Você sabe o que é um vinho clarete? Conheça sua história e definições

O que é um vinho clarete? De um lado, este termo tem uso muitas vezes ligado a vinhos tintos mais leves, algo entre um rosé e um vinho tinto mais concentrado e estruturado. De outro, existe uma associação direta com a região francesa de Bordeaux. Um dos grandes centros da vinicultura mundial, esta área é conhecida, sobretudo, pelos seus vinhos tintos encorpados e longevos, com foco em uvas como Cabernet Sauvignon, Merlot e Cabernet Franc.

Existe alguma forma de conciliar estas duas narrativas aparentemente dissociadas? Sim, mas para isso é necessário voltar vários séculos na história. O foco muda para dois países que muito contribuíram para o contexto atual da vinicultura mundial: França e Inglaterra. Mas este termo não tem uso somente nestes dois países, já que Portugal também tem uma definição própria para clarete, que vale a pena ser descrita em maiores detalhes.

Um casamento real muda a história do vinho

Em 1152, Leonor de Aquitânia casou-se com Henrique Plantagenet, que se tornou rei Henrique II da Inglaterra em 1154. Este casamento colocou a região da Aquitânia, que incluía Bordeaux, sob controle inglês. Por quase 300 anos, Bordeaux e suas regiões vinícolas fizeram parte dos territórios da Coroa inglesa. Embora existisse uma pequena área dedicada à produção de vinhos na própria Inglaterra, rapidamente os vinhedos na Aquitânia se tornaram o principal fornecedor de vinhos para os ingleses.

Para se ter uma ideia, somente para o casamento do rei Eduardo III, em 1307, os ingleses teriam trazido mais de mil tonéis de vinhos da França. Isso equivale a cerca de um 1,1 milhão de garrafas. Já nesta época, o vinho proveniente dos territórios ingleses na França era chamado de claret, referência a uma palavra originária do francês. O adjetivo clairet descreve a algo de tonalidade ou consistência leve, onde a transparência assume papel central. No caso do vinho, se refere a um tinto leve, com baixa concentração de cor.

Bordeaux com vinhos leves e quase transparentes?

Mas o que vinhos leves e com pouca cor têm a ver com Bordeaux, ao menos do que conhecemos dos vinhos atualmente produzidos nesta região? A resposta é simples: os vinhos na época do domínio inglês eram completamente diferentes dos atuais, não somente em termos de estilo, mas também no que diz respeito à área de produção. O que conhecemos com Bordeaux atual representa um longo processo que começou somente após a expulsão dos ingleses em 1453.

Boa parte da área da margem esquerda do Médoc, fonte dos mais importantes Bordeaux de hoje, era tomada por pântanos na época dos ingleses. Foi somente com a participação dos holandeses a partir do final do século XVI que esta região foi drenada, assumindo a geografia que conhecemos atualmente. Porém, não foi somente a área de produção que mudou, mas também o estilo.

A partir do século XVIII, Arnaud de Pontac, proprietário do Château Haut-Brion, lançou um novo estilo para os vinhos de Bordeaux. Ele teve a ideia de produzir um vinho mais encorpado e de coloração  mais intensa, para competir com os vinhos da Espanha. E seus vinhos rapidamente atingiram sucesso na Inglaterra, que passou a chamar vinhos neste estilo como “novo clarete francês”.

A força do hábito e o Bordeaux Clairet

Para muitos ingleses, claret ainda se refere aos vinhos de Bordeaux, embora com um certo “saudosimo” por vinhos mais elegantes e menos encorpados. É importante ressaltar que o estilo de Bordeaux sofreu uma nova transformação (agora parcialmente revertida) para vinhos mais intensos, concentrados e alcóolicos no final do século passado, por conta de personagens como Robert Parker e Michel Rolland.

Já para Bordeaux, esta “inconsistência” entre os clairets do passado e o estilo atual da grande maioria de seus vinhos tintos abriu espaço para uma oportunidade.  Em toda a área da denominação de origem Bordeaux, os produtores podem optar pelo uso da expressão Bordeaux Clairet. São vinhos que buscam replicar o estilo do passado, algo entre um tinto e um rosé. Eles podem usar qualquer das uvas tintas permitidas em Bordeaux, porém com foco principal na Merlot.

Clarete e palhete

Outro país que teve sua história na vinicultura ligada com a Inglaterra (é só pensar em vinho do Porto e Madeira) é Portugal.  E a expressão clarete em Portugal ganha um significado muito próximo àquele adotado pelos ingleses no passado. Ou seja, um vinho tinto claro, entre um rosé e o vinho tinto mais encorpado. No caso de Portugal, existe, inclusive, uma definição legal para clarete: “menção prevista para vinho tinto, pouco colorido, com um título alcoométrico volúmico adquirido não superior em 2,5% vol. ao limite mínimo legalmente fixado”, ou seja, em torno dos 11,5%”

Esta definição leva muitas vezes a alguma confusão com outro termo usado pelos portugueses: palhete. Neste caso, porém, existe a opção também de inclusão de uvas brancas, desde que maceradas com suas cascas. Segundo a lei: “menção prevista para vinho tinto, obtido da curtimenta parcial de uvas tintas ou da curtimenta conjunta de uvas tintas e brancas, não podendo as uvas brancas ultrapassarem 15% do total.

Fontes: A História do Vinho, Hugh Johnson; Vins de Bordeaux; La Revue du Vin de France; Decanter; Revista de Vinhos

Imagem: Dirk Wohlrabe via Pixabay

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