Gamay: começos, recomeços e finalmente reconhecimento

Last Updated on 25 de outubro de 2024 by Wine Fun

A história da Gamay, também chamada de Gamay Noir, é, no mínimo, conturbada. Ela vem sendo cultivada na Borgonha pelo menos a partir do século XIV, quando chegou a suplantar a Pinot Noir em termos de área de plantio. O motivo? Ela tem um rendimento maior e é menos complicada de produzir que a Pinot Noir. Resultando em vinhos leves, finos e de boa acidez, se tornou muito popular.

O aumento da popularidade, porém, foi bruscamente interrompido em 1395 pelo rei Felipe, o Audaz, que ordenou a retirada de todas as plantas de Gamay da Borgonha. Fim do primeiro capítulo, com drástica redução da área plantada, sobretudo na Côte D’Or, onde foi praticamente extinta, o que resultou na grande participação atual da Pinot Noir nesta área.

Nova onda de prestígio

Séculos depois, vem o segundo capítulo. A Gamay passou a ser associada diretamente ao Beaujolais Nouveau, o vinho que ganhou as manchetes principalmente nas décadas de 1970-90, por conta de uma boa jogada de marketing e de seu frescor.

Este vinho leve e simples, vendido direto do tanque de fermentação no dia do lançamento, sempre em novembro, era quase visto como sinônimo da desta variedade. Embora fosse lucrativo aos produtores de vinhos mais básicos, certamente pouco fez no sentido de ajudar na reputação da Gamay. Mas a moda acabou (embora no Brasil ainda haja saudosistas) e a variedade teve novamente que se reinventar.

E boa parte disso passou pelo sério esforço de diversos produtores da região de Beaujolais, especificamente das áreas chamadas Cru de Beaujolais, que conseguiram mostrar efetivamente o que esta variedade é capaz.

Regiões de cultivo e origem

Atualmente a área de maior produção da Gamay é o Beaujolais, onde cerca de 98% dos vinhedos são dela, correspondendo a cerca de 75% da produção mundial desta uva. Mas ela também é cultivada ao norte do Mâconnais e no Loire. Fora da França, destaque para a Suíça, onde geralmente é combinada com a Pinot Noir para um blend (aliás, algo similar se passa na Borgonha, onde é chamado Bourgogne Passetoutgrains).

E esta relação íntima com a Pinot Noir é muito maior do que a resultante da ação do homem. Estudos provaram que a Gamay é parte de um vasta família (que inclui também a Chardonnay, a Melon e a Aligoté) de uvas autóctones da região central de França, todas elas originárias do cruzamento entre a Pinot Noir e a Gouais Blanc (hoje praticamente extinta).

Características

Em relação à uva em si, seus cachos são de tamanho médio, com grãos de coloração escura, entre o roxo e o preto, com casca fina e delicada, o que a torna, embora em menos escala que a Pinot Noir, suscetível a pragas e podridão.

A Gamay também é sensível às condições climáticas durante o período de floração, porém brotando e amadurecendo de forma precoce, o que a permite resisitir em locais de temperaturas mais frias como Anjou-Saumur e Touraine, no Vale do Loire. É uma variedade de muito vigor e deve ser monitorada de perto, para evitar que a quantidade afete a qualidade.

Vinhos

Em relação às características dos vinhos produzidos a partir da Gamay, há grande distinção dependendo do estilo escolhido. Diversos produtores optaram por maceração carbônica ou semi-carbônica, resultando em vinhos com olfativo de borracha, especiarias, bananas ou doces cozidos. Seguem leves, com boa acidez, taninos macios e baixa graduação alcóolica.

Por outro lado, outros optaram por uma método mais próximo do tradicionalmente usado na Borgonha, com fermentação em tonéis de madeira aberta e envelhecimento em barris. O resultado foi no sentido de vinhos de coloração rubi, baixa concentração e com aromas de frutas vermelhas, floral e leve terroso. Já o gustativo se mostra mais profundo e de mais longa duração, porém mantendo elevada acidez e taninos leves.

Área plantada e nomes alternativos

Segundo dados da OIV, em 2015 eram 27.469 hectares de Gamay plantados ao redor do mundo, com a grande maioria deles na França (25.704 hectares, ou 94% do total), seguida pela Suíça (1.341 hectares, ou 4,9%). O restante está espalhado por diversos países, encabeçados por Canadá e Estados Unidos.

A Gamay leva o nome de um vilarejo em Saint-Aubin, perto de Puligny-Montrachet, região que curiosamente hoje é quase inteiramente dedicada à plantação de Chardonnay. Apesar da concentração de sua produção em apenas um país, sobretudo na região do Beaujolais, a variedade também recebe outros nomes, como Beaujolais, Beuna di Susa, Biaune Gamaise, Blauer Gamet, Borgogna, Bourguignon noir, Burgandi Nagyszemu, Carcairone, Chambonat, Complant de Lune, Erice noir, Ericey du Acher, Gamay Beaujolais, Gamay Charmont, Gamay d’ Auvergne, Gamay d’Arcenant, Gamay de la Dole, Gamay de Liverdun, Gamay Geoffray, Gamay Labronde, Gamay Magny, Gamay Mathieu, Gamay Nicolas, Gamay noir à Jus Blanc, Gamay Ovoide, Gamay Picard, Gamay Piccolo Nero, Gamay Rond, Gamay Sainte-foix, Gamay noir à Jus Blanc, Gamay Beaujolais, Gambonnin, Game, Game Crni, Gamet Blauer, Garcairone, Grosse Dole, Kek Gamay, Lyonnais, Lyonnaise, Marvandiot, Melon Gross Blau, Melon noir, Melonentraube Schwarz, Nagyburgundi Kek, Nicola, Olivette Beaujolaise, Petit Bourguignon, Petit Gamai, Petit Gamay, Petit Rondelet, Piccolo Gamay, Plant Charmenton, Plant Chartaignet, Plant Chatillon, Plant d’ Evelles, Plant d’ Hery, Plant d’Argenant, Plant de Bevy, Plant de la Treille, Plant de LaBronde, Plant de Limagne, Plant de Magny, Plant de Malin, Plant de Montlambert, Plant des Carmes, Plant Montagny-sous-Beaune, Plant Monternier, Plant Nikolas, Plant Picard, Plant Tondo, Plant Tondu, Pti Game, Saumorille, Schwarze Melonentraube, Sulzentaler blau e Verdunois.

Fontes: Foundation Plants Services Grapes, UC Davis; Distribution of the World´s Grapevine Varieties, OIV; Historical Genetics: The Parentage of Chardonnay, Gamay, and Other Wine Grapes of Northeastern France, John Bowers, Jean-Michel Boursiquot, Patrice This, Kieu Chu, Henrik Johansson, Carole Meredith (1999); Beaujolais.com; Jancis Robinson; Wine Spectator; Berry Bros. & Rudd.

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