Os novos vinhos do Languedoc-Roussilon

Maior região produtora de vinhos na França, o Languedoc-Roussillon produz isoladamente mais vinhos do que toda a Austrália. Tradicionalmente a região foi marcada pelo alto volume, preços acessíveis e qualidade “duvidosa”. Os outros países que me perdoem, mas quando o assunto é vinho, a França é imbatível. Bordeaux e Bourgogne são as principais referências de vinhos tintos. Quando o assunto é espumante, nada se compara com Champagne. A Chardonnay, a principal uva branca, tem na Bourgogne sua melhor expressão. E nesse cenário, qual o papel que ocupa o Languedoc-Roussillon?

Uma longa tradição de alto volume e baixo preço

O início da produção de vinhos remonta à ocupação romana no século I dC. Aliás, a Via Domita, estrada que partia de Roma e cruzava o que hoje é o território francês até chegar na Península Ibérica, passava pelo Languedoc. Até hoje há trechos preservados e que podem ser visitados. Porém, a distância e ausência de meios eficientes de transportes para os grandes mercados consumidores limitaram os vinhos da região ao mercado local, pequeno e com renda limitada.

No século XIX o cultivo de vinhedos cresceu, não para a produção de vinhos de qualidade, mas para a elaboração de brandy. No início do século XX, no pós-filoxera, com o crescimento do transporte via trem, a região ampliou a produção e passou a responder por 50% do volume de vinhos produzido na França.

Foto: Acervo pessoal

Porém, até a década de 1980, a quase totalidade dos vinhos era a granel, produzidos por cooperativa. O caso da vinícola Prieuré de Saint Jean de Bébien ilustra muito bem isso. Com registros de produção desde 1152, o primeiro vinho tinto engarrafado só aconteceu em meados da década de 1970. Nesse post no Instagram, após uma visita ao produtor, há mais detalhes sobre esse caso.

A nova dinâmica da produção de vinhos

Apesar de ainda continuar produzindo um alto volume de “vinhos acessíveis”, nos últimos 20 anos mudanças importantes aconteceram e passaram despertar a atenção da crítica especializada, de sommeliers e enófilos. Podemos relacionar os seguintes fatores para justificar o novo cenário:

  • O aumento exponencial no preço das terras nas regiões vinícolas mais badaladas atraiu novos produtores para as áreas mais nobres do Languedoc-Roussillon. Importante mencionar que, apesar da pouca tradição de produzir qualidade, as condições naturais da região são altamente favoráveis para a viticultura, especialmente nas encostas de determinadas áreas. O afluxo de novos produtores imprimiu um grande dinamismo na região;
  • A ausência de regras rígidas, aliadas ao preço baixo das terras, atraiu e continua atraindo uma série de produtores das mais diferentes origens;
  • Grandes produtores estabelecidos em regiões tradicionais (Lafite e Chapoutier, por exemplo), novas gerações de famílias tradicionais, sem espaço nos negócios familiares e profissionais do vinho dispostos a empreender num ambiente aberto para a inovação;
  • A região oferece uma série de oportunidades associadas às tendências do mercado de vinho, tais como: vocação natural para produção de vinhos de baixa intervenção, incluindo os orgânicos e biodinâmicos;
  • Em 2015, cerca de 90% do volume da região se dava em cooperativas. Dados mais recentes, de 2021, indicam que esse índice caiu para 65%. Apesar das cooperativas estarem investindo em qualidade, a vocação desse tipo de produção é inegavelmente o alto volume.

Denominações para ficar de olho

Numa região com 50 AOCs e 19 IGP’s e que produz 1,5 bilhão de garrafas usando mais de 100 variedades de uvas, diversidade é o nome do jogo. A seguir, algumas denominações específicas que vale a pena conhecer:

Collioure/Banyuls – ponto extremo da costa mediterrânea da França, fronteira com a Espanha, essa região é mais conhecida pelo seu famoso vinho fortificado, da Banylus AOC. Porém, o consumo desse estilo vem caindo drasticamente e a região vem se destacando pelos seus tintos que são rotulados como Collioure AOC. Com vinhas velhas de Grenache e Carignan, há quem veja semelhança desses vinhos do Priorat.

Limoux AOC – terra onde o espumante foi “descoberto”, esse estilo representa 90% da produção. Porém, o que vem despertando atenção são os brancos, produzidos com Chardonnay e Chenin Blanc. A Pinot Noir, apesar da baixíssima produção, vem encantando por onde passa.

Picpoul de Pinet – De longe, é o maior sucesso comercial do Languedoc-Roussillon nos últimos 20 anos, especialmente no mercado inglês. Um branco de acidez vibrante e aromático que é posicionado com preço bastante competitivo, com uma relação de preço vs qualidade bastante interessante.

Vinhedo em Terrasses du Lazarc – fotos do acervo pessoal

Terrasses du Larzac – talvez a área mais fascinante da região. Conseguiu recentemente a aprovação de sua AOC num prazo incrivelmente ágil para os padrões da região. Terroir único, com ampla disponibilidade de vinhas velhas. Abriga os mais renomados produtores do Languedoc, conjugando tradição e modernidade. Diversidade é o nome do jogo. Impossível definir um estilo único.

Produtores de destaque

Languedoc: Mas de Daumas Gassac, Mas Jullien, Prieuré de St Jean de Bébian, Clos Centeilles, Domaine Gayda, Domaine de l’Hortus, Domaine de Cébène, Mas Bruguière e Clos du Serres.

Roussillon: Domaine Modat, Domaine Lafage, Domaine des Soulanes, Clos des Fées e Roc des Anges.

Renato Nahas é um grande apreciador de vinhos que adora se aprofundar no tema. Concluiu as certificações de Bourgogne Master Level da WSG, e também de Bordeaux ML.  É formador com homologação pelo Consejo Regulador de Jerez e Italian Wine Specialist – IWS e Spanish Wine Specialist – SWS. Sommelier formado pela ABS-SP, possui também as seguintes certificações: WSET3, FWS e CWS, este último pela Society Wine Educators.

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Foto da capa: Renato Nahas, arquivo pessoal

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