Não só espumantes: Roederer e outros produtores da Champagne apostam em novos vinhos

A Champagne se tornou a origem dos mais conceituados espumantes do mundo por vários motivos. Os avanços tecnológicos postos em prática no passado por Dom Pérignon, combinados com a criatividade e dedicação de tantos produtores, entre eles as famosas viúvas da região, colocaram a Champagne no topo da lista das regiões produtoras de espumantes.

Mas um fator, em especial, contribuiu decisivamente para que a Champagne focasse na elaboração de espumantes: seu terroir, com especial atenção para seu clima. É uma das regiões mais setentrionais da Europa dedicada à produção de vinhos. Suas condições climáticas historicamente foram marcadas por dias frios, nublados e chuvosos, sobretudo na primavera.

Nestas condições, as uvas não atingem o ponto de maturação necessário para a produção de vinhos tranquilos, mesmo considerando que a grande maioria dos vinhedos da região é plantada com variedades nobres, como Pinot Noir e Chardonnay. Porém, por conta deste clima, elas servem perfeitamente para trazer a acidez necessária para um espumante de qualidade. Mas isso está mudando.

Aquecimento global mudando a região

Se no passado era praticamente impossível obter uvas com a maturação necessária para produzir vinhos tranquilos de alta gama na Champagne, isso não ocorre atualmente. Com o aumento das temperaturas médias, mais horas de sol e colheitas cada dia mais precoces, a Champagne entrou também no mapa dos vinhos finos.

Nos últimos anos, diversos produtores independentes ousaram vinificar suas uvas como vinhos tranquilos, com excelentes resultados. Agora, porém, são os grandes produtores da região que apostam neste novo segmento. A Louis Roederer, uma das maiores casas da região, com diversos investimentos também em outras denominações, como na Côtes de Provence, anunciou o lançamento de uma linha de vinhos tranquilos.

Homenagem à viúva Roederer

Esta semana, a Roederer anunciou dois novos vinhos tranquilos, produzidos a partir de vinhedos únicos, dentro da denominação Coteaux Champenois. A linha recebeu o nome de “Hommage à Camille“, em homenagem a Camille Roederer, a viúva que ficou à frente da vinícola entre 1932 e 1975.

São dois cuvées distintos: um branco 100% Chardonnay e um monovarietal tinto de Pinot Noir. No caso do Chardonnay, chamado de Volibarts, as uvas são provenientes de uma parcela de apenas 0,55 hectare no Grand Cru Le Mesnil-sur-Oger, usando apenas vinhas velhas e com orientação sul. Já o tinto, de nome Charmont, usa uvas do lieu-dit Mareuil-sur-Aÿ, de apena 0,43 hectare. Ambos são vinhos de pequena produção, com menos de 2.000 garrafas cada.

Nova tendência?

A iniciativa da Roederer, porém, não é pioneira na região, mesmo dentre as grandes maisons da Champagne.  A Charles Heidsieck já vem comercializando vinhos tranquilos sob a denominação Coteaux Champenois há alguns anos, com foco em vinhos brancos. E novidades devem surgir também de outros produtores, como Deutz. Seu CEO, Fabrice Rosset, discutiu este assunto em entrevista exclusiva para a WineFun.

Assim, é bem provável que esta tendência se espalhe rapidamente, por conta de diversos fatores. Após anos de temperaturas recordes, a expectativa é que o aquecimento global siga acelerando nas próximas décadas, colocando as uvas da Champagne na faixa ideal para a produção de vinhos tranquilos.

Além disso, o mercado parece estar cada dia mais disposto a buscar alternativas de vinhos elaborados a partir de vinhedos de alta qualidade. E não há falta deles na Champagne, são 17 vinhedos Gran Cru, como Le Mesnil-sur-Oger, Ay, Verzenay ou Oger. Por fim, o impacto da crise da COVID-19 foi mais sentido na Champagne do que em qualquer outra região vinícola europeia, criando incentivos para que as vinícolas busquem uma maior diversificação nas suas linhas de vinhos.

Fontes: Louis Roederer; Decanter

Imagens: Louis Roederer

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