Hautes Côtes de Nuits: explore uma parte pouco conhecida da Borgonha

Last Updated on 23 de dezembro de 2024 by Wine Fun

A Borgonha é muito mais do que os vinhedos das principais denominações de origem da Côte d’Or. Embora vilarejos como Vosne-Romanée, Chambolle-Musigny ou Gevrey-Chambertin concentrem uma parcela significativa dos vinhedos Grand Cru e muitos Premier Cru, quem aprecia estes vinhos de alta qualidade tem muito a explorar. No total, são 84 denominações de origem, com uma enorme diversidade.

Mesmo levando em conta a impressionante disparada no preço dos vinhos desta parte da França nos últimos anos, ainda é possível encontrar alternativas com excelente custo-benefício. Porém, é necessário explorar áreas ainda fora do radar de muita gente, com destaque para villages menos conhecidos e denominações regionais. E as Hautes Côtes de Nuits é uma delas, região que vem ganhando espaço não somente para os apreciadores de Borgonha, mas também chamando a atenção de diversos produtores sediados em áreas de maior prestígio.

Esta parte da Borgonha vem ganhando cada dia mais atenção. Ela se beneficia de um fenômeno que afeta negativamente boa parte das principais regiões vinícolas do mundo: o aquecimento global. Como o nome indica, as “altas encostas” são áreas mais elevadas e com menos exposição solar do que os históricos vinhedos da Côte d’Or. Isso era uma clara desvantagem no passado, porém hoje isso pode ser um diferencial relevante. Vale a pena conhecer mais de perto as Hautes Côtes de Nuits.

Denominação regional

Antes de entrar em maiores detalhes sobre as características desta área, vale a pena entender como ela se situa dentro da pirâmide de classificação dos vinhedos da Borgonha.  São quatro degraus, com o mais baixo contendo as denominações de origem regionais, ou seja, vinhos elaborados a partir de uma região mais ampla. No nível intermediário, há os vinhos feitos a partir de uvas de villages (espécie de municípios) e, no topo da pirâmide, os vinhos a partir de vinhedos específicos (divididos em vinhedos Premier Cru Grand Cru).

A pirâmide de classificação da Borgonha

Todavia, o sistema de classificação não é tão simples assim. Existe também uma sub-classificação dentro do nível regional. A denominação mais conhecida neste degrau é a Bourgogne AOC, mas existem também 13 indicações geográficas complementares. Destas, quatro se referem sub-regiões específicas: Bourgogne Hautes Côtes de Beaune, Bourgogne Hautes Côtes de Nuits, Bourgogne Côte Chalonnaise e Bourgogne Côte d’Or.

Localização e produção

Criada em 1961, a denominação Bourgogne Hautes Côtes de Nuits abrange 16 comunas da região de Hautes Côtes, no departamento de Côte-d’Or. São elas: Arcenant, Bévy, Chaux, Chevannes, Collonges-lès-Bévy, Curtil-Vergy, L’Etang-Vergy, Magny-lès-Villers, Marey-lès-Fussey, Messanges, Meuilley, Premeaux-Prissey, Reulle-Vergy, Segrois, Villars Fontaine e Villers-la-Faye. Além disso, inclui também as partes mais altas dos municípios de Chambolle-Musigny, Flagey-Echézeaux, Nuits-Saint-Georges e Vosne Romanée.

Se ao norte seu limite geográfico fica em Reulle-Vergy, que fica mais ou menos da linha de Vougeot, ao sul a linha divisória com as Hautes Côtes de Beaune passa pela aldeia de Magny-Iès-Villers, próxima à colina de Corton. No total, são 765 hectares de vinhedos plantados, dos quais 617 ha com uvas tintas (81%) e os restantes 148 hectares com brancas.

Em verde, os vinhedos das Hautes Côtes de Nuits

A produção média entre 2014 e 2018 ficou em torno de 2.900 hectolitros, o equivale a 3,8 milhões de garrafas. A título de comparação, isso é quase 40% superior à produção de Gevrey-Chambertin, uma das maiores denominações village da Côte d’Or. Assim como no caso da área plantada, os vinhos tintos e rosés predominam, com uma fatia na faixa de 80%.

Terroir e uvas

Apesar do nome, os vinhedos não podem ser descritos como sendo de altitude. Eles se situam em altitudes entre 300 e 400 metros e ocupam os lados dos vales que cortam o planalto calcário do período jurássico, a oeste da Côte. O subsolo subjacente é praticamente o mesmo da Côte, mas o solo é mais raso, com uma mistura de calcário erodido e menor proporção de argila.

As temperaturas médias são inferiores àquelas da Côte, com significativa amplitude térmica. Ao contrário da Côte de Nuits, onde boa parte dos vinhedos têm exposição leste ou sudeste, nas Hautes Côtes há muito mais diversidade nas exposições. Isso inclui vinhedos em encostas de faces sul e oeste, geralmente próximos aos pitorescos vilarejos que compõem a região. Até por conta da exposição sul, algumas áreas se destacam, entre elas a fração entre Chaux e Villiers, além de Concouer, Conboin e Villars-Fontaine.

As uvas permitidas são as mesmas de boa parte das denominações da Côte, com destaque para a Pinot Noir, com Chardonnay, Pinot Blanc e Pinot Gris sendo usadas para os vinhos brancos. Na região há também plantio de Aligoté, que, todavia, acaba sendo engarrafas como Bourgogne Aligoté.

Vinhos e produtores

Por conta do clima mais fresco e solos mais pobres, os vinhos das Hautes Côtes de Nuits costumam mostrar alta acidez, mais frescor e um perfil de fruta menos madura. No caso dos tintos, é comum encontrar aromas de morango e cereja frescos, muitas vezes com notas florais, menos profundidade e estrutura que os vinhos da Côte. Os brancos são lineares, com um perfil marcado por aromas de frutas brancas e notas cítricas.

Há um número considerável de produtores baseados na região, porém poucos conseguiram alcançar grande reconhecimento. As principais exceções são Claire Naudin e Domaine Hoffmann-Jayer (sediados em Magny-Les-Villers), além da Domaine Thevenot Le Brun, localizada em Marey-lès-Fussey. Por outro lado, é bastante comum o cultivo de vinhedos por produtores mais conhecidos por suas atividades na Côte.

Entre eles, vale a pena destacar Domaine Méo-Camuzet, Domaine Bizot, Anne Gros e Domaine AF Gros (todos baseados em Vosne-Romanée), além de Domaine Arlaud e Domaine Alain Jeanniard (Morey Saint-Denis), Emannuel Giboulot (Beaune), Domaine Liger-Belair Thibault  e Edouard Delaunay (Nuits Saint-Georges), Domaine Bertagna (Vougeot), Domaine Berthaut-Gerbet (Fixin) e Domaine Dominique Guyon (Savigny-lès-Beaune). Há presença também de négociants, como Albert Bichot, por exemplo.

Fontes: Vins de Bourgogne; Wine Scholar Guild; Inside Burgundy, Jasper Morris

Mapa: Vins de Bourgogne

Imagem: Vins de Bourgogne

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *