Dentre os principais nomes do vinho de baixa intervenção na Itália, uma das menções obrigatórias é Ariana Occhipinti. Baseada em Vittoria, no sudeste da Sicília, ela lançou seus primeiros vinhos em 2004 e, desde então, ganhou destaque com uma linha ampla e versátil. Seus vinhos, desde aqueles de entrada até suas cuvées mais exclusivas, evidenciam a personalidade e a sensibilidade desta enóloga que ajudou a colocar os vinhos de sua região em um patamar acima do que qualquer outro produtor local.
Em uma região muitas vezes conhecida por vinhos com alto volume de produção, intensos e alcoólicos, que traduzem as condições climáticas, Occhipinti é capaz de produzir vinhos elegantes e de muito frescor. Para tal, possui uma excepcional capacidade de entender o terroir, que se alia à adoção de agricultura orgânica e baixa intervenção na vinificação.
História e estilo
Embora seja sobrinha de Giusto Occhipinti (um dos fundadores da COS), Ariana começou praticamente do zero. Após concluir seus estudos enológicos em Milão, voltou para sua Sicília natal e alugou um hectare de videiras na Contrada Fossa di Lupo, onde se familiarizou com as variedades locais Frappato e Nero d’Avola.
Apesar de a universidade ter trazido conhecimento técnico, sua principal influência na viticultura e enologia veio de seu tio. Foi Giusto, que, em contradição com muito do ministrado na universidade, apresentou à Arianna os conceitos de agricultura orgânica, colheita manual e fermentação com uso de leveduras indígenas.
Em uma região tradicionalmente ligada à produção de uvas e vinhos a granel, Arianna decidiu ousar. Nas suas próprias palavras: “Não irrigar, colher tarde e não usar fertilizantes é o segredo para fazer vinhos mais elegantes na área. O frescor e a mineralidade nos meus vinhos vêm dos subsolos. Qualquer vinho feito de vinhas jovens ou videiras cultivadas quimicamente que se alimentem apenas do solo superior terá as características cozidas que as pessoas associam ao vinho de regiões quentes.”
Vinhedos e agricultura
Atualmente Ochippinti conta com 32 hectares, com cultivo orgânico e uso de práticas biodinâmicas, porém sem certificação. Cultiva apenas variedades nativas sicilianas ou de longa tradição na região: 50% Frappato, 35% Nero d’Avola e 15% das brancas Albanello, Grillo e Moscatel de Alexandria (conhecida na região como Zibibbo). Boa parte do solo mostra alta proporção de calcário, o que confere uma mineralidade particular a seus vinhos.
Os vinhedos de Frappato e Nero d’Avola contam com videiras plantadas em Guyot e por plantas de até 60 anos de idade, com condução em alberello. Estas vinhas velhas eram inicialmente arrendadas, mas foram incorporadas à propriedade. Apesar de ter permissão para tal, Arianna não usa irrigação em seus vinhedos, desafiando o clima quente e com muito vento da região. A diversidade ecológica ganha espaço com o plantio de espécies de cobertura, que crescem entre as fileiras de videiras. Além disso, são mais 30 hectares com outras culturas, com destaque para as oliveiras.
Vinificação
Arianna busca trabalhar de acordo com os princípios de baixa intervenção. Após colheita manual e transferência das uvas por gravidade, as fermentações ocorrem somente com uso de leveduras indígenas, geralmente em tanques de concreto. Procura sempre trabalhar com a vinificação por parcela, mesmo para seus vinhos mais básicos e não adiciona qualquer produto enológico ou químico, à exceção de doses mínimas de sulfitos.
Para os vinhos de entrada e de consumo mais rápido, o envelhecimento ocorre nos próprios tanques de fermentação. Já seus vinhos varietais e de Contrada passam por estágio em barris de grande porte de carvalho neutro, de múltiplos usos. Nenhum de seus vinhos passa por filtração ou colagem.
Vinhos de entrada
Com uma produção total na faixa de 160 mil garrafas ao ano, Arianna divide seus vinhos em três linhas. A primeira conta com seus dois vinhos de entrada (um branco e um tinto), que correspondem a cerca de dois terços da produção total. O SP68 Rosso, com aproximadamente 70 mil garrafas ao ano, é um corte de Frappato (geralmente em torno de 70%) e Nero D’Avola, cujo nome faz referência à rodovia que passa ao lado de sua principal propriedade. Após fermentação em tanques de concreto, com maceração mais curta, o vinho fica seis meses neste recipiente, com mais 30 dias em garrafa antes do lançamento
Já o SP68 Bianco, com produção em torno de 35 mil garrafas, é um corte de Moscatel de Alexandria (cerca de 60%) e Albanello. As uvas passam por maceração de cerca de 15 dias em tanques de concreto, onde fazem envelhecimento em linha com o tinto. São vinhos leves e de incrível vivacidade, com excelente custo-benefício.
Monovarietais e projetos especiais
O segundo grupo é composto pelos monovarietais de Frappato e de Nero d’Avola, além do corte Grotte Alte e o passificado Passo Nero. O Il Frappato, 100% Frappato di Vittoria, é o segundo tinto de maior produção da vinícola. Com uvas parcialmente de cachos inteiros provenientes de vinhas de cerca de 35 anos de idade e cultivo orgânico certificado, tem fermentação (parte semi-carbônica) em tanques de cimento. No envelhecimento, parte fica em cimento e parte em botti de carvalho austríaco.
O Sicagno é um 100% de Nero d’Avola, com rendimentos limitados no vinhedo, de cerca de 35 anos. Vinificação também em cimento, com estágio de cerca de 24 meses em botti de carvalho austríaco de 30 hectolitros, mais dois meses em garrafa. Também o Passo Nero é um Nero d’Avola, porém a partir de uvas passificadas. Com teor de açúcar mais elevado, passa 16 meses em tonneaux de 750 litros e inox, com mais seis meses em garrafa.
Por fim, o Grotte Alte é um corte de 50% Nero D’Avola e 50% Frappato, o que permite seu engarrafamento como Cerasulo de Vittoria DOCG, a denominação de origem mais tradicional da região. Sua elaboração conta com vinhas velhas de 40 anos e vinificação em tanques de cimento, com maceração de 30 dias. O vinho passa 48 meses em botti de carvalho francês de 50 hectolitros, mais quatro meses em garrafa. Este último, segundo palavras da própria Arianna, é seu vinho mais ambicioso.
Vinhos de Contrada
As joias da coroa, porém, são seus vinhos de Contrada, elaborados pela primeira vez em 2016. Três deles são elaborados a partir de parcelas específicas plantadas com Frappato, com a vinificação similar. Os três tintos passam 12 meses em diamantes de cimento (similar a ovos, porém não arredondados), seguidos por mais 12 meses em tanques de cimento retangulares. Sua produção varia entre 2.500 e 3.000 garrafas ao ano.
Dentre estes tintos, a Contrada Pettineo (PT) dá origem a um vinho mais leve e vertical, por conta de um extrato de areia de origem marinha. Já a Contrada Fossa di Lupo (FL) tem solos mais calcários, com olfativo marcado por frutas vermelhas e notas de ervas secas, maior estrutura e taninos mais presentes no palato. Contrada Bomboliere (BB), por sua vez, tem solos argilo-calcários, que dá origem a vinhos com notas florais e frutas maduras, trazendo mais densidade e profundidade.
Seu vinho branco de Contrada, Santa Margherita (SM), foi o último a ser produzido, a partir de 2020. Conta com uvas de vinhedos jovens, plantados em 2016 nas encostas dos Monti Iblei (490 metros de altitude). Após dois dias de contato com as cascas, fermentação 50% em tanques de cimento e 50% em botti de carvalho austríaco. Envelhecimento entre sete e dez meses nestes recipientes com suas lias, com parte exclusivamente em cimento. Um vinho que reúne complexidade e tensão, um dos destaques desta vinícola.
| Nome da Vinícola | Azienda Agricola Occhipinti |
| Estabelecida | 2004 |
| Website | http://www.agricolaocchipinti.it//en// |
| Enóloga | Arianna Occhipinti |
| Uvas | Frappato, Nero D’Avola, Moscatel de Alexandria, Albanello, Grillo |
| Área de Vinhedos | 32 ha |
| Sede da Vinícola | Vittoria (Sicilia) |
| Denominações de origem | Sicilia IGT, Terre Sicialiane IGT, Cerasuolo di Vitoria DOCG, Passito Terre Siciliane IGT |
| País | Itália |
| Agricultura | Orgânica |
| Vinificação | Baixa Intervenção |
Fontes: Website da vinícola; Louis Dressner (seu importador nos EUA), Bowler Wines (um de seus distribuidores nos EUA), entrevista com a produtora
Imagem: Website da vinícola