Conheça mais sobre o míldio, ameaça constante à saúde das videiras

Muita gente já ouviu falar da filoxera. Esta praga, causada por um pulgão, trouxe enorme destruição nos vinhedos europeus a partir do início da segunda metade do século XIX. Apesar de causar estragos até hoje, atualmente não é a maior preocupação da maioria dos viticultores, que já adaptaram seus vinhedos com o uso de porta-enxertos de variedades americanas. Quem ainda causa estragos significativos ao redor do mundo, porém, é o míldio.

Curiosamente, o míldio, um dos maiores vilões atuais na viticultura, tem relação com a filoxera. Foi por conta da importação de videiras de espécies de uvas americanas, resistentes à filoxera e que passaram a ser usadas como porta-enxertos para as variedades da Vitis vinifera, que o míldio chegou à Europa na década de 1870. Também de origem americana, assim como o pulgão Daktulosphaira vitifoliae, os fungos do gênero Plasmopara (sobretudo o Plamorara vitícola) invadiu a Europa. A partir daí, subsequentemente chegou a uma boa parte do mundo.

Qual seu impacto

O míldio, chamado de downy mildew em inglês, mildiou em francês e peronospora em italiano, é uma doença com alto poder de destruição. Ela afeta videiras em todas as áreas de cultivo de uvas do mundo onde as temperaturas superam os 20ºC durante a primavera e verão. Uma condição adicional em algumas regiões inclui chuvas de pelo menos 10 mm em um período de 24 horas, o que causa uma maior umidade nas plantas e no solo.

Folha afetada pelo míldio

A combinação entre temperaturas mais altas e chuvas intensas (criando um ambiente úmido) favorece o seu aparecimento e dispersão. Por conta disso, os períodos de maior risco para os viticultores são primaveras quentes e verões com altos volumes pluviométricos, sobretudo se as chuvas forem contínuas por vários dias ou semanas.

A doença afeta todas as partes verdes da videira, especialmente folhas jovens e flores. Em casos graves, resulta na queda prematura das folhas, reduzindo o rendimento e o teor de açúcar de frutas e expondo os cachos restantes à queimadura solar. A perda total das uvas pode ocorrer, caso a infecção grave não for controlada, especialmente perto da floração. A queda severa de folhas também pode causar perda de rendimento na temporada seguinte, devido à incapacidade da videira de armazenar reservas.

Sintomas e abrangência

O Plasmopara viticola é um fungo parasita que absorve seus nutrientes a partir dos tecidos da videira. O primeiro sinal da doença é a presença de manchas foliares (chamadas de mancha de azeite) translúcidas e, posteriormente, também na forma de manchas brancas na parte inferior das folhas e cachos em períodos de alta umidade.

Todas as variedades da Vitis vinifera são suscetíveis ao míldio. Porém, uvas como Chardonnay ou Pinot Noir são mais sensíveis que Cabernet Sauvignon e Semillon, por exemplo. Por outro lado, várias espécies norte-americanas mostram resistência (por exemplo, V. labrusca e V. rotundifolia), enquanto variedades híbridas mostram boa resistência à doença.

Solução rápida

A chegada do míldio à Europa causou uma onda inicial de pânico, mas uma solução paliativa surgiu já a partir de 1885. Foi quando P.M.A. Millardet usou pela primeira vez a mistura de Bordeaux ou calda bordalesa (composta por sulfato de cobre e cal) para controlar a doença. Com isso, iniciou a era de controle químico de doenças nos vinhedos.

Reza a lenda que Millardet observou que algumas videiras próximas às estradas pareciam menos afetadas pela doença. Ao perguntar aos agricultores se algo diferente era feito com elas, obteve uma resposta surpreendente. Com o objetivo de amargar as uvas e evitar o seu consumo pelos transeuntes, os viticultores aplicavam uma solução. Esta, após aperfeiçoamento, deu origem à calda bordalesa.

Prevenção e outras soluções

Embora permitida pelos preceitos dos regimes de cultivo orgânico e biodinâmico, a calda bordalesa traz também desvantagens e riscos aos vinhedos. O principal é a acumulação de metais pesados (sobretudo cobre) no solo, o que pode afetar o desenvolvimento da atividade microbiana no longo prazo.  Além disso, a aplicação da calda bordalesa é uma medida preventiva, de preferência em conjunto com outras soluções.

Por conta disso, existem outras medidas que podem dificultar o desenvolvimento do míldio. De um lado, há quem aplique fungicidas sintéticos, prática caindo em desuso por conta de seu impacto nocivo sobre o meio ambiente. Uma alternativa mais sustentável é melhorar a ventilação das videiras, como, por exemplo, com o plantio em colunas. O intuito é que os padrões naturais de movimento do ar ajudem a reduzir a umidade nas folhas, gerando condições menos propícias para o desenvolvimento dos fungos.

Fontes:  The American Phytopathological Society (APS); Europe as a bridgehead in the worldwide invasion history of grapevine downy mildew, Plasmopara viticola, Fontaine et al; Department of Primary Industries and Regional Development’s Agriculture and Food of Western Australia; WSET® Level 4 Diploma in Wines, D1: Wine production

Imagens: Department of Primary Industries and Regional Development’s Agriculture and Food of Western Australia

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