Margaux: alguns Deuxièmes e Troisièmes Crus

Mais do que qualquer outra commune de Médoc, Margaux conta com o maior número de Châteaux incluídos na classificação de 1855. São 21 propriedades (contra 18 em Pauillac), um dos quais Premier Cru Classé (Château Margaux), cinco Deuxièmes Crus e 10 Troisièmes Crus. Mesmo apesar da quantidade, porém, alguns especialistas na região, como Chris Kissack, não enxergam muita consistência em termos de qualidade

Para matar a curiosidade, degustamos sete vinhos desta commune. Apesar da diversidade de safras (o que dificulta uma comparação mais objetiva), nenhum dos vinhos degustados realmente fez brilhar os olhos. Quem sabe se Château Margaux, Château Palmer ou Château Rauzan-Ségla estivessem presentes…

Château Ferriere Troisième Cru 2019, 13,5%

Este pequeno Château (com cerca de 20 hectares de videiras) e de posse do grupo Lurton, foi um dos pioneiros no uso de agricultura biodinâmica em Médoc. É um corte de 70% Cabernet Sauvignon, 25% Merlot e 5% Petit Verdot, com certificações orgânica e biodinâmica, algo raro na região. Na vinificação, fermentação natural a baixa temperatura (24ºC) e extração suave, com estágio de 18 meses, dos quais 40% em barricas novos, 40% em barricas de primeiro uso e 20% em ânforas e tanques ovais.

De longe o vinho mais jovem do painel, mostrou a face “mais contemporânea” de Bordeaux, com mais tensão, frescor e menos extração. Coloração rubi de média a alta concentração, com notas de grafite, groselha, ameixa e caixa de charuto no olfativo. No palato, refletiu a ótima safra 2019, com alta acidez, corpo médio a alto, taninos finos e presentes, fruta presente e nota de cedro. Mesmo sem a estrutura e profundidade dos demais, um corte bordalês que surpreendeu pelo conjunto harmônico, equilíbrio e facilidade de beber.

Château Kirwan Troisième Cru 2000, 13%

A safra 2000 também foi considerada excelente e refletiu na qualidade deste vinho, que faz parte do portfolio do négociant Schröder & Schÿler. Corte de Cabernet Sauvignon, Merlot e Cabernet Franc, na época tendo Michel Rolland como consultor. Fermentação de 18 a 25 dias em tanques de inox, com 20 meses em barricas de carvalho, das quais 30% novas. Muita tipicidade, com coloração granada de média a alta concentração, com olfativo marcado por aromas de estrebaria, couro, fruta madura. Na boca, um corte bordalês encorpado e de alta acidez e taninos presentes e granuloso. Profundo e intenso, com certa rusticidade e frutas mais maduras.

Château d’Issan Troisième Cru 2010, 13,5%

Um vinho que fez jus à reputação deste produtor, conhecido por vinhos mais robustos e concentrados. De uma certa forma, isso chega a surpreender em uma área como Margaux, considerada como origem de tintos mais refinados. Corte de 61% Cabernet Sauvignon e 39% Merlot, com fermentação em inox e estágio em barricas de carvalho, cerca de 50% novas. Em uma safra que dividiu opiniões, mostrou coloração rubi com leve halo granada e alta concentração, com um olfativo rico e potente, com destaque para notas de café, uva passa, tostado e couro. No palato, um vinho encorpado e denso, com acidez médio alta, taninos macios e notas de fruta bem madura.

Château Lascombes Deuxième Cru 2010, 14%

Este corte de 50% Cabernet Sauvignon, 45% Merlot e 5% Petit Verdot mostrou bem o lado “quente” da safra 2010, mas, ao contrário do anterior, trouxe muito mais equilíbrio precisão. Resultado? Um dos destaques do painel. Coloração granada de média a alta concentração, com nariz intenso, marcado por aromas de frutas maduras, couro, tabaco e nota tostada. No gustativo, um vinho encorpado, com acidez média a alta, taninos granulosos e muita fruta madura e erva seca.

Chateau Lascombes Deuxième Cru 2005, 13,5%

A safra 2005, para muita gente, figura entre as melhores da década de 2000, com condições quase ideais para a maturação da uva, embora a seca tenha afetado alguns vinhedos. Neste caso, porém, corte de 52% Cabernet Sauvignon, 45% Merlot, e 3% Petit Verdot se mostrou muito mais frutado e intenso que o anterior. Visual rubi de alta concentração, com olfativo trazendo notas de cedro, frutas negras (ameixa) e ervas secas. Na boca, acidez e corpo médios, com taninos redondos e muita fruta doce. Para quem aprecia estilos mais encorpados e frutados, onde potência fica alguns degraus acima de elegância.

Château Malescot Saint Exupery Troisième Cru 2007, 13,5%

Se 2005 foi uma safra com ótima avaliação, 2007 fica quase na outra ponta, com temperaturas mais baixas e maior umidade resultando em vinhos de taninos mais verdes, porém com maior acidez. Neste contexto, não faltam críticos colocando 2007 alguns patamares abaixo de outros vinhos do mesmo produtor. Esta garrafa, porém, não decepcionou. Um corte de 50% Cabernet Sauvignon, 35% Merlot, 5% Petit Verdot e 10% Cabernet Franc de muita vitalidade e equilíbrio. Coloração granada de alta concentração, com olfativo trazendo aromas tostados, fruta negra, couro, fumo de corda e alcaçuz. Na boca, um vinho profundo e longo, com boa acidez, taninos finos, corpo médio a alto, fruta maduras e especiarias. Uma grata surpresa.

Château Kirwan Troisième Cru 1997, 13,5%

Assim com 2007, a safra 1997 também sofreu com um verão menos quente e mais chuvoso. O resultado foi também na forma de um vinho “mais clássico”, sem excessos. Neste caso, porém, não consegui encontrar a mesma estrutura de boca do anterior, de uma certa forma corroborando quem apostou em um menor potencial de evolução. Visual granada de média concentração, com notas de fruta vermelha, ameixa, couro, tostado e suor no nariz. Já no palato, boa acidez e taninos finos, um corte de 40% Cabernet Sauvignon, 30% Merlot, 20% Cabernet Franc e 10% Petit Verdot de corpo médio e menos estrutura.

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