Last Updated on 19 de dezembro de 2020 by Wine Fun
A Bodegas López se manteve fiel às suas tradições. Seu estilo de vinificação remete aos vinhos feitos em Bordeaux no passado, trazendo uma proposta que combina elegância e equilíbrio. Foi uma das poucas grandes vinícolas no Novo Mundo que não se deixou seduzir pelo estilo de vinhos extraídos e alcoólicos que dominou o cenário mundial desde os anos 1990, tão divulgado por uma geração de críticos de vinho liderada por Robert Parker.
Já no momento atual, onde os excessos parecem coisa do passado e os consumidores buscam vinhos mais leves e elegantes, a Bodegas López está em maior evidência. Mantiveram sua fórmula tradicional praticamente inalterada, porém seguiram agregando novas linhas de vinhos, também para atender um público consumidor mais amplo.
Abaixo uma entrevista com Omar Panilla, enólogo-chefe da vinícola, que, além de um bom vinho, também aprecia uma boa dose de rock pesado.
Vinificando com equilíbrio
Wine Fun (WF): Qual é a sua filosofia de vinificação, o que você mais procura quando se trata de produzir um vinho? (desde a seleção de uvas até o fim do processo de vinificação)?
Omar Panella (OP): Na produção de nossos vinhos o objetivo é claro: equilíbrio. Portanto, para envelhecer nossos tintos, escolhemos recipientes grandes (barris e tanques entre 5 mil e 35 mil litros de capacidade) ao invés de barricas. Assim, alcançamos a predominância de descritores varietais, com uma contribuição sutil de madeira, o que é obtido porque a superfície de contato entre vinho e madeira é menor.
Buscamos taninos elegantes e equilíbrio total, com o carvalho sendo encarado como um complemento, não atropelando as características da uva. Além disso, este processo torna a cor de nossos vinhos não tão intensa. Resumindo: vinhos equilibrados, macios, suaves, de graduação alcóolica sem exageros e fáceis de beber.
O “Estilo López”
WF: Qual é o seu maior diferencial, qual seria uma técnica ou procedimento que você adota que mostra sua marca pessoal no vinho que você produz?
OP: O diferencial tem sido construído todos os dias desde 1898 e é o que sustenta nossa proposta: é o “Estilo López”. Um estilo clássico, com sólida tradição de qualidade, apoiado por uma atualização tecnológica contínua e estar atento e acompanhar, sempre fiel à nossa identidade, as mudanças de gostos, hábitos e experiências buscadas por quem nos escolhe.
Como expressamos acima, o envelhecimento em carvalho é a característica distintiva de nossos vinhos tintos. Para isso, é necessário estender o tempo em madeira, um estilo que também dá maior potencial de guarda aos nossos vinhos. Por exemplo, agora em 2020, estamos comercializando, o Montchenot Classico (10 anos) safra 2010, o safra Chateau Vieux 2014 ou Rincón Famoso safra 2016, entre outros.
Ou seja, vinhos elaborados no passado, mas que foram mantidos em nossa custódia por anos para que chegassem ao consumidor em plenas condições de consumo. Todos esses fatores trazem vinhos com um sabor particular e fácil de beber, que expressam ainda melhor todas as suas qualidades após serem decantados.
No caso dos vinhos brancos, eles não sofrem a mesma passagem por madeira, pois priorizamos os aromas varietais e seu consumo dentro de um ano de sua produção.
Companheiros de décadas
WF: Se você pudesse sugerir que um de seus vinhos fosse mantido na vinícola por muitas décadas, o que seria?
OP: O tempo mostrou que a maioria dos nossos vinhos tintos tem um ótimo potencial de guarda. Nossas Cosechas Especiales são prova disso: temos lotes limitados dos grandes clássicos de suas primeiras safras: Chateau Montchenot 1956, Chateau Vieux 1938, Rincón Famoso 1966 e Selección López 1967. Novas safras especiais são adicionadas ano a ano, como Federico López 1996 e Casona López 1997, entre outras. Se eu tiver que escolher, para mim são três que fazem um pódio difícil de igualar: Montchenot, Federico López e Chateau Vieux.
As safras históricas
WF: Mencione uma safra histórica para você e por quê.
OP: Se falarmos de safras recentes, posso destacar 2008, 2010 e 2014, pela sanidade das uvas e qualidade em geral. Para um de nossos Gran Reserva, sem dúvida, uma safra realmente especial é a de 1983. Decidimos celebrá-la com nosso Chateau Montchenot Edición Especial 1983, lançado em 2016, aos 60 anos da primeira safra da marca e 130 da chegada à Argentina de Dom José López Rivas, fundador da vinícola.
Questão hídrica em primeiro lugar
WF: Quais são os maiores desafios para a vinificação na região onde você atua?
OP: Continuar a investigar os diferentes terroirs com o propósito de alcançar vinhos distintos, ao mesmo tempo em que buscamos a otimização dos recursos hídricos em nossos vinhedos, uma vez que Mendoza é praticamente um deserto e as mudanças climáticas impactaram significativamente nos últimos anos.
Ao contrário de outras regiões que foram muito afetadas pela elevação da temperatura, em Mendoza a nossa maior preocupação é com a água, dado que o que dispomos é resultante do degelo que ocorre na Cordilheira dos Andes. A neve que está no cume das montanhas no inverno é a água que teremos o restante do ano. Simples assim.
Sustentabilidade
WF: Não há dúvida de que estamos caminhando para um planeta mais sustentável. Como a Bodegas López reflete isso em suas práticas agrícolas?
OP: Desde o início, a Bodegas López tem sido pioneira no cuidado com o meio ambiente e na gestão responsável de seus vinhedos. Prova disso é a longevidade de nossas videiras: as mais antigas datam de 1917.
Hoje, as mudanças climáticas aceleraram os processos de tecnologia na irrigação de nossas fazendas: o cenário de escassez de água torna imperativa a conversão à irrigação por gotejamento em cada uma delas, juntamente com o controle praticamente orgânico de pragas, que sempre privilegiamos. Em função das condições climáticas, já que é muito seco aqui, não temos muitos dos problemas que existem em outras regiões, como míldio e oídio.
Diferentes vinhedos
WF: Bodegas López tem vários vinhedos ao redor de Mendoza. Qual o peso das diferentes exposições e diferentes composições no vinho? Como você adapta suas práticas de vinificação a essas diferentes condições?
OP: A vinícola possui 1.100 hectares cultivados a partir de vinhedos próprios, localizados nas melhores áreas produtivas de Mendoza (Cruz de Piedra e Lunlunta em Maipú, Agrelo em Luján de Cuyo e Tupungato, no Vale do Uco) e os mais antigos que ainda estão preservados, são do início do século XX.
Anos, estudo, experiência e dedicação nos permitem hoje saber em detalhes como cada cepa é expressa de acordo com a localização de seu vinhedo. Em cada um de nossos vinhos, sejam de corte ou monovarietais, usamos essa experiência para que as melhores expressões de cada variedade sejam apreciadas na taça.
Malbec vs Cabernet Sauvignon
WF: Qual variedade ou corte lhe dá a maior satisfação na produção? Porque?
OP: A paixão que colocamos no trabalho passa por cada um de nossos produtos. Mas há duas variedades que eu definitivamente destacaria: Malbec e Cabernet Sauvignon. No caso do Malbec, além de seu forte crescimento e sua adoção como símbolo da Argentina no mundo do vinho, esteve presente em nossos vinhos desde o início por sua versatilidade e boa aceitação. Um exemplo disso é o clássico López Selección, que sempre foi elaborado com Malbec e agora diz isso em seu rótulo.
É uma uva também bastante adaptável, adquirindo características distintas dependendo da região. Temos Malbecs plantadas em três regiões diferentes, e os vinhos resultantes são bastante distintos. Pesa também a questão do momento de colheita, realmente a acidez cai, por exemplo, em anos de safra quente como 2020.
E a Cabernet Sauvignon, que, por conta de sua estrutura, escolhemos como base para nossos cortes Gran Reserva, como Federico López, Montchenot e Chateau Vieux, além de apresentá-lo em nossas linhas varietais.
A ditadura da Malbec
WF: A Malbec se transformou em uma espécie de sinônimo de vinho argentino. Houve exagero no predomínio absoluto desta variedade? Você apostaria em uma mudança, com outras uvas ganhando espaço?
OP: Apesar da Malbec ser uma variedade muito flexível, ou plástica, como dizemos por aqui, não há dúvida que esta predominância tirou espaço de outras uvas. A Argentina tem potencial para produzir outras variedades de grande qualidade, até pela enorme diversidade de condições que dispomos, com uma faixa de ao menos 1.500 quilômetros no sentido norte-sul, além da possibilidade de trabalhar em diferentes altitudes. Já temos resultados muito bons com Merlot, que é a varietal preferida do público feminino argentino e com a Cabernet Franc, com enorme potencial de crescimento no segmento de vinhos de alta gama.
Gostos pessoais
WF: Mencione três de suas músicas favoritas:
OP: Citaria as músicas do álbum Hemispheres, da banda canadense Rush, Aces High, do Iron Maiden e Los libros de la buena memoria, da banda argentina Invisible.
WF: Dois livros que você recomenda: um sobre vinho e outro sobre qualquer assunto
OP: Sobre vinhos, ficaria com o Tratado de Enologia , de Pascal Ribereau-Gayon e colaboradores, já sobre outros assuntos escolho Medindo o Universo, de Isaac Asimov
Mensagem final
WF: Fale sobre quaisquer aspectos adicionais de sua atividade que você gostaria de discutir!
OP: Há um grande desafio que é como difundir e comunicar vinhos aos consumidores, com o objetivo de recuperar o consumo perdido nos últimos anos. A Argentina chegou a ter um consumo na faixa de 90 litros por habitante ao ano na década de 1960, hoje está em torno de 19 litros. A quantidade mudou e também o perfil, portanto, há muito trabalho a ser feito para buscar recuperar o território perdido.