Descubra a austríaca Kamptal e seus vinhos de alta gama

Last Updated on 28 de fevereiro de 2025 by Wine Fun

Vinhos e montanhas têm alguma ligação? A Áustria é um país conhecido pelo seu cenário montanhoso, sobretudo na região dos Alpes. Porém, suas montanhas mais antigas ficam ao norte do Danúbio, mais especificamente no Maciço da Boêmia, uma das áreas geologicamente mais ancestrais da Europa. É nesta parte da Áustria que fica a região de Kamptal, área que recebe atenção pela qualidade de seus vinhos, resultante, em parte, do seu perfil de seus solos.

Qualidade é um importante diferencial dos vinhos da região de Kamptal. Tanto que, em uma comparação usando montanhas como referência, chegou a ser chamada por alguns críticos de K2, uma “homenagem” à icônica montanha do Himalaia. Se o K2 perde apenas para o Everest em altura, Kamptal ficaria somente atrás de Wachau quando o assunto é qualidade de vinhos austríacos. Vale a pena conhecer mais de perto esta fascinante região.

A localização da Kamptal DAC

Localização e terroir

Assim como Wachau, Kamptal faz parte da região de Niederösterreich, berço de grande parte dos vinhos de alta qualidade da Áustria. Localizada ao redor de Langenlois, maior centro vinícola da Áustria, a cerca de 65 quilômetros a noroeste de Viena, Kamptal recebe seu nome em homenagem ao rio Kamp. Este pequeno rio não tem a grandiosa escala do Danúbio, que cruza regiões como Wachau e Kremstal, mas ainda assim desempenha um importante papel nos vinhedos de Kamptal.

É uma região de importantes contrastes. Diferentes formações geológicas estão presentes em Kamptal, incluindo solos de loess e intrusões cristalinas, assim como o arenito vermelho e as rochas conglomeradas da famosa colina de Heiligenstein. Esta variedade de solos forma uma espécie de colcha de retalhos geológica que se estende por toda a região. São testemunhas da existência anterior de mares e vulcões, o deslocamento de rios e da poeira de rocha soprada durante as eras glaciais. Não surpreende, portanto, que os vinhos do Kamptal – influenciados por diferenças de orientação, elevação e solos – exibam características muito distintas.

Os vinhedos da Kamptal DAC

Em termos de clima, é uma zona de encontro entre duas influências diferentes. De um lado, os ventos quentes da Panônia, a leste, e, do outro, a influência do frio que vem do Waldviertel, a noroeste. Kamptal mostra uma significativa amplitude térmica, com marcante contraste entre o calor do dia e as temperaturas noturnas substancialmente mais baixas.

História

A vinicultura em Kamptal compartilha parte de sua história com outras áreas de Niederösterreich, como Wachau. Há evidências de cultivo de videiras antes mesmo da chegada dos romanos, porém, por se situar além da área de fronteira do Império Romano (o rio Danúbio) não há registros de vinhedos específicos antes da Idade Média. A partir desta época, porém, a influência das ordens religiosas sobre a vinicultura também foi marcante em Kamptal.

Por muito tempo, mais especificamente até 1993, as regiões vinícolas de Kamptal e Kremstal eram uma só. Porém, um maior dinamismo e identidade mais bem definida foram vistos a partir da década de 2000, após a maciça reestruturação do vinho austríaco decorrente do escândalo de 1985. A criação do sistema nacional de DAC (Districtus Austriae Controllatus) em 2003 foi o passo inicial, com Kamptal se tornando uma DAC a partir da safra 2008.

A pirâmide de qualidade

Assim como outras DAC austríacas, Kamptal adota um sistema de classificação de seus vinhos de acordo com sua origem, que lembra o sistema da Borgonha. Desde a safra 2016, a base da pirâmide é a categoria Gebietswein, que corresponde, em uma comparação com a Borgonha, com os vinhos regionais. São vinhos que não trazem menção em seus rótulos a vilarejos ou vinhedos específicos.

A pirâmide de qualidade em Kamptal

A segunda categoria é chamada de Ortswein e traz referência em seus rótulos a um vilarejo específico. A escolha de uvas é mais restrita que a categoria anterior, mas ainda assim bastante ampla. Já o topo da pirâmide conta com os Riedenwein, vinhos com uvas originárias e referência a um Ried, ou vinhedo específico. Assim como nas demais categorias, somente existe permissão de uvas de colheita manual, porém não pode haver chaptalização. Somente Grüner Veltliner e Riesling são permitidas.

Área, uvas e produção

A região de Kamptal conta com cerca de 3.600 hectares de vinhedos dedicados à produção de vinhos Qualitätswein, com três variedades em destaque. A Grüner Veltliner ocupa cerca de 55% dos vinhedos (1.985 hectares), sendo a principal protagonista, seguida pela tinta Zweigelt (458 hectares, ou 13%) e a branca Riesling (362 hectares, 10%). Outras uvas com áreas relevantes de vinhedos são Müller Thurgau, Chardonnay (chamada localmente de Morillon), Pinot Blanc (Weisser Burgunder) e Muskateller.

A produção total de Kamptal foi de 147 mil hectolitros de vinho em 2022, o que corresponde a cerca de 19,5 milhões de garrafas. Em termos relativos, isso respondeu por 8,4% da produção de vinhos Qualitätswein da Áustria, ou 11,3% do volume produzido na região de Niederösterreich. Isso garante à Kamptal a segunda posição em termos de produção em Niederösterreich, somente atrás de Weinviertel, em um patamar de volume produzido mais que duas vezes maior do que Wachau.

Vinhos, vinhedos e produtores

A região de Kamptal produz uma grande variedade de vinhos distintos, porém, somente aqueles elaborados a partir da Riesling e da Grüner Veltliner podem ser engarrafados como Kamptal DAC. Mesmo entre estes, em termos de estilo, há muita variação. Na parte norte da denominação de origem, as vinhas têm plantio em solos de gneiss e xisto do Maciço da Boêmia ou nos arenitos de Heiligenstein, dando origem a vinhos de maior tensão e mineralidade. Já na parte sul, os solos de loess prevalecem, com vinhos mais encorpados e especiados, sobretudo no caso da Grüner Veltliner.

Poucos contestam que o vinhedo de maior prestígio de Kamptal é o Heiligenstein, situado no vilarejo de Zöbing. Porém, está longe de ser o único. Como parte da iniciativa da ÖTW (Österreichische Traditionsweingüter), Kamptal tem um sistema adicional de classificação de seus Riedenwein, de acordo com a qualidade dos vinhedos. Em uma classificação similar ao Premier Cru da Borgonha, são 22 vinhedos classificados como Erste Lage. Além de Heiligenstein, são eles: Dechant, Gaisberg (Kammern), Gaisberg (Strass), Gaisberg (Zöbing), Grub, Heiligenstein-Steinwand, Heligenstein-Rotfels, Käfferberg, Kittmannsberg, Kogelberg, Lamm, Loiserberg, Offenberg, Renner, Schenkenbichl, Seeberg, Spiegel, Stein, Steinhaus, Steinmassl e Wechselberg.

Kamptal concentra uma grande quantidade de produtores de alta gama, com destaque para nomes como Bründlmayer, Loimer, Hirsch, Hiedler e Jurtschitsch. Outras vinícolas que vale a pena conhecer são Allram, Brandl, Dolle, Ludwig Ehn, Eichinger, Leindl, Schloss Gobelsburg, Steininger, Topf e Weszeli.

Fontes: Austrian Wines; Kamptal DAC; Wein Plus; Austrian Wine Statistics Report, World Atlas of Wine, Hugh Johnson

Mapas: Austrian Wines

Imagem: Ried Heiligenstein, im Hintergrund Zöbing, Kamptal, Niederösterreich© Austrian Wine / WSNA

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