Last Updated on 16 de setembro de 2024 by Wine Fun
Os vinhos do Vale do Loire frequentam as taças de apreciadores ao redor do mundo, sobretudo aqueles de denominações de origem muito renomadas, como Chinon, Vouvray, Sancerre ou Muscadet Sèvre et Maine, entre outras. Porém, existem também regiões pouco conhecidas para o grande público que, até por isso, ainda oferecem uma excelente relação custo-benefício.
Dentre elas, vale destacar três denominações de origem que se situam em um bloco ao norte do rio Loire, distante cerca de 50 quilômetros de Tours. As denominações Coteaux du Loir, Jasnières e Coteaux du Vendômois ficam nas margens do rio Loir (sem o “e” mesmo, é um outro rio, que desagua no Sarthe e, posteriormente, no Loire). E delas, aquela menos explorada é Coteaux du Vendômois, com longa tradição na viticultura e vinhos de diversas uvas e estilos.

Longa história
Acredita-se que a viticultura remonte à época galo-romana na região da atual denominação Coteaux du Vendômois. Porém, os primeiros documentos relativos à viticultura datam do século XI, na forma de uma escritura de doação. Já havia videiras onde hoje fica Villedieu-le-Château, na época sede de um monastério. Deste modo, os monges da Abadia de La Trinité em Vendôme, fundada em 1035, teriam desempenhado papel chave no desenvolvimento local da viticultura local
Henrique IV, que reinou a França em meados do século XVI, seria consumidor dos vinhos locais, atestando a reputação dos vinhos do Vendômois. Neste contexto, a vinicultura na região seguiu em franca evolução, ao menos até a segunda metade do século XIX. Jules Guyot visitou a área e a descreveu em detalhes na sua obra Étude des Vignobles de France, publicada em 1876. Os vinhedos continham tanto uvas brancas como tintas, com destaque para a Chenin Blanc (na época chamada de Pineau de la Loire), ao lado de pequenas áreas de Sémillon e Sauvignon Blanc.
Guyot registrou também a presença de Auvernat Noir (um antigo sinônimo de Pinot Noir) e Meunier (presumivelmente Pinot Meunier). Porém, expressou sua admiração pela Pineau d’Aunis, que é uva tinta que hoje domina a região. Em seu apogeu, havia 4.000 hectares de vinhedos ao longo das margens do Loir, mas depois que a filoxera chegou à região em 1876, isso mudou de forma significativa.
Lenta recuperação e denominação de origem
A filoxera devastou os vinhedos da região. Uma recuperação mais sustentável começou somente em 1914, mas ainda de forma tímida. A maioria dos vinhedos não foi replantada e aumentou a proporção de plantios de Chenin Blanc e Pineau d’Aunis. Ao contrário das vizinhas Jasnières e Coteaux du Loir, porém, os produtores do Vendômois optaram por não buscar a criação de uma denominação de origem.
Focados mais em vinhos a granel, receberam a classificação Vin Délimité de Qualité Supérieure (VDQS) apenas em 1968. Foi somente através dos esforços de um pequeno grupo de vinhateiros que, mais de 20 anos depois, em novembro de 2000, foi apresentado um pedido para elevar a classificação para denominação de origem. A assinatura se deu em maio de 2001, sendo 2000 a primeira safra elegível.
A denominação de origem Coteaux du Vendômois cobre atualmente 27 communes, espalhadas pelas margens do Rio Loir. Em 2019, a denominação de origem contava com uma área total de 321 hectares, dos quais cerca de 87 deles estavam plantados com vinhedos. A produção foi de 2.471 hectolitros, o que corresponde a aproximadamente 330 mil garrafas ao ano. A título de comparação, este volume fica próximo à produção de Cour-Cheverny, ou, por outro lado, a apenas 2% do que foi produzido no mesmo período em Vouvray.

Variedades permitidas
Embora relativamente pequena, esta denominação de origem permite o uso de seis variedades distintas: Chenin Blanc e Pineau d’Aunis (uvas primárias), além de Chardonnay, Cabernet Franc, Pinot Noir e Gamay (secundárias). Em 2019, os vinhos rosé (chamados localmente de vin gris) responderam por 39% da produção, contra 35% dos tintos e 26% dos brancos. Há permissão para elaboração apenas de vinhos tranquilos.
Os rosés são necessariamente monovarietais de Pineau d’Aunis. São elaborados através do método de prensa direta, enquanto os brancos devem ter ao menos 80% de Chenin Blanc, com o restante de Chardonnay. Já para os tintos, há permissão apenas para blends, nos quais a Pineau d’Aunis deve responder por ao menos 50%. Ela deve ser complementada por Cabernet Franc (entre 10% e 40%), Pinot Noir (entre 10% e 40%) e Gamay (máximo de 20%).
Vale lembrar que, mesmo com uma relativa flexibilidade de uvas e regras de produção, uma parte significativa dos vinhedos dentro da área da denominação de origem dá origem a vinhos classificados como IGP ou Vin de France. Estima-se que em 2019 havia cerca de 220 hectares dedicados sobretudo a vinhos desta categoria, boa parte dos quais onde Cabernet Franc e Pinot Noir eram protagonistas.
Os vinhos locais
Talvez os vinhos mais conhecidos da Coteaux du Vendômois sejam os rosés. Os vins gris evidenciam a qualidade que a Pineau d’Aunis consegue atingir nestes vinhedos de climas frios e extremos, uma das fronteiras norte da viticultura francesa. São vinhos diretos e verticais, com as notas picantes e de especiarias típicas desta variedade.
Até por seu desenvolvimento mais recente, porém, escolher vinhos de Coteaux du Vendômois exige uma atenção especial. Chris Kissack (também conhecido como Wine Doctor), um dos maiores especialistas nos vinhos do Loire, adota uma postura cautelosa. “Embora eu tenha encontrado exemplos bastante impressionantes de Chenin Blanc e Pineau d’Aunis em Coteaux du Loir e Jasnières, experiências semelhantes em Coteaux du Vendômois são menos frequentes”. Vale a pena, deste modo, concentrar vinhos somente nos melhores produtores para começar a explorar a região.
Principais produtores
Apesar de ter uma área relativamente extensa de videiras plantada de videiras, o número de produtores trabalhando nesta denominação é pequeno. Poucos obtiveram maior projeção, especialmente em comparação com as denominações Coteaux du Loir e Jasnières. Há pouco mais de 20 produtores ativos, boa parte dos quais envia uvas para a cooperativa local, a Les Vignerons du Vendômois. Fundada em 1929, atualmente é responsável pela vinificação de aproximadamente metade da produção local.
Porém isso parece estar gradualmente mudando, com o aumento na parcela de produtores independentes. Dentre os vinicultores baseados em Coteaux du Vendômois, os principais destaques são Domaine de Montrieux, Jean & Benoît Brazilier, Domaine du Four à Chaux, Domaine Jean Martellière e Domaine Patrice Colin, cujos vinhos chegam ao Brasil.
Fontes: Loire Master Level Study Manual, Wine Scholar Guild; The Wine Doctor; Cahier des Charges de L’appellation d’origine Coteaux du Vendômois; Loire Valley Wine Economic Report, Vins de Loire – appelation Coteaux du Vendômois
Imagem: Seraphin M, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons
Mapas: Vins du Val de Loire