Teor alcóolico dos vinhos segue em alta com aquecimento global: quais as regiões mais afetadas?

Quem consome vinhos há alguns anos certamente notou um fenômeno: o aumento da graduação alcóolica dos vinhos nas últimas décadas. Porém, se a análise anteriormente era mais restrita a experiências pessoais, com rótulos selecionados, agora existem dados muito mais amplos para evidenciar esta tendência.

E isso é possível graças à Liv-ex, um dos mais importantes market places de vinhos finos do mundo, que divulgou os dados referentes a mais de 35.000 rótulos diferentes de vinho. Os dados mostram claramente uma tendência de vinhos tintos de maior graduação alcóolica nas últimas três décadas. E isso aconteceu ao menos em regiões selecionadas, como Bordeaux, Borgonha, Toscana, Piemonte e Califórnia.

Aquecimento global e medidas compensatórias

Sem dúvida alguma, o aquecimento global é o principal responsável por esta tendência. Temperaturas mais altas e climas mais secos contribuem para a elevação na quantidade de açúcar nas uvas e, consequentemente, de álcool nos vinhos. Além da mudança no perfil dos vinhos produzidos nas principais regiões vinícolas do mundo, isso abre espaço para novas variedades ou mesmo novas regiões.

Vale lembrar, porém, que os números não levam em conta potenciais medidas limitadoras do teor alcóolico que podem ser realizadas pelos produtores. Exemplos são a antecipação das colheitas ou uso de técnicas como spinning cones ou osmose reversa para reduzir o grau de álcool dos vinhos. Sem estas medidas compensatórias, possivelmente o aumento teria sido ainda maior.   

Maior aumento em Bordeaux e na Califórnia

Bordeaux talvez seja o exemplo mais simbólico desta mudança. Se na década entre 1990 e 1999 o grau médio de álcool de seus vinhos tintos era de 12,8%, ele explodiu para 13,5% na primeira década deste século e para 13,7% no período entre 2010 e 2019. Isso corresponde a quase um grau a mais na média, mesmo apesar da desaceleração registrada nos últimos anos.

Um aumento similar foi registrado com os vinhos da Califórnia, a mais quente entre todas as regiões analisadas. Vale lembrar que sua região produtora mais prestigiada, o Napa Valley, fica na altura do paralelo 38. Isso a coloca em linha com a Andaluzia, a Sicília e a Grécia. De uma média de 13,5% na década de 1990, a graduação atingiu 14,5% na década seguinte, para um leve recuo para 14,4% nos dez anos até 2019.

Itália e Borgonha

Embora não tão significativo como nas regiões acima, houve aumento do teor alcóolico também em regiões como Piemonte, Toscana e Borgonha. No caso da região mais conhecida pelos seus vinhos elaborados a partir da Nebbiolo, como Barolo e Barbaresco, o álcool médio passou de 13,9% para 14,4% e leve recuo para 14,3% no mesmo intervalo de tempo.

Na Toscana, a tendência foi próxima, com a média de 13,7% dos anos noventa subindo para 14,1% na década seguinte e 14,2% no período entre 2010 e 2019. Por fim, foi na Borgonha que os menores aumentos foram registrados. O teor alcóolico médio dos Pinot Noir da região passou de 13,1% nos últimos dez anos do século passado para uma estabilidade em cerca de 13,3% nos últimos vinte anos.

No entanto, um fator deve ser levado em conta: existe um grau de erro nos rótulos, já que existe uma margem, que varia entre regiões. A União Europeia permite uma margem de tolerância de 0,5%, enquanto os EUA permitem uma margem de 1% para vinhos acima de 14%, ou de 1,5% para vinhos de teor alcoólico menor. Assim, considerando a mudança nas preferências dos consumidores nos últimos anos, na direção de vinhos mais leves, é possível que os níveis atuais de álcool sejam ainda mais altos do que os rótulos sugerem.

Fonte: Liv-Ex; WineNews

Imagem: Kerstin Riemer via Pixabay

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