Os vinhos de Yann Bertrand

Com cerca de oito hectares de videiras em produção, Yann Bertrand segue ganhando espaço entre os produtores de baixa intervenção no Beaujolais. Seus vinhedos próprios têm cultivo orgânico e biodinâmico desde 2012, concentrados em uma área limítrofe entre Fleurie e Morgon. Porém, ele adquire também uvas de terceiros para elaborar vinhos de outros lieux-dits na mesma área, como La Madone (em Fleurie) e Côte du Py (Morgon).

Na vinificação, trabalha sempre com maceração carbônica, fermentação em tanques de concreto com uso de leveduras indígenas. Quase todos os seus vinhos geralmente não têm adição de sulfitos (à exceção daqueles que fazem envelhecimento curto). Algo que chama a atenção é sua técnica de escolha de barricas. Sem uso de barricas novas, ele varia bastante não somente a capacidade, mas também origem e uso anterior. Por exemplo, dependendo da cuvée, ele escolhe barricas já usadas com vinhos de variedades como Pinot Noir, Chardonnay, Mondeuse ou Syrah, por exemplo. Foi um prazer conhecer os vinhos, em visita conduzida por Yann.

Beaujolais OH! 2023

Elaborado a partir de vinhas velhas (45 a 80 anos) de alta densidade (11.500 plantas por hectare) na divisa com Morgon. Maceração carbônica de sete dias e fermentação espontânea, com sete meses de élevage (50% em concreto e 50% em barrica). Glou glou e delicioso, porém com mais concentração do se esperaria para um Beaujolais “de entrada”. Olfativo com frutas vermelhas, mostrando palato fresco e acidez cortante, com taninos finos e muita vivacidade.

Fleurie Coup de Foudre 2023

Novamente alta presença de vinhas velhas (55 a 80 anos de idade), plantadas em solos com cerca de 97% de areia. Vinificação em linha com anterior, porém com estágio de nove meses em barricas usadas de Mondeuse e Pinot Noir. O foco aqui é tensão e verticalidade, um vinho leve com frutas frescas delicadas e discreta salinidade.

Fleurie Phénix 2023

Teve sua primeira safra em 2016, por conta de uma chuva de granizo que destruiu grande parte das uvas de seus vinhedos próprios. A alternativa foi buscar uvas de terceiros, com caso de uma parcela em La Madone, com solos mais pobres e videiras de mais de 20 anos, que gera uvas pequenas de muita concentração. Nove meses em barris de 600 litros usados anteriormente com Syrah e Gamay. Com perfil mais concentrado, trouxe um nariz intenso com fruta mais escura, floral (violeta), e palato mais rico e encorpado, com taninos mais presentes e boa amplitude.

Morgon Dynamite 2023

Elaborado com seus vinhedos próprios, na parte norte de Morgon, próximo a Fleurie, com solos graníticos, com presença de ferro e xisto. Envelhecimento de nove meses em barris de 600 e 300 litros com uso anterior para Chardonnay, Pinot Noir e Mondeuse. É um vinho mais estruturado e intenso que aqueles com uvas de Fleurie, com fruta vermelha abundante e toque de ervas.

Fleurie Cuvée du Chaos 2023

As uvas provêm de duas parcelas próprias em Fleurie (uma com vinhas velhas de 75 anos, outra de 45 anos), vinificadas individualmente, com assemblage antes do engarrafamento. Muita tipicidade de Fleurie, com olfativo sedutor, trazendo frutas vermelhas (morango), floral (rosas) e especiarias. Um vinho fresco, redondo e elegante, com uma textura que chegou a lembrar Pinot Noir.

Fleurie Cuvée Émile 2023

Elaborado somente em safras específicas, combina vinhas jovens (quatro anos), com velhas (80 anos) da mesma parcela. Porém, com um “extra”: cerca de 15% das novas videiras são de Aligoté, co-fermentadas com Gamay. Acidez bem mais alta que os demais, com muito frescor e vivacidade, trazendo notas de frutinhas de bosque e menta. Delicioso.

Beaujolais MB 2023

Assim como o Fleurie Phénix, tem elaboração a partir de uvas de négoce. Este Beaujolais Blanc conta com videiras de Chardonnay de 45 anos, plantadas na parte baixa da Côte du Py, e vinificação e envelhecimento em barrica. Denso e rico no palato, mostrou olfativo com notas de frutas tropicais (manga e papaia), pedra de isqueiro e mel. Uma interessante expressão da Chardonnay plantada em solos graníticos e com presença de xisto.

Morgon Dynamite 2020

Para fechar, uma viagem no tempo a uma safra que foi mais quente e seca que 2023. Olfativo com fruta mais negra e especiarias (pimenta negra entre elas), mostrando palato de alta acidez, taninos finos e corpo médio, com mais fruta e matière. Um Beaujolais “com um pezinho” no Rhône Norte.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *