Qual foi a tendência de consumo de vinho nos últimos 50 anos no mundo? E no Brasil?

Quais são as tendências no consumo de vinho no mundo? De forma geral, o que se vê em boa parte do nosso planeta é uma tendência de menor consumo de bebidas alcóolicas entre as camadas mais jovens da população. E isso, gradualmente, acaba reduzindo o consumo médio de bebidas alcóolicas per capita.

No caso do vinho, porém, existem dois fenômenos adicionais ocorrendo em paralelo. E isso tem a ver com o perfil de cada país, sobretudo no caso dele ser historicamente um país produtor. Uma forma de acompanhar esta tendência é analisar os dados sobre consumo per capita de álcool por país, divulgados pela OMS (Organização Mundial da Saúde)

Fonte consistente de dados

Os dados da OMS cobrem um amplo período e trazem um alto nível de detalhamento. Eles segmentam o consumo de bebidas alcóolicas em diversas categorias, como destilados, cervejas e vinhos. E é nessa categoria que vamos focar, usando os últimos dados disponíveis, que se referem a 2018 ou 2019, dependendo do país, e traçando uma comparação com 1971, exatamente 50 anos atrás.

A OMS divulga seus dados considerando o consumo de álcool puro, ou seja, leva em conta a diferença para o conteúdo de álcool de cada bebida. Por exemplo, não faz sentido comparar diretamente o consumo de um litro de uísque, vinho ou cerveja, que têm graduações alcóolicas muito diferentes. A metodologia da OMS leva isso em conta, mas requer um ajuste para o cálculo do consumo de cada tipo de bebida. Para o caso do vinho, a OMS assume uma graduação alcóolica média de 12 graus.

Produtores versus não produtores

O que se nota na análise do padrão de consumo de vinho nos últimos anos são dois padrões distintos, dependendo do fato do país ter sido um grande produtor e consumidor per capita de vinho no passado ou não. Itália, Portugal e França são três exemplos interessantes, onde o consumo per capita despencou em 50 anos.

Apesar de ainda serem atualmente os três maiores consumidores per capita de vinho do mundo, estes países viram seu consumo per capita cair entre 57% em Portugal e 69% na Itália nos últimos cinquenta anos. Neste último, segundo os dados da OMS, o dado de 2018 consumo mostrava 42,3 litros per capita por ano, contra 137 litros em 1971. Esta queda reflete a mudança de padrão dos consumidores italianos, além de fatores como menor parcela de habitantes no campo.

De outro lado, ficam países que não são grandes produtores de vinho. Nestes locais, o vinho não fazia parte da tradição de consumo de bebidas alcóolicas, mas cresceu rapidamente por conta da maior globalização dos hábitos de consumo. Por exemplo, no Reino Unido, o consumo per capita de vinho aumentou 575% no mesmo período, passando de 4,25 litros por ano em 1971 para 28,7 litros em 2019. Outros exemplos são Noruega (+478%), Canadá (+286%) e Japão (+733%).

E nos países mais pobres?

Nos países mais ricos, o vinho passou a ser um artigo de consumo mais elitizado. De um lado, como visto acima, resultou em um rápido aumento nos países onde o hábito de consumo era incipiente e, de outro, em uma queda naqueles onde a produção era maior e o vinho um item mais popular. Mas e nos países mais pobres, o que aconteceu.

De uma certa forma, o que se viu foi uma repetição do fenômeno visto nos países ricos, porém, com quedas de maior intensidade no caso dos produtores e aumentos mais brandos naqueles não produtores. A Argentina e o Chile são dois exemplos, com quedas no consumo per capita de 80% e 70%, respectivamente. Já países de pouca tradição no vinho, como México e Perú, por exemplo, o consumo per capita cresceu, respectivamente, 37% e 87%.

Mercado brasileiro

E o Brasil? Apesar do consumo per capita no Brasil ser pequeno, ele caiu ainda mais nos últimos 50 anos. Se em 1971 o brasileiro consumia, em média, 3,83 litros de vinho, o último dado da OMS mostra apenas 2,20 litros por ano. Na comparação relativa, o quadro também é desanimador. Nosso consumo per capita foi ultrapassado por um grande número de países nos últimos 50 anos.

Isso faz do Brasil um país de pouca relevância no mundo do vinho, com exceção de alguns mercados exportadores, como Chile, Argentina e Portugal. Quando analisamos os destinos de exportação dos maiores produtores de vinho do mundo, apenas nos três países acima o Brasil aparece com algum destaque. Mesmo a produção nacional, sobretudo quando considerando o mercado de vinhos finos, tem muito a crescer.

Resta saber agora se o recente cenário favorável para o vinho no Brasil, que marcou 2020, vai continuar. Se o país viu um importante aumento no consumo per capita durante a pandemia, uma coisa é clara: ainda existe muita margem para melhora, até mesmo para retomar o espaço perdido nas últimas décadas.

Fonte: Organização Mundial da Saúde

Imagem: Mathilde Langevin via Unsplash

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