A viticultura apresenta diversos desafios para quem se dedica a esta atividade, muitos dos quais decorrentes de pestes e doenças. Porém, também existem riscos decorrentes exclusivamente das condições climáticas, que podem causar irregularidades fisiológicas nas uvas, impactando tanto o volume da produção quanto a qualidade do vinho. E uma das mais comuns, sobretudo em regiões mais frias, é a coulure.
Este problema surge quando condições climáticas desfavoráveis se apresentam durante o período de floração das videiras. Mesmo em condições normais, apenas uma parte das flores da videira chega a se transformar em bagas. A taxa média de vingamento (transformação de flores em bagas) varia entre 20% e 60%, sendo mais comum entre 30% e 50%. Ou seja, mesmo em safras equilibradas, já se espera que uma parcela significativa das flores não evolua para uvas.
Contudo, quando ocorre a coulure, essa proporção de flores perdidas aumenta de forma dramática. Em situações moderadas, o vingamento pode cair para 10% a 20%, e, em casos severos, para menos de 10%, resultando em cachos muito esparsos ou até mesmo em perda quase total da produção.
O que é e quais suas causas
A coulure, conhecida em português como ‘corrimento’, é uma anomalia fisiológica que ocorre na fase de floração e de vingamento da videira. Assim como o millerandage, a coulure está associada a condições adversas durante a polinização e o desenvolvimento inicial das bagas, mas o mecanismo e os efeitos finais de cada uma destas irregularidades fisiológicas diferem. No caso da coulure, trata-se da queda de flores que não se transformam em bagas, o que reduz significativamente o rendimento.
O desequilíbrio nos níveis de carboidratos da planta é a principal causa da coulure. Isso ocorre quando a videira enfrenta baixas taxas de fotossíntese, devido a tempo frio, nublado ou chuvoso, ou ainda por excesso de vigor vegetativo, que desvia os açúcares para o crescimento dos ramos. Devido a estas condições, a quantidade de açúcares disponível para sustentar o vingamento é insuficiente. Sem energia para se desenvolver, muitas flores abortam antes de formar as bagas. Deficiências nutricionais, especialmente de nitrogênio e boro, também podem agravar o problema.
Consequências
O resultado imediato da coulure é a redução do número de bagas no cacho. Enquanto na millerandage algumas flores chegam a formar pequenas bagas sem sementes, na coulure a flor cai totalmente, não gerando nenhuma baga. Assim, os cachos ficam mais soltos, com espaços visíveis entre as bagas. A intensidade do fenômeno depende das condições climáticas durante a floração e da sensibilidade varietal.
Quando falamos de vinhos, a coulure apresenta um duplo efeito. Do ponto de vista quantitativo, o efeito é sempre negativo, pois a perda de flores diminui o rendimento de forma significativa, o que pode representar um desafio econômico para o produtor. Já do ponto de vista da qualidade do vinho, o impacto da coulure dependerá das condições climáticas no verão.
Em anos em que a redução da produção ocorre em condições de verão quente e ensolarado, os cachos mais soltos podem favorecer a concentração de compostos fenólicos, resultando em vinhos mais densos e estruturados. Em contrapartida, quando a coulure ocorre em verões frios e chuvosos, a perda de rendimento não é compensada pela concentração, podendo resultar em vinhos mais diluídos e desequilibrados.
Variedades mais sensíveis e regiões mais atingidas
Nem todas as variedades são igualmente suscetíveis à coulure. Entre as mais sensíveis estão Grenache, Malbec, Merlot e Ugni Blanc, todas conhecidas pela forte dependência das condições climáticas na floração. Já variedades como Cabernet Sauvignon e Syrah tendem a apresentar maior estabilidade, mesmo em condições climáticas adversas.
A coulure é especialmente comum em regiões francesas, como Bordeaux (afetando a Merlot) e o Rhône (afetando a Grenache). Também é relatada em áreas da Espanha, com Grenache, e na Argentina, em vinhedos de Malbec. Em locais úmidos e frios durante a floração (a Borgonha é um exemplo), a incidência do fenômeno tende a ser mais elevada.
Fontes: The Science of Grapevines: Anatomy and Physiology, Markus Keller; Wine Science: Principles and Applications, R. S. Jackson; Tratado de Viticultura General, José Hidalgo Togores; Compendium of International Methods of Analysis of Wines and Musts, OIV; Wine Dictionary
Imagem: WinePros