A região de Champagne, onde são produzidos os melhores espumantes na opinião da maioria dos apreciadores de vinhos, vem passando por uma verdadeira montanha russa nos últimos meses. De um lado, 2020 foi um ano com condições de safra quase perfeitas, garantindo vinhos de excelente qualidade. Já do lado comercial, por sua vez, 2020 foi um desastre, com as vendas de espumantes despencando por conta do impacto da COVID-19.
E como vem sendo 2021 para a região de Champagne? Contrariando o ocorrido no ano passado, as vendas de Champagne registraram um forte crescimento no primeiro semestre, subindo 50% em relação ao mesmo período do ano passado. Por outro lado, a safra 2021 parece muito complicada, com a combinação entre geada na primavera e forte chuva no verão podendo derrubar a produção em até 50%.
Safras opostas
De um lado, 2020, com uma safra de alta qualidade. Só não foi perfeita pela questão da quantidade. A produção de uvas somente não atingiu patamares recordes por conta das decisões tomadas pelo Comité Champagne (CIVC), que determinou um corte na produção para fazer frente à dramática queda nas vendas decorrente da crise da COVID-19. Mas a qualidade parece indiscutível. Um exemplo da qualidade da safra foi a decisão da Deutz de lançar todas as suas cuvées distintas, inclusive as mais exclusivas, algo que somente ocorre no que a própria Maison descreve como “safras excepcionais”.
Já o ano de 2021 vem trazendo grandes dores de cabeça do ponto de vista de produção. Se o corte de produção em 2020 foi uma decisão dos produtores, este ano foi a natureza que deu as cartas. Após as dramáticas geadas do início de abril, as últimas semanas vêm sendo marcadas por fortes chuvas, não somente na região, mas também em outras partes da Europa (as enchentes na Alemanha são um exemplo).
E, por conta das chuvas e da unidade resultante nos vinhedos, a produção deve sofrer um corte severo por conta da infestação das parreiras pelo míldio, uma praga que ataca de forma intensa os vinhedos. A combinação dos dois fenômenos meteorológicos pode derrubar, nas palavras do vice-presidente do Comité Champagne, a produção. Maxime Toubar estima que até metade da safra de 2021 possa ter sido perdida após as geadas severas da primavera e os recentes surtos de míldio.
Forte flutuação nas vendas
O ano de 2020 pode ser descrito como catastrófico do ponto de vista comercial para a Champagne. O volume de vendas atingiu € 4,2 bilhões (excluindo os impostos cobrados sobre Champagne), o que representou uma redução de 16,7% em relação a 2019. Na França, o volume de negócios foi de € 1,6 bilhão (-17,9%), enquanto as exportações movimentaram € 2,6 bilhões (-15,9%). Em termos de volume, as vendas de Champanhe fecharam o ano passado em 244 milhões de garrafas, queda de 17,9% em relação a 2019.
Já em 2021, o quadro é totalmente distinto. No primeiro semestre deste ano, as vendas ficaram cerca de 14% acima do recorde semestral histórico, que havia sido registrado em 2018. Em relação ao ano passado, o aumento de vendas foi superior a 50%, impactado pela recuperação da economia e do consumo de espumantes por conta do menor impacto da COVID-19.
Se no ano passado os estoques subiram, mesmo com o corte de produção, a situação deve ser diferente em 2021. Vendas em alta e produção em forte queda devem garantir uma redução nos estoques, possivelmente não afetando as condições de preços. Isso poderia ocorrer, caso 2020 não tivesse sido um ano tão complicado do ponto de vista comercial. Assim, mesmo com dois anos tão extremos, parece que a natureza parece escrever certo por linhas tortas.
Fontes: CIVC; Vinex; Champagne Deutz
Imagem: IFree-Photos via Pixabay