Não são poucas as cidades de médio a grande porte europeias que ainda têm vinhedos em suas áreas urbanas. Cidades importantes como Paris, Milão, Veneza ou Turim contam com pequenas parcelas com videiras, mantendo tradições antigas, porém sem representatividade comercial. Viena, todavia, é diferente. A capital da Áustria dispõe de quase 600 hectares de vinhedos em sua região metropolitana, além de abrigar uma denominação de origem singular.
Por séculos o vinho teve um papel importante na cidade que abrigou gênios como Freud, Schubert, Klimt, Mahler, Haydn, Mozart ou Schiele. Este legado se mantém até hoje, com vinhedos espalhados por colinas nos subúrbios da cidade, parte deles plantados com uma típica tradição vienense: Gemischter Satz. Assim como no passado, são vinhedos plantados com diversas variedades, de colheita simultânea e que dão origem a vinhos elegantes e sedutores.

História
A história do vinho em Viena está intimamente ligada à trajetória da cidade. Celtas, ilírios e romanos produziam vinho onde hoje fica a maior cidade da Áustria. As primeiras evidências escritas, porém, datam do século XII. Quando a dinastia Babenberg mudou a sede de seu ducado para Viena em 1170, a viticultura na nova capital passou por um boom. Os cidadãos de Viena podem possuir vinhedos, que passaram a ocupar amplas áreas dos distritos centrais da cidade.
Em paralelo, os monges cistercienses também chegaram à região no século XII, fundando em 1133 a Abadia Heiligenkreuz, perto de Viena. Com técnicas trazidas da Borgonha, os monges melhoraram drasticamente a qualidade da viticultura e da vinificação. Hoje, Heiligenkreuz é o mais antigo mosteiro cisterciense continuamente ocupado no mundo.
Além da produção, Viena era famosa na Idade Média pelo que poderia ser chamado, em linguagem atual, de winebars. Em 1327, o Seitzerkeller foi estabelecido em Dorotheergasse, no distrito central de Viena. Este estabelecimento (Trinkstube em alemão) permitia ao proprietário servir vinhos produzidos a partir de seus próprios vinhedos. O conceito rapidamente se tornou popular, e logo a cidade tinha mais de sessenta Trinkstuben.
Decadência e ressurgimento
Por conta das contínuas ameaças de invasão otomana no século XVII, a viticultura perdeu espaço em Viena e só mostrou recuperação após as guerras napoleônicas, com os investimentos dos Habsburgos. Em 1860 era fundado Klosterneuburg, o primeiro instituto e centro de pesquisa dedicado à viticultura e vinificação, estabelecido perto de Viena. Porém, poucos anos depois, um novo choque: a chegada da filoxera, que levou à destruição de pelo menos 25% dos vinhedos austríacos.
Embora a tradição dos vinhedos de Áustria, em especial o Gemischter Satz, tenha sido mantida, um novo impulso veio somente em 2013. Foi quando houve a aprovação da Wiener Gemischter Satz DAC, elevando estes vinhedos ao status de denominação de origem controlada. Com isso, a vinicultura em Viena começou um novo capítulo, aliando a tradição de vinhas co-plantadas de um lado, com a manutenção de vinhedos dedicados a uvas como Grüner Veltliner, Riesling, Pinot Blanc e Zweigelt, entres outras.
Área de vinhedos e produção
No total, Viena conta com cerca de 580 hectares de vinhedos, dos quais 40%, ou pouco mais de 225 hectares, plantados como Gemischter Satz. As regras da Wiener Gemischter Satz DAC estipulam que pelo menos três castas brancas devem ser co-plantadas em vinhedos, sempre na área de Viena. A proporção máxima de qualquer casta não deve exceder 50%, enquanto a terceira maior deve representar pelo menos 10% do field blend. Estas uvas devem ser colhidas e fermentadas juntas.
Caso não haja cumprimento destas regras, os vinhos não podem incluir a expressão Wiener Gemischter Satz DAC em seus rótulos, mas podem trazer menção à região, sendo rotulados como Wien. Nestes casos, são comuns os monovarietais, elaborados sobretudo de variedades brancas. Além dos Gemischter Satz, Viena conta com extensas áreas plantadas com Grüner Veltliner (94 hectares), Riesling (46 ha), Pinot Blanc (26 ha), Chardonnay (25 ha), além das tintas Zweigelt (32 ha) e Pinot Noir (19 ha). Outras 32 variedades também marcam presença nestes vinhedos.
Em 2022, a produção de vinhos na área de Viena atingiu 21,5 mil hectolitros, o que corresponde a cerca de 2,9 milhões de garrafas. Isso equivaleu a pouco mais de 1% da produção total de vinhos Qualitästwein da Áustria.
Pirâmide de qualidade
Assim como em diversas outras regiões vitivinícolas da Áustria, a denominação Wiener Gemischter Satz também dispõe de um sistema de classificação de seus vinhos A partir da safra 2013, seus vinhos se dividem em três categorias: Gebietsweine (vinhos regionais), Ortsweine (vinhos de determinada sub-região) e Riedenweine, vinhos com uvas originárias e referência a um Ried, ou vinhedo específico.

No caso dos vinhos Orstweine, existem sete indicações geográficas distintas. Elas correspondem a diferentes localidades nos subúrbios de Viena: Nußberg, Grinzing, Sievering, Neustift, Maurerberg ou Mauer, Oberlaa e Bisamberg ou Bisamberg-Stammersdorf. Cada uma delas apresenta características próprias de terroir, incluindo diferentes composições de solo.
Diferentes terroirs
A área de Bisamberg, situada a norte do Danúbio e de Döbling, Dornbach e Ottakring, do outro lado do rio, mostram solos combinando arenito, margas, calcário e areia. São condições favoráveis para as variedades Pinot Noir, Riesling, Grüner Veltliner, Chardonnay e Pinot Blanc. As áreas de Heiligenstadt, Nußberg, Grinzing, Sievering e Neustift, por sua vez, mostram maior proporção de calcário.

As vinhas em Stammersdorf, Hungerberg e Oberlaa situam-se nos terraços do antigo Danúbio. Estes terraços contam com extensa presença de cascalhos com uma camada superior argilosa e um substrato composto principalmente de cascalho e sedimentos arenosos, conhecidos localmente como Tegel.
Produtores e vinhos
No total, são mais de 130 produtores distintos atuando na área de Viena, mas um pequeno grupo chama a atenção, pelo tamanho e pelos seus esforços de preservação do patrimônio vitivinícola local. Criado em 2006, o grupo WienWein faz um trocadilho com o nome da cidade em alemão (Wien) e a palavra vinho no mesmo idioma (Wein), reunindo seis produtores. São eles: Weingut Christ (da área de Jedlersdorf), Weingut Cobenzl (Grinzing), Weingut Edlmoser (Mauer), Weingut Mayer am Pfarrplatz (Heiligenstadt), Weingut Wieninger (Stammersdorf) e Fuhrgassl-Huber (Neustift am Walde). Este grupo controla cerca de 260 hectares de vinhedos.
Além do sistema de classificação em três degraus (Gebietsweine, Ortsweine e Riedenweine) os produtores da WienWein também adotam um segundo critério de avaliação. Diversos vinhedos têm classificação da Österreich Traditionsweingüter, grupo que reúne quase 80 produtores tradicionais de toda a Áustria. Doze vinhedos da área de Viena receberam classificação ÖTW Erste Lagen, que equivale a um Premier Cru. São cinco Ried em Nußberg (Ulm, Gollin, Rosengartel, Preussen e Langteufel), três em Grinzing (Steinberg, Seidenhaus e Schenkenberg), dois em Bisamberg (Falkenberg e Wiesthalen) e dois em Mauerberg (Satzen e Himmel).
Refletindo o fato de 94% dos vinhedos terem plantio de variedades brancas, os vinhos brancos são as grandes estrelas da região de Viena. Além da tipicidade e frescor dos vinhos de Gemischter Satz, vale a pena também conhecer outros cortes e monovarietais, sobretudo de uvas como Grüner Veltliner, Riesling e Pinot Blanc.
Fontes: Austrian Wines, Legislação da Wiener Gemitscher Satz DAC, Austrian Wine Statistics Report,; World Atlas of Wine, Hugh Johnson, City of Vienna
Mapas: Austrian Wines
Imagem: Ried Kadolzberg, Mauer, Wien (Vienna) © Austrian Wine / WSNA