La Romanée: vinhedo mítico ou menor denominação de origem da França?

Last Updated on 22 de fevereiro de 2025 by Wine Fun

A pergunta do título tem duas respostas corretas. La Romanée, embora não carregue a mesma fama do vizinho Romanée-Conti, é um vinhedo mais que especial, com longa história e parte do pequeno grupo de 33 climats da Borgonha que carregam a classificação Grand Cru. Tal como os demais, é uma denominação de origem própria, mesmo apesar de ter pouco menos de um hectare de área. E esta pequena área a faz a menor entre todas as 360 denominações de origem da França.

La Romanée é também uma das poucas denominações de origem a partir de um vinhedo monopole. Isso significa que toda sua extensão pertence a somente um proprietário. No caso, desde 1827 este vinhedo pertence à família Liger-Belair, proprietária da Domaine du Comte Liger-Belair, sediada em Vosne-Romanée. Algo menos incomum é seu foco em apenas uma uva, a Pinot Noir, algo relativamente corriqueiro na Borgonha.

Longa história

A colina de Vosne-Romanée, onde se situa o vinhedo La Romanée, tem uma longa tradição na viticultura. Anteriormente posse da nobreza local, esta área foi doada para ordens religiosas, em especial para os monges da abadia de Saint-Vivant, fundada em 890. Não havia, como existe hoje, uma separação entre os vinhedos. Assim, é muito provável que os monges cultivassem parcelas em climats muito conhecidos hoje, como Romanée-Conti, La Romanée, La Tâche e Romanée-St-Vivant.

Boa parte das terras da Igreja sofreu confisco durante a Revolução Francesa. Porém, no caso dos vinhedos da abadia de St-Vivant, o retorno para não religiosos ocorreu antes. No século XVI, possivelmente por conta da cobrança de impostos, boa parte dos vinhedos do que hoje é Vosne-Romanée acabou voltando para a nobreza e alta burguesia. Entre 1631 e 1651, a família Croonembourg decidiu chamar parte desta área de La Romanée.

A divisão da área se deu antes no final do século XVII, pois nos anos seguintes já existem evidências de venda de várias propriedades individuais. Se a parte chamada anteriormente de Creux de Clos acabou se tornando Romanée-Conti após aquisição pelo Príncipe de Conti em 1760, o destino do que é hoje é La Romanée seguiu outros rumos.

O papel dos Liger-Belair

Em 1815 Louis Liger-Belair, anteriormente general do exército de Napoleão, adquiriu o Château de Vosne-Romanée e uma extensa área plantada com videiras nas redondezas. Com o casamento de seu filho com uma herdeira da família Marey, o número de vinhedos cresceu. Além de várias parcelas no Clos de Vougeot, a propriedade dos Liger-Belair incluía os hoje Grands Crus La Romanée (na época chamado Aux Exchanges), La Tâche e La Grande Rue.

Com a aquisição das últimas seis parcelas de Aux Exchanges pelos Liger-Belair em 1827, o monopole passou a ser conhecido como La Romanée, nome anteriormente usado pelos Croonenbourg para todos os vinhedos desta área. Em 1933, porém, a Domaine du Comte Liger-Belair acabou sendo vendida em um leilão, incluindo todos os seus vinhedos.

A localização do vinhedo

Coube a três membros da família resgatarem os principais vinhedos, entre eles La Romanée e parte de Aux Reignots e Les Chaumes (hoje dois Premier Cru de Vosne-Romanée). Henry Liger-Belair, o novo herdeiro do vinhedo, porém, manteve a tradição da família, ao servir o exército francês. Apesar da posse das terras, entregou o cultivo para agricultores locais, que vendiam o vinho através de négociants.

A era moderna

Mesmo sendo classificado como Grand Cru desde a criação da denominação de origem La Romanée em 1936, o envolvimento dos Liger-Belair com La Romanée era mínimo. O vinhedo era cultivados por terceiros e o vinho elaborado pela Domaine Forey, com envelhecimento e distribuição com rótulo do négociant Bouchartd Père et Fills. Isso viria a mudar somente a partir de 2002.

Em 2000 Louis-Michel Liger-Belair decidiu recriar a domaine da família e, dois anos depois, retomou o vinhedo para elaborar vinhos próprios. A partir da safra 2005, os vinhos de La Romanée passaram a ter controle total dos Liger-Belair: cultivo das uvas, vinificação, envelhecimento e comercialização. Começava um novo capítulo deste vinhedo milenar.

O vinhedo

Com apenas 0,8452 hectare, este monopole é a menor denominação de origem da França. Situado imediatamente acima do mítico Romanée-Conti, possui solos ligeiramente diferentes. Há menor proporção de argila e maior presença de calcário e cascalhos, chamados de chailles. As vinhas, ao contrário da maioria dos vinhedos locais, são plantadas no sentido norte-sul, acompanhando a encosta, e não de cima para baixo. O cultivo é biodinâmico, com aragem realizada por cavalos, sem uso de tratores.

Embora a Pinot Noir domine inteiramente o vinhedo, as regras da denominação de origem permitem como uvas secundárias Chardonnay, Pinot Blanc e Pinot Gris. Este é climat Grand Cru praticamente dominado por vinhas velhas: 20% plantadas em 1905, 50% no início da década de 1950 e as demais 30% entre 1975 e 1995.

O vinho

Com uma produção média anual de cerca de 3.600 garrafas, é um vinho muito raro e, consequentemente caro. Na Europa custa em torno de € 6 mil por garrafa, o equivalente a cerca de R$ 31 mil em maio de 2024. Ao descrever o vinho, Jasper Morris, um dos principais especialistas em vinhos da Borgonha, coloca o exemplar 2018 como “aristocrático, com muita precisão e intensidade”. O crítico inglês, porém, deixa claro que este é um vinho que merece vários anos em garrafa, para que possa ser consumido no seu auge.

O rótulo do vinho

Corroborando a visão de Morris, há quem o compare, nos primeiros anos, em estilo com o Romanée-Conti. É um Pinot Noir mais austero e fechado, em contraste com La Tâche ou Richebourg (também de elaboração pela Domaine de la Romanée-Conti), geralmente mais acessíveis poucos anos após o engarrafamento.

Fontes: Vins de Bourgogne; Wine Scholar GuildInside Burgundy, Jasper Morris; Cahier des Charges de l’Appellation d’Origine Contrôlée La Romanée; Domaine du Comte Liger-Belair; The Climats and Lieux-Dits of the Great Vineyards of Burgundy, Marie-Hélene Landrieu-Lussigny, Sylvain Pitiot; Club Oenologique

Mapas: Domaine du Comte Liger-Belair

Imagens: Arquivo pessoal, Wine Searcher (rótulo)

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