A Toscana é quase sempre associada à sua variedade principal, a Sangiovese. É natural. Esta uva é peça central das principais denominações de origem da região, como Chianti Classico, Brunello di Montalcino, Vino Nobile di Montepulciano. Porém, há outras alternativas cativantes no território toscano, inclusive com o uso de uvas originárias da França. Um dos exemplos é a Chardonnay, que ganhou espaço no portfólio de alguns produtores relevantes da região.
Um caso interessante é o Chardonnay de Isole e Olena. O vinho foi produzido pela primeira vez em 1987, após a enxertia de clones franceses de Chardonnay sobre variedades brancas já existentes na propriedade. Hoje, são quase seis hectares de vinhedos de Chardonnay em alta densidade, localizados no lado nordeste da propriedade, cercados por áreas de floresta, entre 350 e 450 metros de altitude. Os solos combinam calcário, argila margosa e xistos. Durante o período em que a enologia esteve sob a condução de Paolo de Marchi (até 2023), esta cuvée seguiu uma linha de vinificação com poucas variações. Fermentação em barricas, com uso de cerca de 25% a 30% de carvalho francês novo, e depois permanecem em longo contato com suas lias nos mesmos recipientes.
Foi um prazer participar de uma apresentação vertical de vinhos de Isole e Olena, na presença de Giampiero Bertolini, que exerce as funções de CEO da Isole e Olena e da Tenuta Biondi-Santi, ambas atualmente de propriedade do grupo francês EPI (Société Européenne de Participations Industrielles). A degustação, organizada por seu importador no Brasil, a Decanter, foi realizada em São Paulo, na Vinheria Percussi.
Chardonnay 2016, 14%
Um vinho já evoluído, sobretudo no olfativo, mas com um palato rico e sedutor, que chegou a lembrar um Rioja Blanco de alta gama. Com coloração dourada, mostrou nariz de perfil secundário e terciário, com destaque para notas de baunilha, avelã e madeira integrada. No palato, mostrou alta acidez, concentração de fruta madura, textura untuosa, marcante presença de madeira e final salino de alta intensidade.
Chardonnay 2019, 14%
Seguiu o mesmo estilo do anterior, mas com menor tensão e menor desenvolvimento terciário. Mesmo com sete anos desde sua safra, preservou fruta madura, madeira bem colocada e textura ampla, embora com menor complexidade evolutiva. De forma geral, um perfil intermediário, entre a maturidade do 2016 e a expressão mais jovem das safras seguintes.
Chardonnay 2021, 14,5%
Um vinho de uma safra especial, de estilo clássico, em contraste com uma sequência de colheitas mais quentes e secas. Aromas de frutas brancas e notas cítricas, com um palato menos untuoso do que nas safras anteriores, mas ainda com ótima densidade. Também apresentou menor presença de notas terciárias, o que reflete uma safra mais jovem e um perfil menos evoluído. Em comparação com 2016 e 2019, mostrou-se menos amplo e menos marcado pela madeira, mas com textura fina e um perfil mais contemporâneo e elegante.
Chardonnay 2023, 14,5%
Foi o vinho mais fresco e direto do painel, com notas cítricas, de frutas brancas e leve redução. No palato, mostrou corpo médio, maior tensão, fruta branca bem definida e final salino, em um registro mais vertical. Entre os vinhos degustados, foi o que mais evidenciou frescor, precisão e salinidade.
A vertical mostrou uma clara mudança de expressão ao longo das safras. O 2016 foi o vinho mais evoluído e complexo, com maior presença terciária e textura mais untuosa. O 2019 manteve o estilo, mas com uma evolução melhor. Já mostrando uma inflexão estilística, os vinhos de 2021 e 2023 criaram um novo patamar para a equipe de enologia, com maior precisão e verticalidade.