composta por pessoas ligadas ao vinho. Muitas vezes, trata-se de indivíduos atraídos pela experiência, pelo cenário, pela possibilidade de produzir conteúdo e pela sensação de fazer parte de um universo percebido como sofisticado.

Isso não torna a experiência menos legítima. A curiosidade é uma porta de entrada fundamental para conhecer o mundo do vinho. Existe aqui uma nuance que pode passar despercebida por muita gente. Quando a visita à vinícola passa a ser menos sobre conhecer o lugar, entender a produção ou provar os vinhos, e mais sobre registrar a própria presença naquele ambiente, o FOMO se torna evidente. O enoturista não quer apenas estar ali. Ele tem que mostrar que esteve ali.

FOMO em prática

Um episódio recente ilustra bem esse movimento. Durante uma visita a uma vinícola em um país vizinho, encontrei uma influenciadora gravando um vídeo sobre a vinícola. A produção parecia de boa qualidade, visualmente atraente e 100% voltada para as redes sociais. Ao visitar depois a página dessa pessoa, a impressão inicial se confirmou. O vídeo cumpria dois objetivos simultaneamente. De um lado, entregava à influenciadora um conteúdo bonito, original e capaz de gerar audiência. De outro, oferecia à vinícola uma divulgação extremamente eficiente, quase como um publieditorial, sem necessariamente envolver o custo de uma campanha tradicional.

Esse tipo de dinâmica ajuda a explicar por que o FOMO se encaixa tão bem no vinho. A categoria já trabalha naturalmente com elementos como safra, origem, reputação, pequena produção, listas de espera e acesso limitado. Em muitos casos, a escassez é real. Um vinhedo único, uma safra menor ou um produtor artesanal não pode simplesmente multiplicar a produção para atender à demanda. O problema começa quando essa escassez real é transformada em ansiedade permanente. A mensagem deixa de ser “este vinho é raro” e passa a ser “se você não provar agora, ficará para trás”.

Comércio eletrônico e FOMO

E o FOMO ainda se faz presente no mundo do vinho por meio de um terceiro canal. No comércio eletrônico e nas comunicações das importadoras e de muitas lojas especializadas, esse mecanismo se evidencia com enorme clareza. Lotes limitados, alocações exclusivas, pré-listas “só para amigos”, clubes fechados, pré-vendas relâmpago e frases como “últimas garrafas” exploram diretamente o medo de perder uma oportunidade.

Em alguns casos, isso apenas informa uma limitação concreta de estoque. Porém, em outros (talvez na sua maioria atualmente), cria uma urgência artificial, empurrando o consumidor a uma compra impulsiva. O vinho, que deveria ser sinônimo de calma, paciência e convívio social, passa a ser vendido pela pressa e pela sensação de ter conseguido comprar apenas por ser mais “descolado” ou mais agressivo do que os outros.

Ficar de fora…do FOMO

Combater esse tipo de fenômeno não é simples. As redes sociais aceleraram exponencialmente a disseminação de tendências e tornaram muito mais difícil distinguir a curiosidade genuína da ansiedade de pertencimento. É natural querer conhecer novas regiões, produtores, uvas, safras, tudo em nome de novas experiências. Esse impulso faz parte do prazer de aprender sobre vinho. O risco está em transformar essa curiosidade em obrigação social.

Talvez a melhor resposta ao FOMO seja justamente recuperar uma relação mais livre com o vinho. Em vez de correr atrás apenas do que todos estão comentando, vale buscar o que ainda não entrou no radar. Em vez de perseguir apenas Borgonha, Jura, Champagne ou qualquer outra região “queridinha” do momento, vale olhar também para denominações menos badaladas, produtores menos reluzentes e estilos que não dependem da validação imediata das redes sociais.

Para quem consegue resistir à tentação de “fazer parte do grupinho”, mudar a atitude pode valer a pena. O vinho certamente será mais interessante quando deixar de se resumir a uma corrida por pertencimento e voltar a ser uma forma de descoberta. O medo de ficar de fora pode até gerar curtidas, compras e viagens. Mas a curiosidade e o conhecimento verdadeiros costumam levar mais longe.

Como eu me descrevo? Sou um amante exigente (pode chamar de chato mesmo) de vinhos, que estudo continuamente e que segue na eterna busca de vinhos que consigam exprimir, com qualidade, artesanalidade, criatividade e autenticidade, e que fujam dos modismos e das definições vazias. A recompensa é que eles existem; basta procurar!

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Foto: Alessandro Tommasi, arquivo pessoal

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