Na edição de novembro da Decanter Magazine, o colunista Andrew Jefford abordou um tema cada vez mais discutido, especialmente entre produtores e críticos alemães: “no cenário atual, a Alemanha está se tornando o paraíso da Pinot Noir”. Exageros à parte — e deixando de lado o evidente viés de quem faz uma afirmação tão provocadora — é inegável que o panorama mudou e que verdades enraizadas há séculos estão sendo revisadas.
Mesmo na Borgonha, o verdadeiro berço da Pinot Noir (perdoem-me os alemães), transformações importantes já estão em curso. Tradicionalmente, os vinhedos da região eram classificados de acordo com a posição nas encostas, conforme demonstrado na figura abaixo:

Entendendo o terroir da Borgonha
Nesse quadro conceitual — sem considerar as diferenças de solo, que existem e são numerosas — o objetivo é demonstrar que a faixa intermediária das encostas é tradicionalmente a mais privilegiada. Por esse motivo, é nela que se concentram os vinhedos de maior prestígio, normalmente classificados como Grand Cru. Além de proporcionar acesso às melhores camadas de solo e de subsolo para o desenvolvimento da videira, essa posição intermediária oferece proteção natural contra intempéries e garante exposição solar mais equilibrada ao longo do dia.
Acima e abaixo dessa zona considerada nobre situam-se os Premier Crus. A proximidade com os Grand Crus faz com que alguns trechos apresentem qualidade equivalente. No entanto, nem toda a área reúne as mesmas condições ideais de terroir, seja por pequenas variações de declive, drenagem, profundidade do solo ou incidência solar.
Um pouco mais abaixo encontram-se os vinhedos classificados como Village. Embora mantenham um nível bastante respeitável, já sofrem mais com limitações de insolação e apresentam solos com composição diferente, muitas vezes menos calcária e mais argilosa ou arenosa, dependendo do setor. Por fim, os vinhedos genéricos ou regionais (Bourgogne AOC), geralmente localizados em áreas de menor elevação – com frequência do outro lado das estradas ou em zonas planas –, tendem a apresentar solos mais profundos e ricos em materiais aluviais, depositados por antigos cursos de água. Essas condições resultam em vinhos tecnicamente mais simples, embora muitas vezes bastante prazerosos e acessíveis.
Hautes-Côtes: um dos grandes beneficiados pelas mudanças climáticas
No quadro ilustrativo dos vinhedos da Borgonha, a região situada no alto das encostas, sequer é mencionada. Ainda assim, essa área vem se revelando uma das grandes vencedoras no atual cenário de aquecimento global. Os vinhedos localizados nessas zonas elevadas aparecem sob diferentes denominações, como Hautes-Côtes de Beaune e Hautes-Côtes de Nuits, que especificam a sub-região de origem, ou simplesmente Hautes-Côtes de Bourgogne, quando as uvas podem ser provenientes de diferentes setores do alto da encosta.
Tradicionalmente, esses vinhedos eram considerados menos nobres. Os solos tendem a ser mais rasos, pedregosos e heterogêneos, e a área está mais exposta a ventos, variações térmicas e eventos climáticos adversos. Além disso, recebem uma insolação menos intensa do que as encostas clássicas onde se encontram os Premier e os Grand Crus.
Mas esse último fator — antes uma clara desvantagem — transformou-se em trunfo. Com o aumento das temperaturas médias e a antecipação das colheitas, a altitude e a menor exposição solar passaram a favorecer uma maturação fenólica mais lenta e equilibrada. Isso ajuda a preservar a acidez, o frescor e a complexidade aromática. O resultado é que vinhos cada vez mais expressivos, vibrantes e de excelente relação qualidade-preço têm surgido dessas áreas antes consideradas secundárias, mostrando como o clima pode redesenhar o mapa de prestígio da Borgonha.
E o que esperar em regiões mais quentes?
O aquecimento global tende a ampliar o potencial vitivinícola de regiões tradicionalmente frias — como a Alemanha, citada no início deste texto. Áreas antes consideradas marginais para a Pinot Noir, situadas acima da faixa latitudinal clássica, como Inglaterra e Bélgica, já começam a demonstrar capacidade de produzir exemplares tecnicamente consistentes dessa variedade. Por incrível que pareça!
Em contrapartida, nos climas mais quentes, o panorama é significativamente mais desafiador. Por se tratar de uma casta de maturação precoce e de ciclo fenológico curto, a Pinot Noir, quando cultivada em temperaturas elevadas, tende a atingir rapidamente teores elevados de açúcar. Ao mesmo tempo, sofre uma queda acentuada de acidez e perda de complexidade aromática. É comum a ocorrência de sobrematuração, desidratação parcial das bagas (passerillage) e um perfil sensorial dominado por notas de frutas cozidas, compotadas e especiarias, frequentemente associado ao descritor clássico de fruitcake, ou bolo de fruta inglês. Em resumo, um vinho pesado, desequilibrado e “desnecessário”.
Renato Nahas é um grande apreciador de vinhos que adora aprofundar-se no tema. Concluiu as certificações de Bourgogne Master Level da WSG, e também de Bordeaux ML. É formador com homologação pelo Consejo Regulador de Jerez e Italian Wine Specialist – IWS e Spanish Wine Specialist – SWS.. Sommelier formado pela ABS-SP, possui também as seguintes certificações: WSET3, FWS e CWS, este último pela Society of Wine Educators.
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Fotos: Renato Nahas, arquivo pessoal