Saint-Aubin La Princée de Hubert Lamy: uma pequena vertical

A Domaine Hubert Lamy talvez seja a principal referência na denominação de origem Saint-Aubin, na Côte de Beaune. Com cerca de 18 hectares de vinhedos, concentra boa parte de sua produção em vinhos Premier Cru, elaborando apenas um vinho da categoria Village em Saint-Aubin: La Princée. As uvas têm origem em diversas parcelas (3 hectares no total) de vinhedos plantados em 1985 e 2000 na seção ocidental da denominação de origem, a sudoeste do vilarejo.

Esta parte de Saint-Aubin tem uma peculiaridade: sua orientação. Boa parte da Côte d’Or tem vinhedos com orientação leste ou sudeste, mas a porção ocidental de Saint-Aubin tem vinhedos de orientação sul, refletindo a complexa geografia local. Na prática, isso significa maior exposição solar. Em termos de vinificação, um vinho “tradicional” para os padrões da região: prensa direta leve sedimentação e longa fermentação alcoólica, com leveduras indígenas. O vinho fez estágio de 12 meses em barris de carvalho de 300 a 600 litros, seguido por seis a doze meses em tanques.

Saint-Aubin La Princée 2016

Safra mais complicada, com menor potencial de guarda. Um vinho equilibrado e mais intenso, com a madeira desempenhando um papel mais central que nos demais. Coloração amarelo brilhante, com olfativo marcado por notas de frutas brancas e amarelas, baunilha e toque lácteo. Na boca, alta acidez, corpo médio, boa textura e fruta bem presente, com nota de carvalho também no palato.

Saint-Aubin La Princée 2017

Em uma década quando o aquecimento global marcou presença, uma safra mais “clássica”. E este vinho refletiu isso, com mais verticalidade e tensão. Coloração amarelo brilhante, com nariz trazendo notas de frutas brancas, cítricos, floral, erva verde e pedra molhada. Um palato franco e direto, com acidez cortante e corpo médio, um Chardonnay elegante, fresco, salino e bem seco. Um dos meus destaques.

Saint-Aubin La Princée 2018

Safra de superlativos, com grandes quantidades e muito sol e calor. Claramente isso trouxe mais intensidade de fruta, corpo e densidade ao vinho. Coloração amarelo brilhante, com notas de frutas amarelas e carambola no olfativo. Boca de alta acidez, corpo médio a alto, um vinho mais encorpado, denso e com textura mais presente.

Saint-Aubin La Princée 2019

Para muita gente, 2019 representaria uma síntese de 2017 e 2018, e este Chardonnay parece ter mostrado parte das características dos dois anteriores. O olfativo foi menos frutado que o 2018, com notas de cal, giz e ervas secas ganhando espaço. Já no gustativo, alta acidez, muita textura e corpo médio, um vinho com boa estrutura e leve salinidade, com fruta mais doce e presente que no nariz.

Saint-Aubin La Princée 2020

Foi a safra mais precoce em 25 anos e origem de vinhos mais encorpados e maduros. Neste caso, porém, o vinho trouxe uma tensão e salinidade que mais que compensaram esta “safra solar”. Olfativo com aromas de frutas brancas e amarelas, com interessantes notas de massa de vidro e giz. Na boca, trouxe alta acidez e mais corpo, com boa textura, densidade e fruta mais doce, porém com um delicioso retrogosto salino.

Saint-Aubin La Princée 2021

Quebra de safra por conta de uma devastadora geada em abril, com vinhos mais clássicos. E foi o caso aqui, um vinho de muita tensão e verticalidade, mas mostrando boa profundidade para um Village. Nariz trazendo notas cítricas, erva verde, maresia e pólvora (o único que mostrou uma linha mais “redutiva”). No palato, acidez cortante, equilíbrio e salinidade, um Chardonnay delicioso, fresco e sutil, porém sem perder estrutura. Uma pequena joia.

Resumo

Sem exceção, todos os vinhos mostraram um alto padrão de qualidade, sempre lembrando que estamos falando de um Village de uma denominação de origem sem o glamour de Puligny-Montrachet ou Meursault, por exemplo. É um produtor que realmente sabe o que faz, que raramente decepciona em suas escolhas de ponto de colheita e vinificação.

De forma geral, os vinhos refletiram bem as safras e, por conta destas diferenças, agradam paladares distintos. Quem prefere brancos mais secos, tensos e minerais encontrará seus destaques em 2017 e 2021, com 2019 na sequência. Já quem aprecia mais estrutura e fruta mais presente, pode contar com 2020 e 2016. Em resumo, um belíssimo e altamente educativo painel.  

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