Fotos noturnas de vinhedos franceses, iluminados por tochas ou aquecedores, foram um dos destaques na internet e nas mídias sociais nos últimos dias. Embora possam parecer esteticamente muito bonitas, elas representam os esforços desesperados de viticultores tentando salvar a safra de 2021.
Por conta do aquecimento global e dos consequentes invernos mais amenos, as videiras estão brotando mais cedo, tanto na França como no restante da Europa. E, com isso, estes pequenos botos são mais frequentemente atingidos por geadas isoladas de primavera, justamente no momento quando são mais sensíveis. Nestas situações, o frio intenso congela os brotos, que não se desenvolvem mais. E foi isso que aconteceu em diversas regiões vinícolas da Europa a partir de 5 de abril.
Geada negra
Mas não foi uma geada tradicional. A geada de 2021 parece ter sido pior que o normal, como indica a forma pela qual os viticultores da Borgonha se referiram aos eventos dos últimos dias. “Esta foi definitivamente o que é conhecido como uma ‘geada negra’, ou geada de inverno, quando o ar frio torna o fenômeno mais amplo”, explicou Jasper Morris, da publicação Inside Burgundy.
Ao contrário das tradicionais ‘geadas brancas de primavera’, que afeta vinhedos individuais, Morris descreveu os três dias a partir de 5 de abril como uma “tempestade perfeita de neve, umidade e uma massa de ar gelado, que afetou toda a Borgonha”. Por conta disso, medidas preventivas como tochas, aquecedores, máquinas eólicas e irrigadores se mostraram, em grande parte, ineficazes.
Além disso, a geada do começo de abril não foi apenas uma questão regional. “Foi um fenômeno nacional”, disse Jérôme Despey, secretário-geral do sindicato agrícola FNSEA e enólogo da região de Hérault. “Você pode voltar à história, houve episódios em 1991, 1997, 2003, mas na minha opinião, a geada de 2021 pode estar além de todos eles.”
Borgonha atingida, com destaque para Chablis
Por conta deste fenômeno, as perdas serão significativas, reduzindo de forma marcante o volume da safra 2021. E o impacto será maior sobretudo em regiões mais frias, onde a massa de ar polar chegou com mais força. Um exemplo é a região de Chablis, no norte da Borgonha. Historicamente, é uma região afetada por geadas de primavera, mas o fenômeno vem se tornando mais sério, por conta da brotação prematura causada pelo aquecimento global.
E as estimativas sobre o impacto das geadas dos últimos dias parecem desanimadoras nesta região, conhecida pela qualidade de seus vinhos brancos. A geada chegou em 5 de abril, atingindo Chablis diretamente. “A geada destruiu 80% da safra, em média, com as perdas em algumas parcelas chegando a 100%”, relata Julien Brocard, da Domaine Jean-Marc Brocard, em Préhy. Mas o impacto não ficou restrito somente a esta parte da Borgonha, atingindo também outras denominações de origem.
Em toda Borgonha, os impactos financeiros são difíceis de estimar. François Labet, presidente da BIVB (associação dos produtores da Borgonha) se mostrou pessimista em uma entrevista à agência France-Presse. Em suas palavras, “podemos ter perdido mais de 50% da produção média, mas, francamente, não sabemos”. Além disso, as primeiras indicações mostram que a Chardonnay pode ter sofrido mais do que a Pinot Noir.
Beaujolais e Jura
No Beaujolais, a geada atingiu Moulin-à-Vent pela primeira vez no início da manhã de 7 de abril com temperaturas de -2°C. De acordo com Edouard Parinet, do Château du Moulin-à-Vent, as temperaturas caíram ainda mais, para -4°C em 8 de abril. No total, Parinet estima suas perdas entre 70% a 100% em suas parcelas plantadas abaixo de 250 metros. Em contrapartida, seus vinhedos mais altos tiveram perdas médias de 20% a 30%. Parinet relatou que produtores em Morgon (cerca de 5 km ao sul) teriam perdido apenas 10% a 20%.
No Jura, porém, o impacto foi mais significativo. Um anticiclone quente do sul encorajou o início do brotamento, logo seguido por um anticiclone polar do norte na noite de 5 de abril. Neve e geada continuaram em 6 de abril, juntamente com o aumento da umidade. Olivier Badoureaux, diretor da associação local de produtores, foi enfático: “A combinação desses três eventos destruiu nossas videiras. Todas as parcelas foram afetadas da mesma forma, não há diferença se mais altas ou mais baixas, se a orientação do vinhedo era norte ou sul.”
Para ele, 2021 pode superar todos os eventos anteriores de geada no Jura. “Ainda é difícil dizer por enquanto, mas uma amostra de lotes, no entanto, mostra que será provavelmente pior do que a geada de 2017, onde tivemos mais de 70% de destruição.”
Outras regiões
O impacto da geada variou bastante de acordo com a região, No Languedoc, os produtores ainda não têm um quadro claro, mas pode ter havido perdas significativas. Já em Bordeaux, o quadro parece mais positivo, com diversos produtores reportando perdas mínimas.
No Vale do Rhône, por sua vez, o presidente da associação local de produtores, Philippe Pellaton, foi pessimista. Ele relatou que 2021 será “a menor safra dos últimos 40 anos”, com perdas que podem chegar a 80% ou 90% em relação ao normal. Os produtores, nas suas palavras, estariam “despedaçados, desesperados”, com a área de Côte-Rôtie particularmente atingida.
Porém, o impacto da geada não ficou restrito somente à França. Na Itália, um relatório da Assoenologi (associação dos enólogos italianos), mostra um quadro mais ameno, porém, com algumas regiões sofrendo danos significativos. “Há áreas particularmente afetadas na Toscana e na Úmbria, mas também alguns focos na Emilia-Romagna e no Veneto, bem como muitas outras. Felizmente, não há repercussões particulares especialmente nas regiões do sul, que são aquelas com maior potencial de produção”.
Fontes: The Buyer; The Guardian; WineNews
Imagem: Mídias sociais governo da França