Riesling de solos distintos: comparando dois vinhos da safra 2020

Riesling é uma variedade que reflete muito bem o terroir dos vinhedos onde é plantada. Com o objetivo de identificar o impacto de solos diferentes, nada melhor do que uma degustação comparativa, na qual o máximo possível de outras variáveis tenha um perfil homogêneo. Neste caso, são dois vinhos de vinícolas-irmãs (pertencem ao mesmo casal), da mesma safra, da mesma região (Rheinhessen) e do mesmo enólogo. Será que o solo tem tanto impacto assim?  

Riesling Réserve vom Kalkstein Treasure Collection 2020, Battenfeld-Spanier, 12,5%

Este vinho, classificado como Gutswein assim como o seguinte, provém de uvas de cultivo orgânico, cultivadas nas encostas do Wonnegau, nas áreas de Hohen-Sülzen e Zellertal, em Rheinhessen. Os vinhedos contam com solos calcários, conhecidos localmente como Kalkstein. Na vinificação, após a colheita manual, fermentação natural com estágio com suas lias em barris de 2.400 litros, até a colheita do ano seguinte. Após engarrafamento, as garrafas foram mantidas em adegas subterrâneas por cerca de quatro anos, até o lançamento como Treasure Collection.

No visual, apresentou coloração amarelo-brilhante, quase dourada, com olfativo expressivo. Destaque os aromas de frutas de caroço amarelas maduras (pêssego e damasco), toque lácteo (iogurte de pêssego), flores secas e algo de frutas tropicais (papaia), além de leve oxidativo. O palato mostrou alta acidez, corpo médio, com textura definida por notas fenólicas e alguma oxidação. Mostrou a tensão da Riesling, mas envolvida por uma presença intensa de fruta mais madura, com final longo e mais salino e um discreto amargor que lembrou madeira.

Riesling Réserve vom Rotliegenden Treasure Collection 2020, Kühling-Gillot 12%

O Riesling Réserve vom Rotliegenden Treasure Collection 2020 teve origem em uvas de agricultura orgânica, provenientes do Roter Hang, uma das zonas mais emblemáticas de Rheinhessen. Os vinhedos estão plantados em solos de Rotliegendes, uma espécie de ardósia vermelha rica em óxido de ferro. Vinificação e condições de armazenamento exatamente iguais às do vinho anterior.

Visual de coloração amarela-palha, com um halo ligeiramente verdeal. O nariz trouxe aromas cítricos, de fruta branca (pêssego branco e maçã), erva-doce, benzina e toque defumado. No gustativo, o que se espera de um Gutswein de cinco anos, no ponto de consumo ideal. Com alta acidez e corpo médio, apresentou muita tensão e verticalidade, com presença balanceada de frutas brancas, textura cremosa, final longo e levemente defumado.

Perfis distintos

Dois vinhos muito diferentes. De um lado, o Vom Rotliegenden apresentou um perfil muito mais elegante, fresco e vertical, sem renunciar à complexidade. Já o Vom Kalkstein trouxe muito mais fruta e um perfil oxidativo, com textura menos refinada e maior salinidade. Curiosamente, os dois têm exatamente o mesmo nível de acidez total (7,5 g/l) e de açúcar residual (3,5 g/l), mas apresentam expressões diferentes de frescor e tensão. Resta saber se o perfil mais oxidativo do Vom Kalkstein não decorre de alguma condição específica desta garrafa. Caso contrário, não teria qualquer dúvida em apontar o Vom Rotliegenden como a melhor opção tanto para consumo atual quanto para os próximos anos.

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