Dolcetto: conheça uma das três principais uvas do Piemonte

O ano de 1990 foi agitado na Itália. Embora tenha sediado a Copa do Mundo com o objetivo de buscar seu tetracampeonato mundial, a seleção italiana decepcionou. Perdeu para a Argentina (que já havia derrubado o Brasil) na semifinal e teve que se contentar com o terceiro lugar, deixando um gosto amargo para seus torcedores. A solução para muitos italianos, inclusive os piemonteses, foi afogar as mágoas no vinho.

Neste mesmo ano, a área plantada da variedade que tinha maior preço entre as principais uvas do Piemonte atingia mais de 10 mil hectares, com forte concentração na área de Langhe. Porém, isso mudou de forma impressionante desde então. Se hoje pensar na uva mais cara usada para os vinhos do Piemonte remete imediatamente à Nebbiolo, em 1990 no cenário era diferente. Foi somente a partir de 1993 que a Nebbiolo derrubou a Dolcetto do topo do pódio em termos de preço.

Esta variedade de longa tradição hoje não consegue mais competir com a Nebbiolo tanto em termos de prestígio como preço, mas segue presente nos vinhedos do Piemonte. Mesmo denominações de origem como Barolo e Barbaresco, muitos produtores não abrem mão da Dolcetto. Ela é a parte da vinicultura local e segue dando origem a vinhos de alta qualidade e muita personalidade. Não existe Langhe sem Dolcetto.

Longa trajetória

Uma das regiões historicamente associadas á Dolcetto é Dogliani, que fica ao sul de Barolo. Há registros de viticultura em grande escala nesta área já em 1369, quando o vinho servia de espécie de “moeda de troca” para pagar impostos e evitar a servidão e o serviço militar. Apesar das suspeitas de que se tratasse da Dolcetto, não há evidência concreta, algo que, todavia, mudou pouco mais de 200 anos depois.

Um documento oficial da comune de Dogliani, datado de 1593, deixava claro que a uva, na época chamada de Dossetto, poderia ser usada no pagamento de impostos. Embora não existam estatísticas precisas sobre a área de vinhedos, a percepção era que fosse bastante popular nos séculos seguintes. Gallesio, em sua obra Pomona (1817-1839), coloca a Dolcetto como “talvez a uva mais difundida no norte da Itália”. Ela daria origem a “um vinho colorido, pronto para beber e saudável”

Porém, gradualmente a Dolcetto foi perdendo espaço, sobretudo após a chegada da filoxera. Por conta de sua produtividade e vigor, a Barbera ganhou presença, embora a Dolcetto tenha permanecido importante, especialmente em áreas como Dogliani e Diano d’Alba. Outro marco temporal relevante foi 1990, por conta de uma safra excepcional que favoreceu a Nebbiolo, historicamente uma variedade de cultivo mais difícil. Desde então, a área plantada da Dolcetto, hoje custando bem menos que a Nebbiolo, mostra consistente retração.

Origem genética e nome

Embora exista pouca dúvida de que a Dolcetto seja originária do Piemonte ou da Ligúria, sua origem genética por muito tempo foi um mistério.  Havia suspeitas de que a Dolcetto fosse a mesma variedade que a Douce Noir, presente na região francesa de Savoie e conhecida como Charbono na Califórnia. Análises moleculares conduzidas pela Universidade da Califórnia, porém, mostraram que essas são variedades diferentes. A suposta semelhança com a Zinfandel também foi negada pela análise do perfil de DNA.

Porém, pesquisas de um grupo de cientistas italianos, divulgadas em 2020, parecem ter encontrado fortes evidências da árvore genealógica da Dolcetto. Ela seria resultante do cruzamento natural entre a Dolcetto Bianco e Moissan, duas variedades hoje praticamente extintas. A primeira é uma variedade branca com presença no passado no sul do Piemonte e na Ligúria, e a segunda, também branca, tem um histórico de cultivo mais concentrado no norte do Piemonte. Este perfil parece reforçar a região de Dogliani, que fica entre as duas áreas citadas, como ponto de encontro e de origem da Dolcetto.

Já em relação ao seu nome, não parece haver dúvidas, por conta de uma de suas características mais marcantes. É uma uva de colheita mais precoce que as demais da região. Em geral, está madura duas semanas antes da Barbera e até um mês antes da Nebbiolo. Por conta de um perfil mais maduro e com mais açúcares na comparação com as demais uvas da região (decorrentes de seu ciclo mais curto), traz mais doçura (dolce significa doce em italiano).

Características

É uma variedade que mostra cachos de tamanho médio, de formato piramidal alado bastante longo (18-20 cm). Seus grãos são de tamanho médio, forma redonda, pele grossa e coloração escura, preto-azulada. Tem uma polpa suculenta e, quando madura, sabor muito doce, simples e saboroso, com suco incolor. Por conta das cascas escuras e grossas, tem altas quantidades de antocianinas, que requerem apenas um curto tempo de maceração com a pele para produzir um vinho de cor escura. E, como o tempo de contato com a casca afeta não só a coloração mas também os níveis de tanino no vinho, a maioria dos enólogos prefere adotar macerações mais curtas.

Além de ter um ciclo curto e maturação precoce, é uma variedade de médio vigor, com produtividade elevada e constante ao longo dos anos. Por conta de sua boa resistência e adaptabilidade a diferentes perfis de solos (exceto aqueles com alta proporção de calcário) e diversas condições de orientação dos vinhedos, geralmente acaba ocupando áreas de vinhedos com condições menos favoráveis e maiores altitudes. Um ponto interessante é que no momento da colheita os grãos facilmente se separam dos cachos, o que exige cuidados especiais. Além de suscetibilidade à clorose em solos calcários, também tem baixa resistência à flavescência dourada.

Vinhos

De forma geral, no Piemonte os vinhos elaborados a partir da Dolcetto têm uso mais frequente para consumo quotidiano. Mostram uma coloração muito intensa e brilhante, tendendo ao violeta quando jovens. Na maioria das vezes trazem aromas de frutas vermelhas (cereja, ameixa), alcaçuz, toques florais (sobretudo violeta e rosa) e amêndoa no olfativo. No gustativo, apesar do nome, são vinhos normalmente secos, de tanino e corpo médios, média a baixa acidez e um toque de amargor no final, lembrando amêndoas.

Em boa parte das vezes, seus vinhos são consumidos rapidamente, em até três anos da safra. Porém, a sua capacidade de evoluir por períodos mais longos é comprovada. Isso ocorre, sobretudo, para produtores mais tradicionais e em áreas onde suas videiras ocupam posição mais nobre nos vinhedos, como em Dogliani e/ou Diano d’Alba.

Área plantada e nome alternativo

Segundo dados da OIV, em 2015 eram apenas 5.597 hectares de Dolcetto plantados ao redor do mundo, dos quais 5.453 na Itália, 101 na Austrália e 53 nos EUA. Por conta desta extrema concentração, a Dolcetto tem apenas um sinônimo – Ormeasco – na região italiana da Ligúria.

Fontes: Dolcetto: Vitigno di Langa per Eccellenza, Consorzio di Tutela Barolo Barbaresco Langhe Alba e Dogliani; Barolo & Barbaresco Academy Study Book; Distribution of the World´s Grapevine Varieties, DNA-based genealogy reconstruction of Nebbiolo, Barbera and other ancient grapevine cultivars from northwestern Italy, Schneider et al; OIV; Wine Spectator; Hello Taste; vários artigos

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