Degustando Bourgogne Rouge da safra 2020

A safra 2020 foi quente, seca e precoce na Borgonha. Porém, isso não impediu a elaboração de vinhos que conseguiram manter um bom perfil de acidez, contando com uma boa presença de fruta. Para avaliar, nada melhor do que provar vinhos elaborados em parte diferentes da Côte d’Or, neste caso, da denominação de origem Bourgogne. Foram oito Bougogne Rouge de produtores diversos.

Bourgogne Pinot Noir 2020, Jean-Marie Fourrier 13%

Jean-Marie Fourrier dispensa apresentações. Este vinho teve elaboração combinando videiras próprias mais jovens com uvas de terceiros, provenientes de diversas parcelas ao redor da Côte de Nuits. Uvas 100% desengaçadas e estágio de 12 meses em carvalho francês, com cerca 20% de barricas novas, sem filtração ou colagem. Um vinho que agrada pelo equilíbrio e qualidade de fruta. Coloração rubi de média intensidade, com olfativo intenso. Destaque para aromas abundantes de frutas vermelhas (cereja, framboesa), com notas de menta, ervas verdes (colheita precoce?) e chá preto. Palato de boa acidez, corpo médio, com certa untuosidade, densidade e taninos finos e bem presentes. Lembrou mais um Village, um Pinot Noir fresco e com fruta abundante também na boca, repetindo o toque de chá no retrogosto. Clarets, R$ 460.

Bourgogne Pinot Noir 2020, Rene Bouvier 12,5%

Sediada em Gevrey-Chambertin, a Domaine Rene Bouvier usa uvas de diversas parcelas em Marsannay, Gevrey-Chambertin, Brochon e Fixin para esta cuvée, com idade média de cerca de 40 anos. Dependendo da safra, opta pelo uso de cerca de 50% de cachos inteiros, com estágio de seis meses em foudres de 80 hectolitros.  Um estilo completamente distinto do anterior: mais leve, fresco e vertical. Coloração rubi de média a baixa concentração, com olfativo marcado por frutas vermelhas frescas, ervas verdes (lembrando engaço) e um toque de pitanga. Delicioso e refrescante, com alta acidez, taninos mais verdes e muita vivacidade. Clarets, R$ 370.

Bourgogne Les Verduns 2020, Chantal Lescure 14%

Esta foi uma das últimas safras sob comando de François Chavériat, uma vez que esta vinícola sediada em Nuits-Saint-Georges foi adquirida no início de 2023 pela Domaine Armand Rousseau. Uvas de cultivo orgânico certificado provenientes de uma parcela de 0,26 hectare e vinhas de 40 anos, próxima a Pommard Vignots. 100% de cachos inteiros, com uso exclusivo de leveduras indígenas e maceração delicada, com 14 meses de estágio em tonneaux usados de 500 litros. Confesso que esperava algo mais deste vinho, até por experiências passadas. Coloração rubi de média concentração, com olfativo marcado por aromas de fruta negras e vermelhas, com toque terroso. No palato, trouxe boa acidez, corpo médio, taninos arenosos e boa densidade, repetindo as notas frutadas e terrosas do olfativo. Tanyno, R$ 280.

Éclat de Calcaire Bourgogne Pinot Noir 2020, Pierre Giradin 13,5%

Pierre Girardin é um dos destaques da nova geração de produtores da Borgonha, adotando um estilo de vinhos intensos e refinados. Um Bourgogne Rouge que usa uvas provenientes de Volnay e Pommard, com cultivo orgânico. Fermentação natural e estágio de nove meses em barricas (cerca de 30% novas) e seis meses em tanques de inox. Um vinho elegante e de muita vivacidade, combinado boa estrutura e textura sedosa. Visual de coloração rubi média, com olfativo sedutor. Destaque para os aromas florais e de frutas vermelhas (cereja e framboesa) e negras, com toque de cedro. Palato bastante complexo para um Bourgogne regional, com alta acidez, corpo médio e taninos sedosos. Se mostrou um Pinot Noir elegante, denso e de longa persistência, com fruta fresca, leve mentolado aportando frescor e toque de madeira. Deve ganhar com mais alguns anos em garrafa. Elevage, R$ 435.

Bourgogne Rouge 2020, Armand Heitz 13%

Armand Heitz herdou parte dos vinhedos da família e a partir de 2011 deu sequência ao trabalho da Domaine Heitz-Lochardet. Cultiva seus vinhedos de forma orgânica (não certificada), com uso de alguns princípios biodinâmicos. Este vinho teve origem em parcelas em Meursault e Pommard, plantadas entre 1967 a 2018, com uso de cerca de 50% de cachos inteiros. O vinho ficou cerca de oito meses em barricas usadas.  Alerta de drinkability! Um vinho de muita tensão e fácil de beber, no qual o frescor ganha um papel de destaque. Coloração rubi de média concentração, com olfativo menos exuberante, marcado por aromas de ervas verdes (engaço), frutas vermelhas, pitanga, notas florais e acerola, com leve brett.  No palato, alta acidez, corpo médio, taninos finos e leves, com muita fruta fresca e picante. Uva Vinhos, R$ 250.

Bourgogne Pinot Noir Côte d’Or 2020, Laroze de Drouhin 13,5%

Laroze de Drouhin é o braço micro-négociant da Drouhin-Laroze, vinícola que não tem ligação direta com o négociant Joseph Drouhin. As uvas, de cultivo sustentável, provêm de parcelas localizadas em Gevrey-Chambertin e Morey Saint Denis. Dependendo da safra, há uso de 20% a 30% de cachos inteiros, com estágio de 18 meses em barricas de segundo uso. Um vinho que mostrou boa estrutura, mas pecou pelo excesso de madeira, talvez algo que o tempo resolva. Visual rubi de média concentração, com nariz trazendo notas de cereja e cedro. No gustativo, mostrou alta acidez, corpo médio e taninos finos, um Pinot Noir intenso e profundo para um regional, mas com madeira em demasia. Clarets, R$ 300.

Bourgogne Pinot Noir 2020, Hudelot Noellat 13%

Sediada em Vosne-Romanée, a Hudelot Noellat usa uvas de cultivo orgânico não certificado provenientes de 18 parcelas logo abaixo de Chambolle-Musigny para elaborar seu Bourgogne Rouge. Vinificação com leveduras indígenas e 16 meses de estágio em barricas de carvalho usado, sem filtração antes do engarrafamento. Este certamente foi a maior decepção do painel, sobretudo considerando a reputação do produtor e local de origem das uvas. Coloração rubi, com aromas de frutas vermelhas maduras e ervas mediterrâneas. O palato não trouxe a tensão necessária (cabe bem a expressão em inglês flabby), com acidez média, taninos finos, corpo médio e fruta madura. Clarets, R$ 460.

Bourgogne Pinot Noir 2020, Paul Pillot 13,5%

Paul Pillot é um produtor que preza pela elegância. Este vinho provém de vinhedos orgânicos não certificados, boa parte de vinhas velhas (idade média em torno de 40 anos) em Chassagne-Montrachet e Santenay. Na vinificação, uso de 30% de uvas com cachos inteiros, com fermentação usando somente leveduras indígenas. O vinho passou por 12 meses em barris de carvalho usados e tanques de inox e foi engarrafado sem filtração ou colagem. Um vinho elegante, aristocrático e delicioso, parte do grupo de três principais destaques desta degustação. Coloração rubi de média concentração, com olfativo marcado por aromas florais (violeta), frutas vermelhas e negras. Na boca, trouxe alta acidez, corpo médio, taninos finos e textura sedosa. Um vinho denso e envolvente, com muita fruta fresca. Clarets, R$ 370.

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